A origem dos alertas sobre o "perigo" das redes 5G

Por Rafael Rodrigues da Silva | 30 de Julho de 2019 às 18h00

A cada inovação na tecnologia de comunicação sem fio é sempre a mesma história, e a internet é tomada de assalto por sites e especialistas que alertando sobre como essa novidade é perigosa e causa risco de câncer. Já explicamos em um outra matéria, em maio, por que a radiação das redes Wi-Fi são completamente seguras para o corpo humano, mas com o início da transição para a tecnologia 5G, esta se tornou o novo alvo dos alarmistas, que continuam chamando a atenção para os perigos do 5G, utilizando os mesmos argumentos usados contra o 4G, contra o 3G e contra as redes Wi-Fi.

Todos esses argumentos levam a um estudo científico feito na Florida, em 2000, quando o Dr. Curry afirmou que, quanto maior a frequência, mais perigosa é uma radiação para o corpo humano. Só há um problema neste estudo: o cientista responsável por ele esqueceu de levar alguns fatores em conta ao obter tal resultado.

O início de tudo

Famoso gráfico feito por Curry, que mostra o aumento da absorção de radiação pela célula conforme se aumenta a frequência de um sinal radioativo (Imagem: Bill P. Curry)

O estudo, que até hoje é usado como base para todas as teorias sobre o perigo das redes sem fio para o corpo humano, foi realizado no ano de 2000, a pedido do Corpo das Escolas Públicas do Condado de Broward, na Califórnia. Realizado por Bill P. Curry - um físico que atuava como consultor em assuntos de tecnologia para a cidade - o levantamento foi um pedido do governo de Broward para saber se, ao implantar nas escolas do condado uma rede de informática com laptops e roteadores capazes de ligar todos os 250 mil alunos das escolas do distrito à internet, esses alunos correriam algum risco de saúde por conta da radiação das redes sem-fio.

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O Dr. Curry realizou uma série de experimentos e chegou à conclusão de que, sim, as redes sem fio poderiam fazer mal aos alunos dessas escolas, pois ele havia descoberto que, quanto maior a frequência de radiação, maior a probabilidade de mutação nas células do organismo - o que poderia se transformar em câncer. O resultado foi demonstrado em um gráfico bem simples de ser lido, e que até hoje é compartilhado nas redes sociais entre aqueles que ainda acreditam nessa teoria.

No gráfico, é possível ver claramente como a quantidade de radiação recebida pelo cérebro aumentava conforme a frequência do sinal aumentava, o que Curry classificou como um claro sinal de perigo para o ser humano.

O maior problema dessa análise é que, justamente, não levou em conta o ser humano como um todo. Ainda que Curry fosse um cientista de respeito, como graduações em física e engenharia elétrica, ele não possuía nenhuma experiência com biomedicina e, por isso, seus experimentos não levaram em conta o fator de “escudo” que a pele humana proporciona às células internas do corpo. Ainda que os resultados obtidos por Curry estejam tecnicamente corretos, estes levam em conta o bombardeamento direto de células cerebrais pela radiação das comunicações a rádio, e não fez nenhum teste utilizando uma pessoa, o que faz com que a interpretação de dados dele esteja falha.

Infográfico mostra como todas as frequências usadas na comunicação sem fio estão num espectro seguro para o corpo humano (Imagem: The New York Times)

Isso não quer dizer que radiações de alta frequência sejam sempre inofensivas para o organismo humano - por exemplo, os raios-x são radiações de alta frequência e que podem ser letais para o corpo. Mas, ao contrário do que o experimento de Curry mostra, a proporção não é de 1:1 - quanto maior a radiação, maior o perigo - mas existe uma faixa onde essa radiação é completamente inofensiva para o corpo por conta da proteção fornecida por nossa pele.

Quem confirma que o experimento de Curry foi feito de forma incorreta e mal interpretado é Christopher M. Collins, professor de radiologia da Universidade de Nova York, e que há anos estuda os efeitos das ondas eletromagnéticas de alta-frequência no corpo humano. Segundo Collins, o espectro de frequências utilizadas por todas as redes de comunicação sem fio - que variam entre 300 MHz e 300 GHz, usadas desde para a transmissão de sinais de TV e rádio quanto pelas redes 5G - são completamente seguras para nosso organismo, pois todos os sinais nessas frequências não conseguem penetrar através de nossa pele, o que faz com que nenhum deles seja perigoso ou responsável por um aumento da incidência de câncer.

Da Flórida para o mundo

Apesar de estar incorreta e já ter sido desbancado diversas vezes, a pesquisa se Curry continuou se proliferando entre sites alarmistas, que vendem os resultados como “prova irrefutável” de que a radiação desses equipamentos é prejudicial ao corpo humano, e logo ele ganhou um novo aliado na luta contra as redes sem fio: o Dr. David O. Carpenter, um médico formado pela Universidade de Harvard e que possui um currículo impressionante de atuação como pesquisador.

Carpenter é conhecido por muitas vezes se colocar contra o establishment científico, e na década de 1980 já havia criado controvérsia ao defender que a radiação emitida pelas torres de alta tensão poderiam causar leucemia em crianças que morassem nos arredores dessas torres. A tese de Carpentes foi publicada no livro Currents of Death, mas até hoje ninguém conseguiu encontrar provas de que ela estava correta. Já em 2011, Carpenter utilizou o famoso gráfico de Curry em uma ação contra a prefeitura de Portland, exigindo que ela desinstalasse toda a rede sem fio das escolas do município por conta do suposto perigo que as crianças corriam.

Ainda que o processo não tenha dado em nada, Carpenter continuou firme em suas convicções sobre o perigo das redes sem fio, e com a chegada da década de 2010 o médico começou a atacar a então nova tecnologia 4G com os mesmos argumentos usados pelos críticos da atual 5G - de que a frequência maior seria mais perigosa, e ainda pior, pois os aparelhos de celular passam um bom tempo bem próximos de nossas cabeças.

Em 2012, Carpenter lançou a BioInitiative Report, um relatório de 1400 páginas sobre os riscos da radiação Wi-Fi, mas que logo depois da publicação foi totalmente desacreditado pela comunidade científica, que acusou Carpenter de não seguir o rigor científico necessário, chegando a conclusões precipitadas e ignorando resultados que contradiziam suas crenças.

Hoje, a maior prova de como esse estudo era falho são os relatórios mundiais de incidência de câncer, que se mantém com números estáveis mesmo com um aumento exponencial no número de torres de celular e redes sem fio existentes. Caso o estudo de Carpenter estivesse correto, nós já deveríamos estar presenciando uma verdadeira epidemia de casos de câncer.

Assim, para a surpresa de ninguém, a figura de Carpenter ainda aparece como o especialista por trás de toda a recente onda de medo sobre a instalação das redes 5G, e ele já fez diversas aparições na TV russa falando sobre os seus experimentos. Mas pode ser que a jornada do doutor na luta contra as redes sem fio esteja chegando ao fim.

Em uma entrevista recente, Carpenter admitiu de que a ideia do corpo humano ser imune a tais frequências tem alguma lógica. Ele salientou que, enquanto estava estudando a instalação das redes 5G, ele percebeu que todas as cidades que as instalavam precisavam colocar centenas de antenas a pouca distância umas das outras, pois qualquer parede, muro, prédio e até mesmo as gotas d’água da chuva conseguiam bloquear a transmissão do sinal, pois ele não conseguia penetrar nenhuma dessas barreiras, e admitiu que, se a pele humana também conseguir bloquear esses sinais, então todo esse perigo que ele tem alertado sobre é realmente inexistente.

De qualquer jeito, é interessante ver com um único erro de leitura feito por um único cientista pode acabar se tornando uma bola de neve de paranoia e fazer com que as pessoas se esforcem para combater um inimigo que simplesmente não existe.

Fonte: New York Times

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