Coronavírus no BR | Será que a vacina contra a COVID-19 vai barrar a pandemia?

Por Fidel Forato | 31 de Julho de 2020 às 16h10
Willfried Wende/Pixabay

Diante da pandemia da COVID-19 que já afetou, diretamente, mais de 17 milhões de pessoas, o mundo aposta em uma vacina contra o novo coronavírus (SARS-CoV-2) como a principal saída da crise tanto humana quanto econômica. Afinal, mais de 650 mil pessoas vieram ao óbito pela doença. Nesse cenário, pesquisadores e cientistas trabalham, literalmente, 24h por dia no desenvolvimento de uma vacina segura e eficaz contra a infecção.

No entanto, uma fórmula que pode desencadear a produção de anticorpos contra a COVID-19 no organismo humano e gerar uma proteção duradoura contra o agente infeccioso deve ser a melhor resposta para a atual pandemia, ajudando os países a voltarem ao "normal"? Caso sim, quais são as perspectivas do Brasil para o controle de casos do novo coronavírus, a partir de uma vacina?

Até o momento, uma vacina contra a COVID-19 é a melhor aposta para conter a pandemia (Foto: reprodução/ Unsplash)

Para desvendar a situação real do país e entender os possíveis desafios da imunização em massa, o Canaltech conversou com a infectologista e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Raquel Silveira Bello Stucchi, sobre a COVID-19.

Coronavírus: sétimo mês

Com mais de 2,5 milhões de casos do novo coronavírus no Brasil, segundo os dados levantados pela Worldometer, e mais de 90 mil óbitos pela doença, “a expectativa é que a vacina consiga conter a pandemia [tanto no mundo quanto no Brasil]. Inclusive, é esse o objetivo das vacinas e foi assim com o controle de outras doenças, como varíola, febre amarela e poliomelite", pontua a infectologista Stuchhi sobre a importância das pesquisas em andamento.

“Temos um número próximo a seis vacinas sendo testadas em fase 3 [quando os testes costumam ser em uma população de milhares de pessoas]. A expectativa para uma vacina é muito grande e pelo que se tem de conhecimento, nesses sete meses de pandemia, parece ser a única forma de controlar, de maneira eficaz, a transmissão do coronavírus", argumenta a professora da Unicamp.

"Não temos uma vacina, provavelmente não teremos para esse ano, não sabemos quando seremos contemplados e não temos nenhum tratamento eficaz contra o novo coronavírus, mas sabemos que distanciamento social, o uso correto de máscaras de tecido e a higienização das mãos podem conter as transmissões. É isso que cada um de nós deve manter até que se tenha uma vacina", orienta.

Nesse contexto, a vacina é bastante esperada tanto para salvar vidas quanto para a retomada econômica. Afinal, como explica Stuchhi, "as outras medidas, como o isolamento, tem um impacto direto na transmissão, mas elas também geram dificuldades econômicas muito grandes".

Quando a vacina deve chegar?

Não há uma resposta exata para se saber quando a vacina ou as vacinas contra a COVID-19 estarão disponíveis, afinal, isso depende de uma série de estudos clínicos em andamento. Por outro lado, o que se sabe é que a fórmula desenvolvida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, com participação da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), e a potencial vacina da farmacêutica chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, entraram em sua última etapa de testes esse mês no Brasil. Outras, como a da norte-americana Pfizer, também entrarão nos próximos dias.

"Há um prazo de dois a três meses para avaliação de eficácia e de feitos colaterais, tudo indo conforme o desejado, para o final de ano [ainda em 2020] nos teremos já essas vacinas liberadas, prontas para serem administradas. Os laboratórios responsáveis por essas vacinas, inclusive, estão com uma produção grande, mesmo antes da resposta se serão realmente efetivas, isso de tão otimistas que estão", prevê a infectologista sobre a distribuição oficial em 2021.

Com distribuição previsa para 2021, vacinas contra a COVID-19 devem ser concluída no final desse ano (Foto: Retha Ferguson/Pexels)

Por esse mesmo caminho, o governador do estado de São Paulo, João Doria, anunciou nessa semana que a vacina chamada de Coronavac, feita pelo laboratório chinês e em parceria com um Instituto Butantan, deve ser disponibilizada para a vacinação, em massa e de forma gratuita, no Brasil a partir de janeiro do ano que vem. O governador também defendeu, na ocasião da sua fala, que "a melhor notícia que poderíamos ter é a vacina".

Quanto a vacina desenvolvida por Oxford, o Brasil, a partir de um acordo internacional com a universidade britânica, deve ser contemplado com a transferência de tecnologia para produção interna da vacina. Nacionalmente, essa produção será realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e, até completarem os processos necessários, os pesquisadores da instituição apostam que a vacinação comece em fevereiro de 2021 no SUS.

Por enquanto, a produção de outras vacinas em solo nacional dependem de acordos realizados pelas farmacêuticas com autoridades brasileiras.

Distribuição da vacina

“Se há uma coisa que funciona muito bem e há muito tempo no país, é o Programa Nacional de Imunizações. Já temos uma logística de distribuição de vacinas que é muito adequada para todo o território nacional e para vacinas com as características mais diversas, em termos de apresentação, como as que são em via oral e injetáveis", esclarece a infectologista sobre a vantagem que o Brasil terá na distribuição da potencial vacina.

“Agora, nós não sabemos ainda quanto tempo dura a proteção, se vai ser a mesma proteção para todas as pessoas de todas as faixas de idade, se alguma faixa etária precisará de uma dose maior ou mais de uma dose [a vacina chinesa deve demandar duas doses]. Só saberemos isso com os resultados da fase 3", esclarece Stucchi sobre a importância dessa última etapa de testes e os desafios que ainda cercam o desenvolvimento das vacinas.

Um dos potenciais problemas para as fórmulas, em desenvolvimento, seria uma mutação inesperada do novo coronavírus, o que poderia impedir a eficácia do imunizante em desencadear uma produção de anticorpos no corpo da pessoa vacinada. Quanto a isso, a infectologista não vê grandes questões, já que nos sete meses de pandemia, não ocorreu nenhuma mutação significativa desse vírus

"Claro, pode acontecer alguma mutação, o vírus da gripe sofre constantes mutações, mas mesmo assim se consegue fazer uma vacina nova todo ano. Uma vez tendo incorporado a vacina, a tecnologia de fabricação não teria dificuldade de fazer adequações na vacina com outros materiais genéticos do vírus", completa a professora.

Quão eficaz a vacina deve ser?

Se as probabilidades de uma potencial vacina contra a COVID-19 ser desenvolvida até o final do ano são positivas, a questão final é entender o quão eficazes elas precisariam ser e quantos deveriam receber a vacinação para se barrar, de vez, a pandemia. Para isso, pesquisadores da Universidade da Cidade de Nova Iorque desenvolveram uma simulação computacional que conseguiu prever possíveis quadros de vacinação e os seus resultados.

Antes é importante entender que a eficácia de uma vacina representa a probabilidade uma pessoa vacinada não se contaminar pelo coronavírus. Por exemplo, se 10 pessoas receberam a vacina contra a COVID-19 e a vacina usada tiver uma eficácia de 80%, isso significa que oito delas não serão infectadas. Para se comparar, a vacina contra o sarampo tem uma eficácia de 95 a 98%.

Conforme foi apresentado no artigo publicado no American Journal of Preventive Medicine, se quase ninguém nos Estados Unidos tivesse sido infectado pelo coronavírus - o que não é mais um quadro real, depois que 4,5 milhões de americanos já se infectaram -, as simulações demostram que a eficácia da potencial vacina teria que ser de pelo menos 60% para interromper o coronavírus, desde que toda a população fosse vacinada.

"Este estudo constatou que a vacina deve ter uma eficácia de pelo menos 70% para evitar uma epidemia e de pelo menos 80% para extinguir amplamente uma epidemia sem outras medidas (por exemplo, distanciamento social)", afirmam os autores do estudo estatístico.

Para aplicar essa simulação nas vacinas em desenvolvimento, por enquanto, é muito cedo. Isso porque o grau de eficácia de cada vacina será melhor compreendido quando se completarem a fase três de testes, que é quando suas capacidades de imunizar serão testadas de forma real e, não mais, em pequenos grupos controlados.

Fonte: Com informações: Discover Magazine, Worldometer e Agência Brasil (1) e (2)

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.