COVID-19: brasileiros inventam rodo com radiação UV para combater coronavírus

Por Fidel Forato | 12 de Maio de 2020 às 15h25
Bloomerang

Na pandemia da COVID-19, cientistas, médicos e pesquisadores estão buscando respostas para o controle do novo coronavírus (SARS-CoV-2), desde o desenvolvimento de uma vacina até a criação de aparelhos para higienização de ambientes. Este é o caso do Instituto de Física de São Carlos (IFSC), da Universidade de São Paulo (USP), produz equipamentos para descontaminação hospitalar. 

Doados para Santa Casa da Misericórdia, em São Carlos, os rodos higienizadores, do Grupo de Óptica do IFSC, emitem radiação ultravioleta (UV). Assim, o equipamento é capaz de descontaminar pisos, por exemplo, eliminando vírus e reduzindo a propagação da COVID-19. Já que, em outras circunstâncias, os seres microscópicos poderiam persistir, durante muitas horas, em diferentes superfícies, como metais, vidros e plásticos, contaminando pessoas saudáveis.

Equipado com luz ultravioleta, rodo auxilia higienização de hospitais em São Paulo (Foto: Rui Sintra/ IFSC/ USP)

Pode parecer estranho que uma espécie de rodo, adaptado com luz ultravioleta, seja capaz de eliminar vírus e bactérias de uma área, mas é exatamente isso. Para entender melhor como essa tecnologia funciona, o Canaltech conversou com Sebastião Pratavieira, professor da USP São Carlos e doutor em física pela mesma instituição, que participou da iniciativa. 

Diferentes tipos de UV 

É importante entender que a luz ou a radiação ultravioleta é uma fração do espectro eletromagnético, que abrange os comprimentos de onda abaixo da luz visível, ou seja, aqueles que o olho humano não é capaz de enxergar. Por sua vez, essa fração é subdividida em outros três tipos: UV-A, com comprimentos de onda variando de 320 a 400 nanômetros (nm); UV-B, com comprimentos de onda variando de 280 a 320 nm; e UV-C, com comprimentos de onda variando de 200 a 280 nm.

Cada tipo dessa radiação UV é responsável por causar algum dano biológico. Por exemplo, a UV-A provoca alterações na pele, causando o envelhecimento precoce, enquanto isso a UV-B, além de atuar no envelhecimento da pele, é a principal responsável por causar mutações genéticas que levam ao desenvolvimento de câncer de pele. Já a UV-C, usada nos rodos higienizadores, é considerada a mais insalubre, ou seja, a faixa germicida.

"Todos os tipos são emitidos tanto por lâmpadas quanto pela luz solar. O que acontece é que a UV-C é, totalmente, absorvida pela camada de Ozônio, da Terra", comenta o professor Pratavieira. “Quanto à UV-C, não temos estudos específicos que demonstrem que ela é responsável pelo câncer de pele [igual as outras], mas é uma radiação extremamente perigosa, que oxida, leva a destruição de várias moléculas”, explica, sobre os riscos dessa radiação e do próprio equipamento, quando manuseado de forma errada.

Como funciona?

Segundo a equipe responsável pelo desenvolvimento, os rodos devem ser utilizados durante um minuto em cada metro quadrado da superfície (com a possível presença do novo coronavírus) a ser descontaminada, através da energia da luz. Afinal, luz é uma forma de energia e, nesse contexto, a luz ultravioleta é ainda mais potente.

As luzes UV-A e UV-B, por exemplo, causam câncer, porque afetam o DNA humano e podem ocasionar uma mutação, o que leva à formação de um câncer, por exemplo. Já a UV-C é ainda mais energética que as anteriores. “Essa luz com mais energia destrói a capa lipoproteica do vírus [como, provavelmente, do novo coronavírus] e quebra também a cadeia de RNA do vírus. É como se estivéssemos causando 'um câncer' no vírus, o que leva àinativação do microrganismo", exemplifica o doutor em física.

Embora não se tenha comprovações específicas de que a radiação ultravioleta possa eliminar o coronavírus, "os indícios de levar à inativação usando a luz UV-C são bem grandes", esclarece o professor. Isso porque a descoberta do novo coronavírus ainda é muito recente e, além disso, a técnica já foi testada com sucesso em inúmeros outros tipos de vírus.

“Não se pode aplicar a técnica em pessoas e nem em animais", alerta Pratavieira. O equipamento é desenvolvido, exclusivamente, para superfícies inanimadas, como um corrimão de escada ou as paredes de um metrô, em ambientes com alta circulação de pessoas e altas chances de ser exposto ao coronavírus. 

Equipamento com radiação ultravioleta é desenvolvido por equipe de físicos contra a COVID-19 (Foto: Rui Sintra/ IFSC/ USP)

Usos comercias

“Antes do coronavírus, nossa ideia era comercializar o equipamento [os rodos doados para o hospital] para empresas alimentícias, supermercados e açougues. Em vez de passar um produto químico a todo momento no ambiente, eles poderiam passar o rodo para diminuir a contaminação de bactérias, por exemplo", afirma o pesquisador sobre os planos iniciais. 

Foi há dois anos que a equipe de físicos da USP percebeu que poderiam desenvolver sistemas para descontaminação UV-C, mais controlados. Isso porque, na internet, é fácil encontrar sites que comercializam supostos equipamentos com radiação ultravioleta. No entanto, como lembrar o professor Pratavieira "é uma luz perigosa e que deve ser aplicada de uma forma bem controlada".

Atualmente, a equipe de São Carlos conta com dois tipos de equipamento semelhantes para a higienização. O que os difere são os tamanhos. Ambos com radiação ultravioleta, um deles é para uso doméstico e permite a limpeza de teclados e celulares, já o outro foi elaborado para a descontaminação de superfícies maiores, como  chão e paredes. 

Além da desinfecção de ambientes hospitalares, essa fonte de luz UV-C também é usada para, em conjunto com outros fatores, descontaminar órgãos humanos antes de uma cirurgia de transplante, em um trabalho de pesquisa realizado conjuntamente pelo IFSC e pela Universidade de Toronto, do Canadá.

Fonte: Com informações: Governo de São Paulo

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