Como uma biópsia guiada por robô pode melhorar o diagnóstico do câncer?

Por Fidel Forato | Editado por Claudio Yuge | 03 de Março de 2021 às 17h40
Reprodução/ Mayo Clinic

Diretamente conectada com a tecnologia, a medicina se beneficia cada vez dessa relação para aprimorar diagnósticos e auxiliar na tomada de decisões, através da Inteligência Artificial (IA). A robótica é também é um elemento chave nas transformações que a área médica passa, como nas biópsias guiadas. Nesses casos, um robô traça o melhor caminho para a coleta de uma amostra, como a de um tumor, ser mais certeira e menos invasiva.

No futuro, este uso dos robôs na sala de cirurgia deve favorecer pacientes que moram em regiões mais distantes, onde médicos especialistas são mais raros e, hoje, precisam se deslocar para centros de pesquisa. É o caso do paciente Erasmo Maradiaga, de 26 anos, que recebeu seis diagnósticos diferentes para um tumor de médicos de Honduras, em um intervalo de cinco anos. A resposta do tipo do tumor, localizado na coluna vertebral, só veio quando optou por uma biópsia guiada por robôs — um procedimento inédito — com a equipe da Mayo Clinic, nos EUA.

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Biópsias guiadas por robôs devem garantir diagnósticos mais precisos, onde faltam especialistas (Imagem: Reprodução/ Reprodução/ Mayo Clinic)

Para entender, os benefícios do uso da robótica durante as cirurgias e o cenário da medicina de precisão para os próximos anos, o Canaltech conversou, por e-mail, com os médicos responsáveis pela biópsia guiada por robótica, o Dr. Selby Chen e o Dr. Alfredo Quinones-Hinojosa. Ambos são neurocirurgiões da Mayo Clinic.

Como funciona uma biópsia guiada?

De acordo com o neurocirurgião especialista em robôs, Dr. Selby Chen, o braço robótico auxilia no traçado da rota que os médicos darão para coletar uma amostra do tumor e, para isso, avalia algumas variáveis de risco. "O robô auxilia na criação da trajetória mais precisa possível em direção ao local de destino da biópsia. O braço robótico se move para a posição no intuito de guiar a agulha de biópsia ao longo da trajetória predeterminada", comenta Chen.

No entanto, nesses procedimentos, "o cirurgião continua sendo o responsável por inserir a agulha ou a cânula de biópsia no braço robótico e obtendo o tecido", explica Chen. Em outras palavras, a intervenção do equipamento, o Medtronic Mazor X, ainda é pequena perto das possibilidades que a ciência poderá oferecer. "A expectativa é que, à medida que os robôs se tornam mais prevalentes na cirurgia, eles serão usados com mais frequência para melhorar a precisão, segurança e eficiência dos procedimentos da coluna vertebral", especula Chen.

Caso de Honduras

No caso do paciente de Honduras, antes de realizar a biópsia guiada por robôs, ele chegou a ser diagnosticado com tuberculose, por exemplo. Após descartarem essa hipótese, a primeira biópsia confirmou ser um tumor, no caso um linfoma não Hodgkin (LNH), e o paciente pôde começar a quimioterapia. Embora o tratamento tenha alcançado a remissão em um determinado momento, o câncer reapareceu várias vezes nos cinco anos seguintes. Durante esses anos, o paciente fez outras três biópsias e recebeu seis diagnósticos diferentes, já que existem mais de 60 subtipos desse linfoma.

Robô auxilio na rota que médicos farão para a coleta de amostras em biópsia (Imagem: Reprodução/ Mayo Clinic)

“Foi muito difícil para meus médicos de Honduras chegarem a um diagnóstico final, o que dificultou o planejamento do tratamento”, comenta o paciente. “Os médicos disseram que não tinham tecnologia para fazer o trabalho de biópsia e também de patologia. Eles me pediram para procurar nos Estados Unidos”, explica. Só então, o paciente foi submetido a uma biópsia de coluna guiada por robô. Com a dupla de neurocirurgiões, o paciente obteve o diagnóstico preciso de um linfoma linfoblástico B e, dessa forma, deu início ao tratamento adequado para o seu tipo de câncer.

Robôs serão aliados dos médicos? 

Mesmo que robôs já auxiliem a prática médica, nos próximos anos, novos avanços devem ser integrados para o próximo estágio dessa relação entre humanos e máquinas, como cirurgias totalmente remotas. "Teremos que incorporar várias tecnologias de imagem e de ressonância magnética que estamos desenvolvendo na Mayo Clinic", afirma o Dr. Alfredo Quiñones-Hinojosa.

"Precisamos considerar outras tecnologias, porque [hoje] estamos tentando fornecer um diagnóstico mais preciso para pacientes com doenças na coluna vertebral, como no caso deste paciente, no cérebro ou no sistema nervoso central", aponta o neurocirurgião sobre as possibilidades, além da necessidade de se incorporar, de forma mais profunda, a IA nos procedimentos.

"Então, precisaremos tentar dar sentido a todos esses dados [disponíveis de cada paciente] — isso será crucial. A maneira como incorporamos esses dados à nova tecnologia de imagem e à robótica será fundamental. E estamos falando sobre a expansão para além dos EUA e para outras partes do mundo, onde eles não têm o mesmo nível de especialização", comenta.

"Talvez, eu possa, da Mayo Clinic na Flórida, daqui a cinco, dez anos, ser capaz de entrar no meu módulo de comando robótico e fazer cirurgias no Equador, Peru, México, Brasil ou Panamá", aposta o neurocirurgião. "Esse vai ser o futuro. Penso que a medicina está mudando — assim como a economia e a tecnologia — e esses avanços poderão nos conectar ao atendimento de pacientes em todo o mundo", completa.

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