Antidepressivos e ansiolíticos: quando fazem bem e quando fazem mal?

Por Natalie Rosa | Editado por Luciana Zaramela | 22 de Julho de 2021 às 16h40
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A saúde mental está cada vez mais em pauta na mídia. Com isso, hoje, as pessoas já não têm mais vergonha de dizer que sofrem de alguns distúrbios ou transtornos psicológicos e que precisam de tratamento para isso, seja com terapia ou com medicamentos.

Os remédios usados para tratar esses problemas são antidepressivos, ansiolíticos e até mesmo hipnóticos, em alguns casos. Esse consumo, no entanto, precisa ser feito com acompanhamento médico constante, com profissionais especializados no assunto; caso contrário, o uso acaba se tornando nocivo por vários motivos.

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Imagem: Reprodução/yanalya/Freepik

Para entender melhor sobre esses perigo, o Canaltech conversou com Luiz Scocca, psiquiatra pelo Hospital das Clínicas da USP e membro da Associação Americana de Psiquiatria (APA). O médico nos contou que qualquer transtorno mental precisa ser tratado com esses medicamentos, como distúrbios de humor (depressão, transtorno unipolar ou bipolar), ou ainda os transtornos ansiosos, como ansiedade, agorafobia, síndrome do pânico, além de fobias específicas, como de insetos, altura, entre outros.

Também conversamos com Eduardo Perin, psiquiatra pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) pelo Ambulatório de Ansiedade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). O profissional também fala sobre a importância do tratamento com medicamentos, mas revelando que algumas classes de remédios precisam ser usadas por um período curto de tempo, pois podem causar dependência.

Efeitos e adaptação

Perin diz que falar sobre os efeitos dos antidepressivos no organismo é um assunto muito amplo, uma vez que existem diversos tipos e recomendações. "Os antidepressivos, em sua maioria, mexem com três neurotransmissores principais:  serotonina, noradrenalina e dopamina. Com isso, outros neurotransmissores também serão regulados, como glutamina, gaba, etc", exemplifica o psiquiatra. "São medicamentos com efeito antidepressivo, para ansiedade, insônia, obsessões, compulsões, dependência de droga, entre outras finalidades", completa.

Em relação à adaptação do organismo a esses medicamentos, Perin conta que, inicialmente, o tratamento resulta em efeitos colaterais, que acabam desaparecendo com o passar do tempo para dar lugar à eficácia. Scocca explica o mesmo, dizendo que os efeitos esperados surgem depois dos inesperados. Entre os efeitos colaterais do uso dos medicamentos estão o ganho de peso, diminuição da libido, queda de cabelo, entre outros. Todos esses sintomas são reversíveis e os efeitos variam de pessoa para pessoa.

Há também efeitos colaterais como tontura, sonolência, enjoo, dores no estômago, que são comuns em antidepressivos, como explica Perin. Já com os benzodiazepínicos e os hipnóticos, recomendados para o sono, também provocam sonolência, mas também uma lentificação cognitiva e do raciocínio, segundo o médico, afetando ainda a atenção e a memória.

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Uso off-label

O Canaltech também questionou os médicos sobre o uso off-label de medicamentos que tratam de transtornos emocionais. Off-label significa usar um remédio para outras finalidades, de uma forma que não está recomendada na bula. "Essa prática não é proibida, mas é preciso tomar cuidado com as associações com outros medicamentos e com suas contra-indicações", explica Scocca. "O médico pode achar importante porque viu naquele paciente alguma condição que pode ser melhorada através do uso daquele medicamento", completa, dizendo ainda que isso deve acontecer quando algo for baseado em evidências.

Perin diz ainda que o uso off-label acontece quando ainda não há dados suficientes na literatura que comprovem o uso para determinada condição, mas que sugerem que haverá efeito benéfico. O médico também conta que os dados das empresas reguladoras, como a Anvisa aqui no Brasil, acabam sendo restritos, fazendo com que aconteça, então, a prescrição off-label desses medicamentos.

Tarja preta e tarja vermelha, qual a diferença?

Os medicamentos antidepressivos e ansiolíticos podem ser divididos como tarja preta ou tarja vermelha. Eduardo Perin explicou que os remédios tarja preta são aqueles que podem causar dependência, ou seja, precisam ter o uso controlado. Já os tarja vermelha não causam dependência, ainda que também sejam controlados para outras finalidades.

Scocca reforça a importância desse controle, uma vez que eles podem ser usado como drogas recreativas e trazendo diversos riscos, principalmente à saúde. Além disso, esses remédios podem resultar em tolerância, o que significa que, sem o acompanhamento médico, ele pode parar de fazer efeito. Em relação à dependência, o psiquiatra também fala sobre os efeitos que a falta do uso do remédio pode trazer — em outras palavras, a abstinência, que pode ser bastante desagradável e trazer ainda mais sofrimento para o paciente.

Ambos os médicos citaram uma falha nessa classificação, referente ao medicamento Zolpidem, usado para controle do sono. Eles explicam que ele é classificado como tarja vermelha, mas que deveria ser tarja preta por ser altamente provável a provocar dependência.

Scocca diz que o uso indiscriminado de medicamentos, sejam eles tarja preta ou vermelha, pode resultar em consequências graves para a saúde, uma vez que novos sintomas começam a aparecer enquanto cada vez mais o remédio é ingerido, inclusive em altas quantidades. Então, a cada vez que essa pessoa para de usar os remédios por conta própria, novos sintomas irão surgir e precisar de tratamento. Além disso, há o risco de resultar em uma overdose, o que pode ser fatal.

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Pandemia e saúde mental

De acordo com Perin, nos últimos anos, a busca por antidepressivos e ansiolíticos vem se intensificando, até mesmo antes da pandemia da COVID-19, mas os acontecimentos atuais também motivam esse aumento. Inclusive, há o crescimento do uso de medicamentos, como aqueles usados para a insônia, que acabam provocando dependência, o que pode ser perigoso.

Em contrapartida, Scocca conta que não houve um aumento significativo em diagnósticos de transtornos mentais, como depressão e ansiedade, mas sim um aumento na ansiedade e estresse devido à mudança de rotina, com as medidas de isolamento social, e pelo medo. O que houve, no entanto, foi um aumento no consumo de medicamentos, sejam eles antidepressivos, remédios não comprovados cientificamente, vitaminas ou até fitoterápicos.

É importante reforçar, então, que os medicamentos que combatem transtornos mentais e distúrbios são ótimos tratamentos, sendo ainda mais eficazes quando acontecem junto à psicoterapia e melhora na qualidade de vida e alimentação. Ainda assim, é preciso que o tratamento seja feito com médicos psiquiatras, do início ao fim, e que haja paciência para obter os resultados desejados. O uso indiscriminado pode provocar danos graves à saúde, com chances de trazer resultados indesejados perenes ou até mesmo fatais.

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