Não é bafômetro: celular pode identificar se a pessoa está alcoolizada

Por Fidel Forato | 10 de Setembro de 2020 às 15h40
StartupStockPhotos/Pixabay

Sabe aquela história de que pessoas alcoolizadas andam em zigue-zague? Antes mesmo de chegar a esse estágio, pesquisas apontam que é possível identificar o grau de alcoolismo de um indivíduo a partir de um aparelho celular. É o que aposta uma equipe de pesquisadores dos Estados Unidos que investiga como alterações leves e moderadas na forma de uma pessoa andar podem se relacionar com a quantidade de álcool ingerida. 

Segundo a pesquisa publicada por cientistas da Universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia, é possível detectar com 93% de precisão se uma pessoa está embrigada ou não, pelo menos em laboratório, a partir dessas variações no ato de caminhar. O mais interessante é que essa avaliação é realizada apenas pelo acelerômetro do smartphone.

Pesquisadores estudam como identificar consumo de álcool através de celular (Imagem: Louis Hansel/ Shotsoflouis/ Unsplash )

Responsável por detectar movimentações do aparelho, é esse mesmo sensor que permite um celular registrar e calcular os passos do usuário para aplicativos fitness e de saúde, por exemplo. 

Como funciona a medição do celular?

Para treinar a leitura do álcool no organismo, os pesquisadores primeiro entenderam como os voluntários se comportam enquanto sóbrios. Para isso, amarraram smartphones nas costas dos participantes e pediram para que caminhassem, seguindo algumas sequências pré-definidas, como 10 passos para frente e outros 10 para trás.

Depois dessa primeira etapa, os voluntários da pesquisa ingeriram uma suco de limão com bastante vodka, algo similar à caipiroska brasileira. Cada um dos envolvidos teve até uma hora para beber todo o drink e, segundo as métricas dos pesquisadores, com isso, seria possível levá-los para um pico de 0,2 BrAC — que é uma concentração considerada elevada de álcool no hálito de uma pessoa. 

“Nós realmente queríamos ter pontos de dados suficientes acima do limite legal do álcool, que é 0,08 BrAC”, comenta um dos autores do estudo, Brian Suffoletto, da Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh. “Então, se você estiver dando a eles uma dose mais baixa, poderá obter apenas um ou dois pontos de tempo antes que o corpo metabolize o álcool”, completa o pesquisador.

Com os voluntários literalmente alcoolizados, foi pedido que eles realizassem os mesmos movimentos que tinham feito anteriormente, ainda com o smartphone nas costas. Como cada participante apresentou um próprio andar sóbrio e embriagado, a equipe de Suffoletto trabalhou com modelos matemáticos individualizados, o que permitiu comparar as variações nos padrões de cada um. 

“Descobrimos que, realmente, o que movia o modelo é o balanço médio-lateral”, explica Suffoletto. Em outras palavras, a principal variante descoberta foi o balanço do corpo dos pacientes alcoolizados, como se quase tombassem ao andar. “O que faz sentido quando você pensa sobre a caricatura do personagem de desenho animado bêbado, uma figura que está balançando para frente e para trás”, ilustra o pesquisador.

Próximos passos da pesquisa 

Para aperfeiçoar essa medição, os pesquisadores planejam, agora, testar o experimento com os celulares na mão ou no bolso dos voluntários. Mesmo nos estágios inicias da tecnologia, a medição se baseia em evidências que mostram como os dados de movimento, coletado por um dispositivo, podem ser uma medida precisa para avaliar o uso de álcool. 

Inclusive, os policiais já utilizam uma versão menos sofisticada e sensível desse teste há anos. Quando pedem para que um motorista caminhe, quando há desconfiança de que ingeriu álcool, verificam — a partir da visão — possíveis oscilações em como é esperado que uma pessoa caminhe, o que apontaria o consumo da substância. 

“A eficiência detectada na caminhada é bastante precisa, e é por isso que a polícia usa o teste de sobriedade há décadas”, comenta Emmanuel Agu, pesquisador do Instituto Politécnico de Worcester, nos EUA, sobre a técnica adotada em alguns lugares para substituir o bafômetro. 

Entretanto, para se obter uma medida realmente precisa da quantidade de álcool no organismo de uma pessoa, é necessário mais do que um bafômetro: uma amostra de sangue é essencial. Isso porque os bafômetros medem apenas quantidades de álcool no hálito de uma pessoa, o que pode ser camuflado pela ingestão ou bochecho de outras substâncias.

Para ler o estudo completo, publicado no Journal of Studies on Alcohol and Drugs, clique aqui.

Fonte: Wired  

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