Casos brasileiros de coronavírus possuem genomas diferentes

Por Fidel Forato | 04 de Março de 2020 às 19h00
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O genoma do novo coronavírus, conhecido como SARS-CoV-19, isolado a partir do segundo caso brasileiro diagnosticado da doença COVID-2019, no sábado (29), é diferente do primeiro genoma encontrado no confirmado na quarta-feira passada (26). Para complicar ainda mais esse cenário, os dois são diferentes das sequências chinesas. Com essa descoberta, pesquisadores sugerem que já acontece a transmissão interna do vírus em países europeus.

“O primeiro isolado se mostrou geneticamente mais parecido com o vírus sequenciado na Alemanha. Já este segundo genoma assemelha-se mais ao sequenciado na Inglaterra. E ambos são diferentes das sequências chinesas. Tal fato sugere que a epidemia de coronavírus está ficando madura na Europa, ou seja, já está ocorrendo transmissão interna nos países europeus. Para uma análise mais precisa, porém, precisamos dos dados da Itália, que ainda não foram sequenciados”, explica Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da Universidade de São Paulo (USP).

Dois casos registrados no Brasil do novo coronavírus têm genomas diferentes (Foto: Adobe Stock)

Entenda o processo

Para o sequenciamento, os cientistas utilizam um equipamento portátil conhecido como MinION, que foi usado pela primeira vez no país, em 2016, para traçar retrospectivamente a disseminação e a evolução do vírus zika nas Américas. “Quando foram divulgados os casos de coronavírus na China, em janeiro, começamos a nos preparar para também monitorar em tempo real essa nova doença”, conta Sabino obre o processo de trabalho da equipe de pesquisa.

“Essa agilidade só está sendo possível agora graças ao financiamento contínuo que nosso grupo no IMT-USP recebeu desde 2016... Conseguimos baixar o custo do teste molecular de US$ 500 [R$ 2,2 mil] para US$ 20 [R$ 89]. É um ganho tecnológico enorme para o país”, explica Sabino sobre as possibilidades abertas pela agilidade.

Monitoramento em tempo real

De acordo com a pesquisadora, a principal vantagem do monitoramento em tempo real de uma epidemia, como está sendo feito no Brasil, é a chance de identificar de onde exatamente veio o vírus que chegou até o local. Com essa informação, é possível orientar ações de contenção e ajudar na redução a disseminação da doença, como maior vigilância em pessoas vindas de determinada região, por exemplo.

“Queremos divulgar logo esta segunda sequência para ajudar o pessoal da Itália a analisar seus dados. Compartilhamos com os italianos o protocolo usado por nossa equipe e os colocamos em contato com o grupo do CADDE, na Inglaterra”, comenta a pesquisadora Sabino.

Próximos passos

Esse sequenciamento completo do segundo caso foi concluído em apenas 24 horas por pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz e da USP, com apoio da Fapesp, com coordenação de Claudio Tavares Sacchi, do Laboratório Estratégico do Instituto Adolfo Lutz (LEIAL), e Jaqueline Goes de Jesus, pós-doutoranda na Faculdade de Medicina da USP.

Como afirma Sacchi, enquanto forem confirmados apenas casos isolados da COVID-2019, na cidade de São Paulo, todos os genomas serão sequenciados. Agora, no caso dos testes positivos comecem a crescer em velocidade muito acelerada, trabalho passará a ser orientado pelo Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) da Secretaria de Estado da Saúde, para ajudar na vasão.

“Nesse caso, o sequenciamento passará a ser feito por amostragem e com base em métodos estatísticos, de modo a garantir que os casos amostrados sejam representativos do total”, explica Sachi.

Agora, sendo possível sequenciar um grande número de casos do novo coronavírus, diferentes tipos de análise poderão ser estudadas no futuro, como por exemplo a evolução do vírus SARS-CoV-19 e a identificação de cepas com a evolução clínica dele.

Fonte: USP

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