Coronavírus: é possível pegar COVID-19 duas vezes?

Por Fidel Forato | 06 de Março de 2020 às 18h01
AFP/ Getty Images

A nova infecção causada pelo coronavírus SARS-CoV-19, segue levantando questionamentos junto à comunidade científica global, isso porque pesquisadores sabem muito pouco sobre a doença COVID-2019. Entre as dúvidas, está a possibilidade de reinfecção pelo vírus. As pessoas que se recuperam de um ataque com o novo coronavírus podem ser infectadas novamente?

A questão vem à tona depois do governo japonês informar, nesta semana, que uma paciente de Osaka havia testado positivo para o coronavírus pela segunda vez, semanas após se recuperar da infecção do novo coronavírus e receber alta médica.

O caso de Osaka se junta a outros relatos semelhantes da China. No entanto, ainda é cedo para conclusões precipitadas e especialistas acreditam que é improvável que esses sejam casos de pessoas infectadas pela segunda vez, mesmo que reinfecções sejam comuns em pacientes que se recuperaram de coronavírus em geral — no caso daqueles que causam o resfriado comum.

No Japão, mulher apresenta o novo coronavírus, em seu corpo, após ser liberada do hospital (Imagem: Getty Images)

Pouco tempo

"Não estou dizendo que a reinfecção não possa ocorrer, nem que nunca ocorrerá, mas nesse curto espaço de tempo é improvável", explica Florian Krammer, virologista da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, em Nova Iorque. Afinal, mesmo as mais leves infecções devem deixar pelo menos uma imunidade alta, no curto prazo, contra o vírus no organismo do paciente, explica a especialista. Nesse quadro, estaria a paciente de Osaka.

De acordo com a explicação de Krammer, o provável é que os pacientes "reinfectados" ainda apresentassem baixos níveis do novo coronavírus no organismo, quando receberam alta do hospital, e os testes não conseguiram detectar essa presença.

Vida longa

Em relatório divulgado pela publicação JAMA Network, pesquisadores da Wuhan University defendem que pacientes podem ter resultados positivos para o vírus muito tempo depois de terem se recuperado. No estudo, quatro profissionais médicos expostos ao vírus na cidade chinesa de Wuhan, permaneceram positivos para a infecção do novo coronavírus entre cinco a 13 dias, depois de ficarem assintomáticos, ou seja, depois de não apresentarem mais sintomas clínicos. Isso não significa, necessariamente, que eles ainda transmitiam o vírus SARS-CoV-19.

O resultado pode ser explicado porque a análise é feita através do PCR, um teste altamente sensível. Por isso mesmo, os pesquisadores acreditam que o exame esteja apenas captando fragmentos do novo coronavírus. Por exemplo, os exames de PCR podem detectar remanescentes do vírus do sarampo meses depois que as pessoas que tiveram a doença, comenta Krammer.

Entenda o caso japonês

Na primeira vez em que deu entrada no hospital, no final de janeiro, a mulher japonesa apresentava sintomas leves de infecção pelo novo coronavírus. Após a confirmação da infecção e o respectivo tratamento, a paciente foi liberada do hospital no dia primeiro de fevereiro. Depois de quatro semanas, na quarta-feira (26), depois de apresentar dores de garganta e no peito, os seus exames deram positivo para a presença do SARS-CoV-2019.

"Isso certamente parece que poderia ser um ressurgimento real do vírus na forma infecciosa", explica Marc Lipsitch, epidemiologista da Harvard TH Chan School of Public Health. Nesse contexto, é possível que o novo coronavírus aja como uma infecção bifásica, ou seja, esse vírus persiste e causa um conjunto de sintomas diferentes daqueles observados no ataque inicial na segunda reincidência.

Em pacientes infectados pelo Ebola, por exemplo, o vírus pode persistir por meses nos testículos ou nos olhos, mesmo após a recuperação. Nesses casos, os infectados seguem com a capacidade de transmitir o vírus por todo esse tempo. Além disso, a pessoa recuperada também pode desenvolver outros sintomas, como insônia e problemas neurológicos, afirma Angela Rasmussen, virologista da Columbia University.

"Não sabemos se é esse o caso do coronavírus", explica Rasmussen. "Não conhecemos nada sobre esse vírus." Isso porque a família dos coronavírus ainda é pouco compreendida por esta perspectiva. Antes da epidemia de SARS (síndrome respiratória aguda grave), de 2002, também iniciada na China, os coronavírus não eram conhecidos por causar doenças respiratórias graves.

Há ainda a possibilidade de a paciente de Osaka nunca ter sido "curada" do novo coronavírus e ter sido liberada após erros nos exames. Afinal, o teste falso-negativo, que a liberou, hipoteticamente pode ter sido mal-executado ou as amostras podem ter sido armazenadas a uma temperatura na qual o vírus tenha se deteriorado.

Estudo dos coronavírus

O novo coronavírus se parece muito com os responsáveis pela infecção SARS e, em menor grau, com os responsáveis pela MERS (Síndrome respiratória do Oriente Médio). Quanto ao primeiro tipo do coronavírus, não há relatos de reinfecções com o vírus da SARS, comenta o Dr. Stanley Perlman, especialista em coronavírus da Iowa University.

Entre outras questões levantadas pela possibilidade de reinfecção, a duração da imunidade também será um ponto importante a ser resolvida no desenvolvimento de uma nova vacina para este coronavírus. E entender seu funcionamento será ainda mais importante, se o vírus se tornar uma ameaça sazonal como a gripe.

Fonte: The New York Times

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