Coronavírus: voluntários contam como foi tomar vacinas em teste no Brasil

Por Natalie Rosa | 21 de Agosto de 2020 às 14h11
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No mês de julho, o Brasil passou a se tornar cenário de testes de vacina contra a COVID-19, visto a alta constante nas contaminações e a posição do país no ranking dos que mais sofrem com a doença. Com isso, logo foi preciso de voluntários que topassem ser cobaias desses projetos, assumindo o risco de passar por efeitos colaterais, que podem ser leves ou intensos, por um bem geral.

Enquanto todos estamos ansiosos para conferir os resultados finais desses processos, o Canaltech foi atrás de pessoas que estão participando dessas etapas de testes da vacina contra o coronavírus, buscando entender melhor como tudo funciona, como surgiu essa oportunidade e os motivos que os levaram a topar a participação. Antonio Luis Mota (56), DJ e produtor de eventos, não está incluso no grupo de risco da COVID-19, de modo geral, pela idade e por não possuir doenças pré-existentes. No entanto, ele diz sentir medo por ter sido fumante em uma época de sua vida, mesmo largando o vício há 10 anos, e também por sua esposa, Tatiana Dinato Chaves, profissional de marketing (36), ser asmática.

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O Canaltech também conversou com Tatiana, que nos revelou estar trabalhando em home-office desde o início da quarentena justamente por estar no grupo de risco da doença. O casal participou dos testes da vacina da Pfizer/BioNTech em São Paulo e, segundo eles, a pesquisa tem duração total de dois anos e as companhias garantem tratamento médico completo por todo esse período caso algum sintoma do coronavírus apareça. “Eles te garantem todo o tratamento caso venha a acontecer algo de estranho/ruim ou se você acabar pegando COVID-19 no meio do teste. Como é o último grupo de testes, ela já está praticamente pronta, então o risco de ter algum problema é quase nulo”, afirmou Tatiana.

Larissa Santos, fisioterapeuta que mora em Curitiba, vem participando dos testes de vacina da chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. Ela não faz parte do grupo de risco, mas trabalha na linha de frente como profissional de saúde e está sempre em contato com pessoas. Ela nos contou que recebeu a notícia de que precisavam de voluntários para a vacina pelo WhatsApp e não hesitou em aceitar. "Sei da necessidade de um grande contingente de pessoas para validar a vacina e assim ela ser liberada de forma mais rápida. Como já estou na linha de frente, estar continuamente exposta à COVID-19 no trabalho já se aproxima dos riscos de receber a vacina e apresentar os sintomas", conta a fisioterapeuta.

Antes e depois da aplicação

Larissa revelou que o termo de consentimento é bastante extenso, contando com cláusulas sobre o aparecimento de sintomas e que, se isso acontecer, terá todo o suporte do Hospital de Clínicas a qualquer momento, além do direito a acompanhamento online. Antonio ficou sabendo do voluntariado através de um telejornal que informou a abertura dos testes para cidadãos comuns, não somente profissionais de saúde. "Sendo bem honesto, me voluntariei por confiar nas empresas envolvidas e principalmente por minha esposa ser do grupo de risco. A informação que vi na imprensa era meio vaga, mas eu corri atrás e já no dia seguinte rolou o teste", diz o DJ.

Tatiana, por outro lado, não havia gostado da ideia inicialmente, meses atrás, mas tudo mudou quando o marido contou da notícia que viu. "Ele viu em um telejornal falando da vacina da Pfizer, dizendo que eles iam abrir para população entrar no terceiro e último grupo de testes. Deu uma pesquisada no Google, achou um telefone e ligou para saber mais. Na mesma hora nos retornaram, explicando como tudo seria feito e eu fiquei convencida em testar com ele já que era um grupo final. Porém, metade da turma toma a vacina a outra metade placebo, então ninguém consegue saber se tomou ou não a vacina. É tudo muito sigiloso", explica.

Tatiana e Antonio no dia da aplicação da vacina (Foto: Arquivo pessoal)

Antes de receber a vacina, as empresas precisam saber um pouco do histórico de saúde do voluntário, o que é crucial para garantir que a pessoa não terá uma má reação ao composto das doses e também para o monitoramento futuro. Larissa conta que a primeira etapa é responder um questionário que vai revelar se a pessoa está apta a participar da pesquisa, sendo depois liberada para fazer o cadastro.

"Então é agendado para você ir ao local da pesquisa e iniciar as etapas: leitura do TCLE (Termo de Consentimento Livre e Esclarecido), explicações da equipe sobre o passo a passo das etapas, avaliação física, exame de sangue, urina, teste rápido para a COVID-19 mais os swabs (teste dos cotonetes), recebimento da vacina e observação por uma hora após o recebimento, com liberação por um médico ao final. A partir daí, temos um livro diário para acompanhamento dos sintomas ou quaisquer reações da vacina no corpo, assim como um termômetro para acompanhar nossa temperatura”, revela a fisioterapeuta.

No caso de Tatiana e Antonio, eles foram contatados no dia seguinte após o voluntariado e logo foram ao local. Lá, eles preencheram fichas e assistiram a uma palestra explicando sobre o funcionamento da vacina, assinaram o termo de consentimento e tiraram todas as dúvidas que apareceram. Ambos também foram testados para a COVID-19 antes, fazendo os testes de anticorpos (reagentes) e dos cotonetes (que detectam presença do vírus), e precisaram listar todos os remédios e vacinas tomados nos últimos dias e meses. Tatiana também precisou fazer um teste de gravidez.

“Precisamos nos encaixar perfeitamente nas regras do teste que, por exemplo, não é feito em mulheres grávidas. Assistimos a uma palestra que explica como funciona a vacina, o processo e tiramos todas as dúvidas. Depois disso tudo, tomamos a vacina (ou placebo) e após o procedimento, baixamos um app no celular para monitorar diariamente tudo o que acontece em nosso corpo de diferente, como se tivemos enxaqueca ou vômitos, etc”, complementa Tatiana. No dia seguinte, Antonio relatou sentir muita dor no local da vacina e precisou tomar um anti-inflamatório leve e fazer compressas com bolsa térmica quente, melhorando no terceiro dia. "Senti uma outra coisa que estranhei bastante. Tenho tendinite nos ombros, e a dor da tendinite que aparece nessa época de frio desapareceu completamente já na primeira noite. Até brinquei com eles, pois relatei isso por WhatsApp, dizendo que tinham me dado vacina para tendinite, e não para COVID-19", brinca o produtor de eventos. Possivelmente, a dor amenizou após o anti-inflamatório que ele tomou.

Larissa acaba de receber a primeira dose e precisa voltar para a segunda. Então, a cada duas semanas irá retornar ao local para acompanhamento e avaliação da pesquisa. "Em cada etapa sempre é enfatizado que qualquer reação alérgica à vacina ou aparecimento de algum sintoma esteja relacionado com a COVID-19 ou não, para avisarmos via contato telefônico e que a qualquer momento posso ir ao HC para receber atendimento", explica a fisioterapeuta, contando que não sentiu nenhum efeito colateral.

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Todos eles voltaram para casa com confiança de que terão o acompanhamento necessário caso alguma reação grave, ou até a contaminação pela doença, aconteça. “Eles também deixam em nossa mão um kit de auto-swab, que podemos fazer caso a gente tenha algum sintoma de COVID-19. Eles retiram o kit via motoboy caso a gente não ache bom ir até o laboratório para fazer, é uma segurança”, acrescenta Antonio. Ele e a esposa continuarão sendo acompanhados por dois anos, indo todos os meses colher sangue para exames.

Considerações

Para Larissa, a experiência de fazer parte dos testes foi boa por ter observado que houve todo o cuidado necessário. "A experiência foi boa, todas as minhas dúvidas foram tiradas, as explicações foram repetidas várias vezes. A equipe que está realizando a pesquisa me passou segurança e credibilidade. Não tem como saber da eficácia ainda, preciso aguardar a finalização das etapas e o resultado final da pesquisa para poder relatar", conta.

Tatiana também achou a oportunidade bastante positiva, ainda melhor do que havia imaginado. "Tudo muito tranquilo, super explicado, com segurança total, acompanhamento médico 100%. Acredito sim na eficácia da vacina deles. Só não consigo ter certeza se tomei a vacina ou o placebo, né? Entrar para um grupo desses não significa que devemos anular os cuidados que já tínhamos (como usar máscara e trocar a cada duas hora, álcool gel sempre), mesmo se tivéssemos a certeza que não tomamos o placebo", alerta a profissional de marketing. "Vamos continuar com todos os cuidados e torcer para que seja confirmada a eficácia completa da vacina", acrescenta.

Antonio também não tem do que reclamar da experiência de se voluntariar para os testes da vacina da COVID-19, mas que não é tão satisfatório assim não saber se tomou a placebo ou a dose verdadeira. "Como é um exame 'cego', nem o laboratório CEPIC sabe quem tomou a vacina ou o placebo, e o material nosso que foi coletado para exames foi enviado para ser analisado nos Estados Unidos", explica o DJ, complementando ainda que de um modo geral confia na eficácia das doses.

"O procedimento vem sendo bem sério e aparentemente seguro, e como nas duas primeiras fases eles já obtiveram resultados positivos de eficácia da vacina, tenho muita confiança, sim! Só espero que me comuniquem após o segundo exame se eu já desenvolvi anticorpos mesmo e estou realmente imunizado", pontua. Além disso, nos testes da Pfizer, contaram ao casal que se quiserem podem tomar outra vacina ou ainda se voluntariar em outro laboratório. "Ele até disse que é muito provável que essa combinação de vacinas diferentes seja algo que vá acontecer de forma cotidiana", completa.

Você também foi voluntário de algum teste da vacina contra a COVID-19? Que tal nos contar a sua experiência aqui nos comentários?

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