Musk x Bezos | Rivalidade pode levar Amazon ao mercado de carros elétricos?

Por Felipe Ribeiro | 29 de Janeiro de 2020 às 08h00
Divulgação

*Com colaboração de Patrícia Gnipper

Quem está por dentro do mundo da tecnologia sabe da rivalidade latente entre Elon Musk, CEO da Tesla e da SpaceX, e Jeff Bezos, fundador da Amazon e da Blue Origin. Ambos duelam em um segmento um bem interessante, que é a indústria espacial, o que já acabou gerando, inclusive, uma série de troca de farpas e provocações entre ambos. Mas, e se pensássemos por um momento que essa disputa poderia ir para um campo também muito interessante, além de inovador e lucrativo (e bem conhecido pela Tesla)? Estamos falando dos carros elétricos, algo ainda não explorado com afinco por Bezos.

Veículos eletrificados já fazem parte do dia a dia da Amazon, mas, claro, adequados à realidade e ao escopo de trabalho da gigante do varejo. Exemplo disso foi a última visita do empreendedor à Índia, quando ele anunciou 10 mil novos rickshaws elétricos à frota de entregas no país. Vale lembrar, também, que a empresa encomendou cerca de 100 mil vans elétricas da startup EV Rivian, em Michigan, nos Estados Unidos, sendo este o maior pedido envolvendo carros elétricos da história - para efeito de comparação, a Tesla demorou 13 anos para chegar a esse número de unidades fabricadas.

Protótipo de van elétrica da Amazon. 100 mil foram encomendadas/ Imagem: Amazon

Em seus centros de atendimento e distribuição, as empilhadeiras da Amazon usam a tecnologia de energia renovável fornecida por outra startup, a Plug Power, sendo a gigante do varejo sua principal cliente. Para completar, a empresa é investidora em ambas fornecedoras, o que poderia, claro, sugerir que se a Amazon quiser criar seu próprio carro, já teria dois grandes aliados.

Mas o que faria a Amazon entrar de vez no mercado de veículos elétricos?

Se pegarmos pelo histórico da empresa, é bom Elon Musk ficar com as barbas de molho. A gigante do varejo começou como uma livraria on-line e agora até publica livros com seu próprio selo. Depois de aniquilar as livrarias físicas, agora é a vez das editoras de livros sentirem essa pressão, muito embora essa, talvez, não seja a ideia principal de Bezos.

Obviamente não dá para comparar este mercado com o de carros elétricos, mas ver como a Amazon caminha em seus negócios é algo para deixar a Tesla atenta. Um carro da Amazon poderia nascer, inclusive, de parcerias com outras montadoras que estejam afim de investir mais nos EVs. Além do mais, a varejista está investindo cada vez mais em suas modalidades de entrega terrestre, e a ideia é que todos os veículos da frota sejam elétricos.

Sua fornecedora, a Plug Power, está, por exemplo, vendendo sua tecnologia para fabricantes de automóveis antigos, como BMW, Volkswagen, Daimler, Fiat Chrysler, General Motors e Honda. A Tesla, por sua vez, está longe da energia renovável, pelo menos em um primeiro momento, o que daria alguma vantagem à Amazon caso ela optasse por entrar de vez nessa.

Rivalidade no espaço

Conceito de módulo lunar desenvolvido pela empresa de Jeff Bezos (Imagem: Blue Origin)

Para situá-lo melhor neste contexto, vamos relembrar qual é a competição travada por Elon Musk e Jeff Bezos no campo espacial.

No ano 2000, Jeff Bezos fundou a Blue Origin com o objetivo de levar o homem ao espaço de maneira mais barata e, digamos, corriqueira. Desde sua fundação, a empresa, que hoje é comandada pelo CEO Bob Smith, vem desenvolvendo tecnologias dentro do setor espacial, e constantemente briga com a Space X, criada dois anos depois por Elon Musk e que é, hoje, parceira da NASA e outas agências espaciais, bem como de outras empresas privadas com atuação no espaço.

A SpaceX nasceu com praticamente o mesmo propósito da Blue Origin, mas Musk tinha a ideia fixa na cabeça de levar a humanidade a Marte - e assim continua. Desde então, a fabricante desenvolve foguetes reutilizáveis (como o já consolidado Falcon 9, além do Falcon Heavy e do em desenvolvimento Starship), e também investe em veículos espaciais, como a nave Dragon, usada para levar cargas de suprimentos à Estação Espacial Internacional (ISS) em parceria com a NASA. Ainda, há a nave tripulável Crew Dragon, atualmente realizando voos não tripulados em caráter de testes, também com viagens à ISS em mente - o que começará a acontecer em algum momento de 2020, se nada mais der errado.

A Blue Origin, por sua vez, também tem foguetes e naves a serviço da indústria aeroespacial, incluindo o foguete New Shepard e uma nave homônima (esta que deverá ser usada no turismo espacial na órbita da Terra em um futuro muito próximo), além do foguete New Glenn, que será o rival do novo Starship de Elon Musk. Ainda, há a nave Blue Moon, já apresentada ao mundo, mas ainda não inaugurada, que foi desenvolvida para ser um módulo de pouso a ser usado na Lua.

E, além de serem rivais espaciais no que diz respeito a naves e foguetes, ambas contam, também, com projetos audaciosos para criar uma constelação de satélites de internet de alta velocidade, a fim de oferecer tal acesso a toda a extensão do planeta - incluindo áreas remotas e isoladas. A SpaceX saiu na frente com o projeto Starlink, que já lançou os primeiros lotes à órbita da Terra e, nesta semana, deve lançar mais um lote com 60 unidades. O objetivo é formar uma constelação de até 42 mil satélites orbitando o planeta. Já a Amazon trabalha no projeto Kuiper, mais modesto em relação ao número total de unidades, mas com o mesmo objetivo ambicioso de oferecer conectividade de alta qualidade a qualquer pessoa, em qualquer lugar da Terra.

Agora que a rivalidade entre iniciativas de Elon Musk e Jeff Bezos está melhor contextualizada, fica mais fácil imaginar que o fundador da Amazon possa ter em mente alfinetar seu concorrente também em outro setor, que é o de veículos elétricos. Não há como saber se a Amazon vai criar seu próprio carro, é claro, tudo não passa de especulação neste sentido - por enquanto.

Durante a CES de 2020, vimos empresas como a Sony, por exemplo, apresentarem seu próprio modelo esportivo elétrico, mas que ainda carece de muitos detalhes. Se a maior varejista do mundo pretende mesmo entrar nessa disputa - tal qual já fez em outros segmentos -, só o futuro dirá. Mas é fato que o terreno é fértil, e as motivações (e provocações) são intensas.

Fonte: CCN

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