China usa tecnologia e censura para controlar áreas de epidemia do COVID-19

Por Rafael Rodrigues da Silva | 22 de Fevereiro de 2020 às 19h30
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No intenso combate que vem fazendo contra o COVID-19, o governo chinês está, nas últimas semanas, aplicando verdadeiras “táticas de guerra” na tentativa de controlar não apenas o movimento da população (de forma a evitar que as pessoas infectadas entrem em contato com as que estão saudáveis), mas também o controle das narrativas sobre a doença (com a intenção de impedir a instauração de um pânico exagerado, que poderia aumentar ainda mais o caos no país).

O governo está lutando com as melhores armas que tem para poder, à sua maneira, coibir a onda de desespero dos chineses: usando tecnologia e, claro, muita censura.

Controle de movimento por QR Code

A mais nova forma que o governo chinês inventou para controlar a movimentação da população do país é através do QR Code. Programas do tipo são usados em larga escala pelos chineses para pagamentos em geral, desde compras em supermercados até passagens de metrô, e agora esses mesmos programas também podem indicar se a pessoa pode estar ou não infectada pelo COVID-19.

Isso é possível porque o governo do país fechou uma parceria com a Alibaba e a Tencent (donas dos dois programas de QR Code mais usados no país) para inserir um “código de cores” tanto no Alipay quanto no WeChat.

Ao acessar esses programas, os usuários deverão preencher um formulário online onde deverão informar o número de identidade, se a pessoa viajou ou não para fora da cidade de Hangzhou, e se ela atualmente possui qualquer sintoma que possa ser um indicativo da doença, como tosse ou febre.

Após o preenchimento, o usuário então recebe um novo status colorido no seu programa de QR Code, que pode variar entre as cores verde, amarela e vermelha. Usuários com status vermelho são recomendados a ficar em quarentena durante um período de 14 dias; para quem tiver status amarelo, a recomendação é de que fique em quarentena por 7 dias; e os com status verde estão livres para transitar pela cidade.

De acordo com a imprensa oficial do país, esses status por cor estão sendo exigidos em locais onde há um grande tráfego de pessoas, como estações de metrô e na entrada para as estradas que ligam a cidade a outros regiões. Além disso, habitantes do local afirmam que diversos prédios (tanto comerciais quanto residenciais) também estão exigindo ver o QR Code das pessoas para liberar a entrada.

Atualmente, esses programas estão sendo testados apenas nas cidades de Hangzhou e de Shenzen, mas eles deverão ser disponibilizados para todo o país nas próximas semanas.

Controle da narrativa

A China também está tentando controlar toda a narrativa acerca do COVID-19, ou seja, todas as informações que são passadas para a população precisam ter o aval do governo. Por isso, ele está atacando os servidores dos serviços de VPN, impedindo a população de acessar notícias de fora do país.

Como sabemos, a China possui uma espécie de “firewall” que impede as pessoas do país de acessarem qualquer site hospedado fora de seus domínios (e que, por isso, permite a publicação de notícias que são críticas ou que desmentem as informações oficiais do governo chinês), e é possível o acesso a esses sites (como o próprio Google) apenas com o uso de serviços VPN. As redes virtuais privadas conseguem enganar o firewall do país ao esconder o endereço de IP chinês e indicar que aquela máquina está acessando a internet "de fora".

Como o governo não pode fazer nada contra as VPNs em si (já que elas estão baseadas/hospedadas em outros países), o que ele faz é bloquear o uso dos servidores internos que fazem a ponte para acessar essas VPNs, impedindo assim que os usuários consigam acessar a internet global.

Essa não é uma prática nova, e costuma ser feita em períodos próximos a momentos políticos históricos que criticam o Partido Comunista (como, por exemplo, o Massacre de 4 Junho, quando tanques de guerra foram enviados suprimir um protesto civil e centenas de pessoas acabaram mortas). Atualmente, algo semelhante está sendo feito para evitar que a população consiga informações sobre o COVID-19 de fontes que não são oficiais do governo.

Mas, mesmo com o aumento do fechamento do cerco sobre as VPNs, a procura por serviços deste tipo na China nunca foi tão grande. Isso porque a população do país está cada vez mais desconfiada de seu governo, e por isso procuram cada vez mais por artigos sobre a doença na imprensa internacional.

Esse aumento de interesse pode ser visto numericamente no tráfego do site FreeBrowser.org, da Great Fire, uma ferramenta que permite que os cidadãos chineses tenham acesso às notícias internacionais que foram censuradas pelo governo. Em janeiro (quando o governo começou as quarentenas como forma de evitar a propagação da doença), o acesso ao site na região de Wuhan (o epicentro de toda a epidemia) simplesmente dobrou, deixando claro que as pessoas não estão mais confiando nas notícias que recebem pela mídia doméstica.

Fonte: Reuters, TechRadar

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