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Como um câncer de pulmão consegue chegar no cérebro?

Por| Editado por Luciana Zaramela | 03 de Fevereiro de 2023 às 17h40

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Alinabuphoto/Envato
Alinabuphoto/Envato

Na quinta-feira (2), após anos de tratamento oncológico, a jornalista Glória Maria faleceu. Em 2019, foi diagnosticada, pela primeira vez, com um câncer no pulmão e, mais recentemente, devido à metástase, a doença chegou ao cérebro. A apresentadora também passou por cirurgias para remover os tumores no cérebro, mas o quadro não evoluiu conforme o esperado.

Embora o caso de Glória Maria seja bastante emblemático por ter sido uma notória brasileira, o câncer de pulmão é um dos tipos mais comuns no Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a condição atinge cerca de 32,5 mil pessoas por ano no país. Para estes indivíduos também existe o risco da doença entrar em metástase e se espalhar para outras partes do corpo, como o cérebro.

Para entender como um câncer de pulmão consegue chegar ao cérebro e quais são os riscos, o Canaltech conversou com o médico Feres Chaddad, professor e chefe da disciplina de neurocirurgião da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O especialista também é chefe da neurocirurgia da BP — a Beneficência Portuguesa de São Paulo.

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É realmente difícil de tratar o câncer de pulmão quando se espalha pelo corpo?

Antes de seguirmos, vale se atentar a uma questão: o câncer de pulmão é um tipo com prognóstico mais complexo, conforme indica o senso-comum? Para o médico Chaddad, infelizmente, a resposta é sim. "É um câncer de tratamento difícil, com chance de cura relativamente baixa", explica. Isso porque "menos da metade das pessoas conseguem ficar curadas", revela.

Agora, quando um tumor já se espalhou pelo corpo — quando está em metástase —, o tratamento se torna ainda mais complexo. "Um paciente com metástase, já tem um câncer mais agressivo e a chance de responder ao tratamento não é tão alta assim", pontua. Apesar disso, em alguns casos, há cura e, em outros, a pessoa consegue manter a qualidade de vida por meses ou anos.

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Como o câncer em metástase chega até o cérebro?

Quando pensamos em um tumor, existe a ideia de que é algo fixo, mas, na verdade, não é. Esta neoplasia maligna está em constante crescimento e, conforme se expande, na fase da metástase, consegue chegar a outras partes do corpo, diferentes do local inicial.

"As principais vias de contaminação são pelo sangue — que se chama de hematogênica —, pelo sistema linfático ou por proximidade", explica o neurocirurgião Chaddad. No último caso mencionado, "conforme o tumor vai crescendo, ele vai invadindo os tecidos vizinhos", detalha.

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O corpo não se defende da evolução do câncer?

Cabe destacar que, sim, o organismo tem defesas naturais contra o crescimento das células malignas, como as oncológicas. "Muitas vezes, o corpo consegue pegar e matar elas, mas nem sempre", conta. Quando os mecanismos de proteção falham, é que o tumor cresce e pode chegar a outras regiões. "Quanto mais disseminação, quanto mais tumores fora do local original, mais agressivo é o câncer e mais avançado é o estágio dele", complementa.

Quais são os tipos de câncer cerebral?

Agora, pensando especificamente no câncer que atinge o cérebro, existem dois tipos: os tumores cerebrais primários e os secundários. Basicamente, o primeiro grupo representa aqueles que se originaram naquela parte específica do corpo, enquanto o segundo é composto por aquelas células cancerígenas que migraram pelo organismo do indivíduo. Isto ocorre quando há metástase e, na maioria das vezes, chegam pelo sangue.

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"Falando de câncer com metástase cerebral, e não do tumor que nasceu no cérebro, é um caso difícil de tratar, principalmente porque a doença não é cerebral", afirma o médico. Além disso, quando o tumor chega ao cérebro, há grande chance da doença já ser sistêmica, ou seja, ter se espalhado por todo o corpo do paciente.

"Em caso de doença sistêmica, não tem mais como receber o tratamento local. Se você tirar um tumor ou outro, não vai resolver o problema", explica. Neste momento, o principal tratamento é a quimioterapia, que atua no corpo inteiro — diferente das cirurgias e radioterapia, localizadas — ou se recorre ao uso de remédios imunobiológicos, mais modernos. Quando se opera um tumor cerebral secundário, o objetivo é resolver os efeitos daquele tumor específico, mas não deve representar a cura da doença.

Entenda o possível caso de Glória Maria

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Conforme foi divulgado na mídia, a Glória Maria desenvolveu um tumor no cérebro com células do pulmão, ou seja, o caso pode ser caracterizando como um tumor secundário. Embora o médico não tenha nenhum envolvimento com o tratamento da jornalista, Chaddad explica que metástases cerebrais tendem a ser múltiplas, ou seja, são vários tumores no cérebro do paciente.

"Se for operar algum, você opera o maior, aquele que está dando mais problema. E os outros são tratados com quimioterapia e radioterapia", pontua. Após a remoção de um tumor que apresenta maiores riscos e do tratamento disponível, a resposta e a evolução do quadro vai depender de cada paciente.

"Alguns conseguem ficar sem a doença ativa por vários anos e depois ela volta, outros pacientes se curam de fato e ainda existem aqueles em que o câncer não responde [ao tratamento] do jeito que se gostaria, mas não porque o corpo para de responder, e, sim, porque a doença acaba 'vencendo' o tratamento", comenta.

Importância do diagnóstico precoce

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Quando se fala em diagnóstico precoce, o objetivo é identificar o câncer em estágio primário, independente do local do corpo em que ele esteja. "Se o câncer ainda não se espalhou, você está falando de uma doença que se, teoricamente, for tratada naquele local, ela, em tese, estará resolvida", afirma.

Quando o diagnóstico precoce realmente ocorre, o tratamento começa com a doença menos avançada, mais localizada e acometendo menos estruturas. Nesses casos, as chances de cura com a remoção do tumor e a radioterapia local são significativamente maiores.

O risco é que, às vezes, o tumor que se acreditava localizado, já tinha se espalhado para outros locais do corpo e estes tumores serão somente identificados no futuro. Por isso, em alguns casos, é recomendado ao paciente realizar exames, como o PET Scan. De forma semelhante a uma tomografia computadorizada, consegue identificar células cancerígenas em estágios muito iniciais espalhadas pelo corpo.

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Em caso de dúvidas ou sintomas suspeitos, o recomendado é sempre buscar atendimento médico especializado. No caso específico do câncer de pulmão, um dos maiores fatores de risco é o tabagismo.