Saiba como o Aquaman deixou de ser motivo de piada para se tornar badass

Saiba como o Aquaman deixou de ser motivo de piada para se tornar badass

Por Claudio Yuge | 26 de Setembro de 2021 às 11h00
DC Comics

Muita gente que vê o Aquaman atualmente, especialmente na pele de Jason Momoa, não imagina que, até pouco tempo atrás, o personagem era motivo de piada constante. E há quem pense que foi somente com a interpretação do ator é que Arthur Curry se tornou um badass — ou seja um herói “f*dão”. As duas noções estão equivocadas, e o Canaltech resume essa jornada de ascensão para você.

Aquaman foi criado por Paul Norris e Mort Weisinger em 1941, em More Fun Comics #73, uma revista que distribuía histórias curtas e leves em formato de antologia e destinadas para os leitores mais jovens. Como dá para notar no próprio título e na imagem abaixo, a publicação era atrelada desde o começo a um certo humor, digamos, “mais óbvio” e infantil.

Imagem: Reprodução/DC Comics

Originalmente, o Aquaman não tinha o background de hoje, de ser um rei dividido entre dois mundos. Arthur Curry era um cientista treinado para sobreviver debaixo d’água e se comunicar com a vida marinha — é dessa época que nasceram as icônicas imagens dele “galopando” com cavalos-marinhos e falando com peixes. Não dá para saber exatamente a razão, já que não se sabia se o Aquaman era tão popular entre as crianças, mas os roteiristas sempre o caracterizavam de maneira mais infantil que os outros heróis da Liga da Justiça.

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Veja bem, mesmo o Aquaman sendo um dos membros fundadores da Liga da Justiça, ele sempre era retratado como um herói que fugia dos conflitos, enquanto o Batman e o Superman encaravam de frente os bandidos por aí. E, mesmo com revoluções editoriais como a que aconteceu com a chegada da Era de Prata, entre meados de 1950 e 1970, a pegada científica e mais realista não afetou o personagem de maneira tão intensa quanto colegas de equipe como Flash ou Lanterna Verde — nesse período, o Arthur Curry chegou a ter um polvo ajudante chamado Topo, que tocava instrumentos e cantava “Parabéns para você”.

Imagem: Reprodução/DC Comics

No começo dos anos 1960, a DC Comics até tentou impor “mais seriedade ao personagem”. Nesse período, sua origem foi reescrita e ele se tornou um filho bastardo de um humano com uma mulher rejeitada no reino subaquático de Atlântida. Seus poderes deixaram de ser apenas “falar com peixes” e passaram a ser telepáticos com a vida marinha. Além disso, Aquaman ganhou superforça e, para estar alinhado aos heróis da época, ele também tinha uma fraqueza: se ficasse com seu corpo fora d’água por mais de uma hora, morreria.

Inicialmente, após essa mudança, a percepção sobre o personagem até mudou um pouco. Contudo, isso não duraria muito tempo, principalmente com a chegada de um desenho animado muito popular.

A fase “camisetinha laranja” com os Superamigos

Todos os esforços que alguns roteiristas vinham empenhando para tornar o Aquaman um herói menos risível foi por água abaixo (desculpe o trocadilho) com a chegada do desenho Superamigos, nos anos 1970. A animação, destinada ao público infantojuvenil, naturalmente já “nerfava” vários heróis e vilões, que raramente se encaravam às vias de fato explicitamente. Todo o tipo de violência era diminuído, e até mesmo os integrantes da Legião do Mal tinham planos de dominação bem bobos — e todos apareciam muito mais tempo sorrindo nas telinhas, até mesmo Batman e Lex Luthor.

Imagem: Reprodução/Warner Bros

Esse cenário foi considerado perfeito para que muitos dos roteiristas aproveitassem o Aquaman, que, no passado, já tinha maneiras mais furtivas de enfrentar as ameaças. Então, ele sempre aparecia como um personagem de suporte, sempre sorridente e surfando com golfinhos, ajudando a Liga da Justiça com o seu domínio sobre os animais marinhos. E, veja bem, como Superamigos só foi exibido em outros países em meados dos anos 1980, a exemplo do Brasil, essa caracterização durou bastante tempo na TV, o meio de maior alcance de massa no período.

Imagem: Reprodução/Warner Bros

A caracterização desse herói coadjuvante “boa-praça” que “falava com peixes”, vestido de colante laranja, tornou-se um ícone da animação. E, não bastassem as piadas entre os fãs, essa imagem virou também motivo de chacota em toda a cultura pop nos anos seguintes. De atrações como Adult Swin, South Park e Bob Esponja, passando pelas próprias vinhetas do Cartoon Network e chegando a Big Bang Theory, todo mundo fazia questão de dar risada da “camisetinha laranja” e de seus poderes pouco úteis em combates físicos com os criminosos.

A tentativa de torná-lo badass nos anos 1990

No final dos anos 1980 e início de 1990, vários dos fãs e criadores já estavam fartos de muitos olharem para Aquaman como um personagem risível. Então, a DC Comics começou a tentar uma mudança de imagem, especialmente com o lançamento de Legend of Aquaman #1. Sua origem foi revisada, e Arthur Curry deixou de ser um “Zé Ninguém” para se tornar um filho perdido da realeza de Atlântida na superfície.

Ele tinha sido criado como uma criança selvagem por um faroleiro. Posteriormente, ele retornaria à Atlântida para reclamar seu lugar ao trono e comandaria exércitos de atlantes e criaturas submarinas, agindo como um líder. Assim, deixou de ser coadjuvante e ganhou protagonismo, inclusive como um personagem mais violento.

Imagem: Reprodução/DC Comics

Aliás, como nos anos 1990 tudo era extremo nos quadrinhos de super-heróis, que traziam mais violência e morte, Aquaman se tornou muito mais agressivo — ele até passou um tempo sem uma de suas mãos, por conta de uma trama em que ela foi comida por piranhas. E, por algum tempo, o herói passou por uma fase turbulenta, com um arpão no lugar de sua mão esquerda.

Essa mudança drástica, entre o herói “boa-praça” de Superamigos para o quase anti-herói maneta depressivo, foi considerada por muitos uma “forçação de barra”. Assim, nem todo mundo curtiu muito essa caracterização — e as piadinhas envolvendo o personagem ainda eram mais populares.

A ascensão de Arthur Curry badass nos anos 2010

Ao longo dos anos 2000, Aquaman ganhou um título mensal mais consistente, e seu background como integrante da realeza de Atlântida aos poucos foi ganhando mais estofo. Os escritores passaram a agregar mais elementos de mitologia clássica e as criaturas, assim como o cenário marinho, receberam mais detalhes.

E, com o reboot dos Novos 52, no início dos anos 2010, o roteirista Geoff Johns, que já havia revitalizado toda a linha dos Lanternas Verdes alguns anos antes, convocou novamente o desenhista brasileiro Ivan Reis para realizar uma revisão completa no herói. Assim, Aquaman ganhou uma versão mais imponente, e sua vida marinha recebeu um tratamento visual de primeira, tornando Atlântida um rico cenário para aventuras.

Imagem: Reprodução/DC Comics

Logo na primeira edição do novo título, Aquaman já dizia que ele não “falava” com peixes; e, aliás, gostava de comer frutos-do-mar. Em uma das sequências de luta, Johns lembra o leitor que Arthur Curry vive sob pressão de milhares de léguas submarinas. Por isso, quando ele vem para a superfície, sua força e resistência se tornam descomunais. Esses e vários outros detalhes foram aos poucos sendo desconstruídos para serem montados novamente, de forma muito inventiva e curiosa.

Essa fase nos lembra que Aquaman é um dos membros fundadores da Liga da Justiça, com voz muito forte no grupo; e que ele já lutou com criaturas do “nível Cthulhu” e Kraken por diversas vezes. Além disso, os vilões e os membros de sua família real ganharam muito mais complexidade, especialmente Mera, que se tornou tão badass quanto o próprio Arthur Curry.

Imagem: Reprodução/DC Comics

Para completar, aí sim viria a “cereja do bolo”: Jason Momoa, que já havia sido um sucesso como o bárbaro Khal Drogo de Game of Thrones, trouxe essa energia mais “animalesca” ao Aquaman dos cinemas, com um visual todo tatuado e nada “boa-praça” dos tempos de Superamigos. O Aquaman de Momoa transformou o outrora herói da piadinha da camiseta laranja em um verdadeiro rockstar. E até mesmo nos games, como em Injustice; e em animações, o status quo do herói mudou, com uma caracterização mais imponente, como a de um rei guerreiro.

Assim, atualmente, há quem nem lembre mais que Aquaman foi um dia um coadjuvante que só era utilizado quando algum roteirista precisava de um alívio cômico. Até nos quadrinhos ele passou a ter uma caracterização mais próxima à de Momoa. E, com a chegada de um novo filme, pode apostar que a época das piadinhas vai, definitivamente, ficar para trás.

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