O Google e o seu parquinho de Tecnologia onde (quase) ninguém brinca

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Ano após ano, dois dos eventos mais esperados do mundo da Tecnologia vêm do Google: o Google I/O e o Made by Google mostram quais são as últimas novidades da empresa em termos de hardware e software. No entanto, junto aos anúncios de smartphones, speakers inteligentes e serviços dotados de inteligência artificial, uma coisa vem me incomodando há uns dois anos, em meio a tantos lançamentos: poucos desses produtos e softwares chegam, de fato, às mãos do usuário final em boa parte do mundo.

Com isso, a impressão que eu tenho é que a Google gosta de exibir seu parquinho de Tecnologia para todo mundo. O problema é que a empresa não deixa (quase) ninguém brincar nele. E isso não faz o menor sentido.

A linha Pixel puxa o nonsense

O maior exemplo disso fica por conta do Google Pixel. Lançada em 2013, a linha de smartphones da empresa sempre foi vendida nos EUA, Canadá, meia dúzia de países da Europa e outros dois ou três na Ásia. Mesmo a versão mais barata do dispositivo, o Pixel 3a, também ficou limitado a um número restrito de nações.

Isso faria sentido se o Pixel servisse mais como um chamariz para que a empresa mostrasse suas novas tecnologias e como elas poderiam ser implementadas em parceiros no futuro. Ou seja, a companhia não se preocuparia em lucrar com os aparelhos – se a divisão se pagasse já estaria de bom tamanho. No entanto, não é isso que acontece. O Google realmente quer brigar por uma fatia maior no mercado de smartphones – hoje, nos EUA, a marca tem apenas 2,23% do marketshare. Para efeito de comparação, a Apple tem 50% e a Samsung, 26%. E nos outros países onde ele está disponível, a série sequer aparece entre os cinco primeiros.

Nova linha Pixel 4: estratégia incompreensível do Google para seus smartphones

Para completar o nonsense, os novos Pixel 4, além de continuar restritos a alguns países, chegam mais caros ao consumidor: o Pixel 4 padrão custará US$ 799 (versão de 64GB), ou seja, US$ 100 mais caro que o seu principal rival, o iPhone 11, que custa US$ 699. Com isso, a versão mais barata, que tende a ser a mais procurada pelo consumidor, é mais cara que o modelo do seu principal rival que, sempre lembrando, detém metade do mercado. E isso em um cenário em que o setor de smartphones apresenta, pela primeira vez na história, estagnação nas vendas.

O que diabos passou na cabeça de quem definiu essa estratégia?

As novas tecnologias do Google são legais. Mas também ficam presas no parquinho

E o fato do Pixel ficar preso no “parquinho” do Google, onde pouca gente brinca, gera um segundo efeito colateral: a empresa desenvolve uma série de novas tecnologias que quase ninguém tem acesso, porque elas são restritas à...linha Pixel (!?).

Bons exemplos disso não faltam. O Soli é uma tecnologia que permitirá comandar os celulares por gestos. Mesmo com movimentos ainda limitados, ela tem um potencial revolucionário. Com a funcionalidade, você poderá pular músicas em serviços como o YouTube Music ou Spotify, desligar um alarme ou mesmo atender ou rejeitar uma ligação.

Ainda que as funções Soli sejam um tanto prosaicas nesse começo, a tecnologia em questão pode ser grande. Afinal, mais evoluída, ela pode permitir que você controle boa parte das funções do seu celular apenas com gestos. Ou voz. O “porém” disso tudo: ela só está disponível no Pixel 4 que, como você bem sabe, estará disponível em poucos países.

Soli: tecnologia que permitirá a você comandar dispositivos por gestos

Mais um exemplo? O Google mostrou nessa semana, durante o Made By Google, o Recorder, um aplicativo que promete ser muito útil, já que ele é capaz de transcrever áudios em tempo real usando apenas o processamento do próprio dispositivo. E, além disso, ele não precisa de conexão à internet para funcionar. Para completar, depois de transformar a fala em texto, você pode ainda salvar os arquivos em ambos os formatos e ainda pesquisar por palavras que foram faladas para localizar o documento. Bem legal, né? Mas, mais uma vez, ele só estará disponível no Pixel 4. E sem previsão de chegar em outros aparelhos Android.

Um terceiro exemplo é o Google Duplex. Apresentado pela empresa em 2018, trata-se de uma inteligência artificial que faz o Google Assistente parecer um humano. Ou seja, você pode usá-lo para fazer reservas em restaurantes ou salão de beleza sem sequer falar com a pessoa do outro lado da linha (veja a demonstração no vídeo abaixo). Incrível, sem dúvida. Pena que você, muito dificilmente, terá a chance de brincar com ela em um futuro próximo. Afinal, ainda que ela tenha sido aberta para o iOS e também para aparelhos com Android 5.0 ou superior (além do Pixel), ela está restrita apenas aos EUA, sem data de chegada a outros países.

E isso sem contar as tecnologias e aplicações desenvolvidas para os sistemas de câmera da linha Pixel e consideradas como uma das melhores do mercado. Afinal, não há previsão da série de smartphones “fugir” do parquinho de meia dúzia de países.

Enquanto a Google testa, os rivais botam no mercado

Evidentemente, demonstrar tecnologias que serão usadas no futuro não é um problema. Pelo contrário, é até saudável, uma vez que você pode testar a reação do público e fazer ajustes. Mas o que incomoda na Google é o excesso de funcionalidades e produtos que ou serão lançados “em breve” ou, quando já tem uma data para chegar, normalmente, são comercializados em poucos lugares.

Enquanto isso, outras empresas, que concorrem diretamente com a Google, ao invés de demonstrarem tecnologias em potencial, muitas vezes, já as exibem devidamente integradas em seus produtos, que estão prontos para venda. A Apple faz isso com seus iPhones e Macbooks; a Xiaomi, Huawei e Samsung fazem o mesmo em seus smartphones, tablets e notebooks; a Amazon com a Alexa e hardwares como as séries Echo e Fire HD. E até a Microsoft já costuma embalar suas tecnologias em dispositivos prontos para comercialização, como o Kinect (Xbox) ou a linha Surface (que, justiça seja feita, também sofre o mesmo problema de “parquinho” do Google).

Ter o DNA de inovação, sem dúvida, é essencial. Mas é preciso usá-lo para gerar dinheiro.

Diversificar é preciso

Não é uma novidade para quem acompanha o mercado de Tecnologia que mais de 80% das receitas do Google vêm da publicidade online. A empresa detém quase um monopólio desse setor e muitos analistas veem essa dependência como algo perigoso. Isso porque concorrentes como Amazon, Facebook e Taboola (que recentemente fez uma fusão com a sua principal concorrente, a Outbrain) vêm crescendo ano após ano, o que pode deixar a gigante das buscas em uma posição frágil a médio e longo prazo, até porque ela não teria muito para onde correr caso seus rivais passem a morder suas fatias na área de publicidade digital.

Mas, também é verdade, que a Google vem se esforçando ano após ano para diversificar suas receitas e tentar diminuir sua dependência da publicidade. No balanço financeiro referente ao segundo trimestre de 2019, outras divisões da companhia, como a Play Store (loja de aplicativos para smartphones e tablets Android), Google Cloud (sua divisão de serviços na nuvem) e hardware geraram uma receita total de US$ 6,18 bilhões – um crescimento de 40% em relação ao mesmo período de 2018 – mas, que ainda assim, corresponde a apenas 15% do total de receitas da Alphabet, holding que controla o Google, no período. No mais, outras apostas da empresa, como a Verily (dedicada à área de saúde) e o Fiber (provedor de internet banda larga para usuários residenciais de baixo custo) vêm dando prejuízo, com perdas operacionais de US$ 989 milhões e US$ 868 milhões, no último trimestre, respectivamente.

Play Store: loja de aplicativos ainda representa uma porcentagem muito pequena nas receitas do Google

O que talvez a Google não tenha entendido é que essa necessidade de diversificação de suas receitas passa por correr riscos, em sair de sua zona de conforto do Primeiro Mundo. A empresa precisa se aventurar, principalmente, com sua linha de hardwares, por novos mercados, entendendo a necessidade dos consumidores de cada local e adaptando seus produtos a elas. Até porque, muito da sua estratégia de publicidade digital está atrelada a esses produtos. E isso vale para linhas como Pixel, Pixelbook (notebooks), Nest (roteadores e speakers e cuja versão Mini chega ao Brasil ainda esse ano para concorrer com a dupla Echo / Alexa, da Amazon) e até mesmo a plataforma de games Stadia. A Microsoft precisou passar por esse mesmo movimento e hoje é uma empresa cujas fontes de receitas são muito mais bem distribuídas, tornando a companhia mais protegida em casos de crise.

A Google pode sofrer prejuízos em um primeiro momento nessa conquista de novos mercados? Sem dúvida. Afinal, a sua concorrência - principalmente em hardware - está muito mais bem consolidada.

Mas quem disse que dinheiro é um problema para a “Big G”? Abre o parquinho, Google!!

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