Chega de desinformação: o novo coronavírus NÃO veio do espaço!

Por Patrícia Gnipper | 21 de Março de 2020 às 19h00
Emmagrau/Pixabay/Divulgação

Com a doença COVID-19 sendo classificada oficialmente como uma pandemia causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2), o pânico generalizado toma conta do mundo. Com isso, teorias conspiratórias das mais diversas surgem por aí na tentativa de especular a origem do patógeno — incluindo a ideia absurda de que o novo coronavírus seria uma arma biológica criada em laboratórios chineses ou estadunidenses. Outra hipótese igualmente absurda é a de que sua origem seria o espaço sideral.

Como surgiu essa "ideia de jerico"

Registro de meteoro (Foto: Chris Small/ESA)

Quem espalhou essa ideia por aí foi o cientista Chandra Wickramasinghe, conhecido por seu trabalho no ramo da astrobiologia. Em conversa com o Express.co.uk (braço virtual do tabloide britânico Daily Express), ele disse que "é muito provável que o surto repentino do novo coronavírus tenha uma conexão espacial, e a forte localização do vírus na China é o aspecto mais notável disso".

É que, em outubro do ano passado, um meteoro "explodiu" no nordeste chinês, com um fragmento do cometa atingindo o solo. Wickramasinghe, então, especulou que esse fragmento "contenha uma monocultura de partículas infecciosas do vírus SARS-CoV-2, que teriam sobrevivido no interior do fragmento". "Acreditamos que agentes infecciosos são predominantes no espaço, transportados em cometas", disse, emendando, ainda, que é possível que esse tipo de coisa tenha acontecido no passado, "provocando epidemias de doenças em humanos".

Isso se chama "panspermia"

Essa ideia está relacionada ao conceito da panspermia. É uma explicação controversa no meio científico, que explica a hipótese de a vida existir em todo o universo, sendo distribuída por meio de meteoros, asteroides e planetoides.

A explicação resumida é a seguinte: seres vivos capazes de sobreviver no ambiente espacial (como é o caso de seres extremófilos, como os tardígrados, por exemplo), ao ficarem presos em escombros ejetados ao espaço por meio de colisões cósmicas, acabariam viajando, dormentes, pelo universo, até chegarem a um planeta com condições de sustentar vida, quando as rochas nas quais eles estivessem presos se chocassem contra esses mundos.

A panspermia é uma das várias hipóteses que tentam explicar como surgiram as primeiras formas de vida na Terra, e tomou fôlego desde que o cientista alemão Hermann von Helmholtz levantou essa ideia em 1879. Ainda que existam dados até que coerentes para corroborar essa ideia, a teoria da panspermia é um tanto quanto desacreditada no meio científico — mas não pode ser descartada até que seja comprovadamente infundada.

A panspermia prevê que a vida circula pelo universo a bordo de cometas (Imagem: Reprodução)

A hipótese científica mais aceita atualmente está relacionada à abiogênese química. Em poucas palavras, a abiogênese (do grego a-bio-genesis, que significa "origem não biológica) explica a origem da vida a partir de matéria não viva. A vida teria florescido na Terra a partir de reações químicas em compostos orgânicos originados abioticamente — ou seja, considerando fatores como luz, radiação solar, temperatura, vento, água, composição do solo, pressão atmosférica, entre outros.

Há um certo consenso científico de que a abiogênese começou em nosso planeta há cerca de 4,4 bilhões de anos, quando o vapor de água se condensou pela primeira vez aqui na Terra, até que, há mais ou menos 2,7 bilhões de anos, a proporção de isótopos estáveis de carbono, ferro e enxofre aponta para uma origem biogênica de minerais e sedimentos. Marcadores biomoleculares que datam a essa época indicam a existência de fotossíntese.

Ou seja: enquanto a ideia da panspermia não explica a origem da vida na Terra — apenas transfere a questão para outro local do universo —, a teoria da abiogênese química fornece uma explicação plausível para o surgimento da vida em nosso planeta.

Por que a ideia de Wickramasinghe é uma furada

Wickramasinghe também chegou a causar polêmica quando afirmou que outra doença respiratória aguda grave causada por vírus, a SARS, tinha origem espacial, tal qual está fazendo agora com a COVID-19. Nos anos 1970, ele lançou um livro chamado Diseases from Space ("Doenças do espaço"), e vem tentando há décadas provar que doenças do tipo aparecem "do nada" em nosso planeta porque repentinamente seus patógenos causadores vieram para cá em rochas espaciais.

Não, o coronavírus não veio do espaço

Cientistas reprovam as ideias de Wickramasinghe, com muitos as tachando como pseudociência — ou apenas "má ciência" mesmo. É que não há precedentes que atestem a capacidade de um vírus realmente sobreviver à radiação espacial em viagens tão longas quanto as que aconteceriam no caso de uma panspermia, ainda que existam estudos em andamento nesse sentido. E, mesmo que isso seja possível, também não há provas de que esses microorganismos sobreviventes ao ambiente inóspito do espaço seriam capazes de infectar seres humanos depois de aterrissar.

O astrobiólogo Graham Lau, que protagoniza a série Ask an Astrobiologist, da NASA, disse ao Space.com que o caso de Wickramasinghe "é um daqueles em que reivindicações extraordinárias exigem evidências extraordinárias", pois Wickramasinghe simplesmente não tem evidências concretas para apoiar suas alegações, "mesmo que essa seja uma ideia interessante".

Então, não, o coronavírus não veio do espaço!

Fonte: Space.com, Express.co.uk

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