Instagram não age em 90% dos casos de DMs abusivas para mulheres, diz estudo

Instagram não age em 90% dos casos de DMs abusivas para mulheres, diz estudo

Por Alveni Lisboa | Editado por Douglas Ciriaco | 12 de Abril de 2022 às 09h21
Unsplash/Gabrielle Henderson

Uma pesquisa identificou que o Instagram falhou na atuação em 90% das mensagens abusivas enviadas por mensagens diretas (direct messages ou DMs) para mulheres. Isso seria um suposto indício de que a plataforma falha em proteger as usuárias do sexo feminino, alvos mais frequentes de conteúdos relacionados a discurso de ódio, misoginia, nudez não solicitada, ameaças ou violência.

O estudo conduzido pelo Center for Countering Digital Hate (CCDH) foi focado nas DMs porque seria um local pouco estudado e onde normalmente não existe tanta regulação. Quando um alguém tem uma atitude machista em uma publicação aberta, outras pessoas podem sair em defesa do alvo das ofensas, mas nas mensagens diretas não há como saber.

A CCDH acompanhou a rotina de cinco mulheres bastante conhecidas na plataforma para fazer um estudo de casos. As contas delas têm, somadas, cerca de 4,8 milhões de seguidores no Instagram.

Resultados da pesquisa nos directs do Instagram

Cerca de 6,5% dos conteúdos analisados violaram a política do Instagram (Imagem: Reprodução/CCDH)

Das 8.720 DMs analisadas, os pesquisadores descobriram que um em cada 15 violou regras sobre assédio e abuso. Desse total, foram 125 exemplos registrados de abuso sexual baseado no envio de imagens não solicitadas, como nudes.

Outro achado da pesquisa: um a cada 7 mensagens de voz enviadas para as mulheres é abusiva. A pesquisa não menciona exatamente o conteúdo dessas mensagens, mas dá para imaginar todo tipo de absurdos, principalmente porque estranhos podem usar o recurso.

A pesquisa descobriu que a cada 10 relatos em directs enviados à equipe de moderação do Instagram, a plataforma teria deixado de agir em nove casos. Quando as contas enviam ameaças às mulheres, o índice de inércia também fica na casa dos 90%. Pesquisadores ressaltaram que o Instagram não teria tomado nenhuma medida contra abusos sexuais baseados em imagem em 48 horas, prazo estipulado nas regras para agir nesses casos.

Onde está a falha?

O CCDH diz que os problemas envolvem o sistema de denúncia do Instagram. Para fazer o envio aos administradores, por exemplo, é preciso aceitar as solicitações de mensagens de desconhecidos. Ao fazer isso, a pessoa permite que o outro veja informações sobre a visualização, além de abrir as portas para mais atitudes negativas.

Além disso, o recurso de palavras ocultas da plataforma não impede o abuso, mas atrapalha na hora de fazer os registros de evidências de mensagens abusivas para a denúncia. Os sistemas de filtragem, por si só, seriam supostamente incapazes de atuar nestes casos, mesmo que os termos usados sejam agressivos ou sexuais.

Exemplo de mensagens ameaçadoras recebidas pelas mulheres do estudo (Imagem: Reprodução/CCDH)

Outro problema apontado é a falha em aplicar penalidade àqueles que violam as políticas. A instituição promotora do estudo afirmou que abuso e conteúdo nocivo prosperam na plataforma devido à negligência e morosidade de atuação, o que torna as mensagens diretas um local mais "seguro" para os abusadores do que para usuários.

Em razão de tudo isso, muitas mulheres decidem renunciar a conteúdos que possam "provocar os agressores". Essa, inclusive, teria sido uma das razões pelas quais muitas influenciadoras desistiram de participar do estudo do CCHR: o medo de falar publicamente sobre abusos online, algo que poderia provocar ainda mais retaliações.

O que diz o Instagram?

A CCHR recomendou que a plataforma ajuste o mecanismo de denúncias e haja com mais eficácia nas mensagens diretas para coibir tais práticas abusivas. O Reino Unido, onde foi conduzida a pesquisa, tem legislação própria que proíbe o envio de imagens explícitas sem o consentimento do destinatário.

O Instagram disse que discorda de muitas das conclusões do CCDH, mas que concorda que o assédio às mulheres é inaceitável. "É por isso que não permitimos discurso de ódio com base em gênero ou qualquer ameaça de violência sexual, e ano passado anunciamos proteções mais fortes para figuras públicas femininas. Mensagens de pessoas que você não segue são direcionadas para uma caixa de entrada de solicitações separada, onde você pode bloquear ou denunciar o remetente, bem como desativar as solicitações de mensagens por completo. Ligações de áudio ou vídeo de pessoas que você não conhece só são recebidas se você aceitar a solicitação de mensagem. Por fim, oferecemos uma ferramenta para filtrar mensagens abusivas para que você nunca tenha que ter contato com elas", explicou Cindy Southworth, Head de Segurança da Mulher do Instagram.

O Instagram tem um recurso automático que filtra mensagens e comentários de ódio desde abril de 2021. No começo deste ano, a plataforma anunciou uma série de mudanças para limitar a visualização de materiais sensíveis por parte do público. A rede social chefiada por Adam Mosseri é uma das mais atuantes no combate a esse tipo de prática abusiva, mas parece que ainda há um caminho longo a percorrer.

Fonte: Center for Countering Digital Hate  

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