Como a COVID-19 impactou o preço dos smartphones vindos do Paraguai

Por Rui Maciel | 15 de Maio de 2020 às 11h00
Cesar I. Martins / Wikimedia Commons

A situação choca. Na chamada Ponte da Amizade, na fronteira entre Brasil e Paraguai, mais precisamente entre as cidades de Foz do Iguaçu e Ciudad del Este, é possível ver dezenas de trabalhadores paraguaios largados ao ar livre. A cena é parecida com aquelas de refugiados de países em guerra, mas a realidade é outra: com a crise da COVID-19 que assola o território brasileiro, os cidadãos paraguaios que tentam retornar ao seu país simplesmente são barrados, por medo de que estejam contaminados.

“Quando têm sorte, eles são encaminhados de imediato para abrigos montados pelo governo. Caso contrário, precisam dormir ao relento, na Ponte da Amizade, o que é comum. Os repatriados não podem ir direto para casa porque, no Paraguai, quem volta do exterior é obrigado a cumprir uma quarentena de 15 dias e submeter-se a testes. 

Segundo o ministro da Saúde do Paraguai, Julio Mazzoleni, os paraguaios que retornam do Brasil apresentam, provavelmente, elevada carga viral. No último boletim divulgado pelo Ministério da Saúde paraguaio no sábado (9), o país contabilizou mais 126 casos, dos quais 124 correspondem a pessoas que chegaram do Brasil e estão em albergues. O total de casos confirmados no Paraguai é de 689, boa parte importada do território brasileiro”. 

Os dois parágrafos que você leu acima foram divulgados pelo site H2foz, especializado em notícias na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Além da situação de precariedade, ela mostra como o Paraguai vem levando a sério o fechamento das fronteiras com o Brasil.

Hoje, o país latino-americano consegue manter sob controle a propagação do coronavírus. Com sete milhões de habitantes, o Paraguai tem 724 casos confirmados e apenas 10 mortes, segundo o mapa online global do coronavírus, da universidade Johns Hopkins. E para evitar que a epidemia sobrecarregue seu frágil sistema de saúde, o controle de quem consegue entrar em seu território é dos mais rígidos. E quando o acesso é feito a partir do Brasil, as restrições são ainda mais pesadas.

E se as - necessárias - medidas de fechamento de fronteiras do governo paraguaio afetam seus próprios cidadãos, elas também impactam o Brasil. Não apenas no livre trânsito entre as duas nações, mas também em um setor que, até bem pouco tempo, era dos mais prósperos: o comércio de smartphones entre os dois países, dentro do que costumamos chamar de “mercado cinza”.

Mas o que é o mercado cinza de smartphones?

Explicando de maneira simplificada, o mercado cinza abrange todos os smartphones que chegam ao Brasil de forma não-oficial, principalmente por meio da China e do Paraguai. Nesse último caso, muitos lojistas de centros comerciais físicos ou de lojas online, atravessam a fronteira até o país vizinho e trazem, ou encomendam, milhares de aparelhos de marcas como Xiaomi, BLU, Oppo e Vivo, que abastecem locais como a Galeria Pagé ou a rua Santa Ifigênia, ambos em São Paulo, além de outros centros, ou e-commerces presentes em plataformas de marketplace no Mercado Livre, Amazon, entre outros.

A força do mercado cinza no Brasil está longe de ser desprezada. Um estudo recente divulgado pela consultoria IDC afirma que esse setor respondeu por 7% das vendas dos smartphones no país em 2019, o que significa 3,8 milhões de unidades. Esse volume de comercialização tira o sono de fabricantes como Samsung, Motorola, Xiaomi, Nokia e LG. Afinal, essas empresas têm sede estabelecida por aqui, produzem os aparelhos em território nacional e pagam os (pesados) impostos brasileiros. O que impacta no preço final ao consumidor.

Dispositivos da Xiaomi estão entre os mais populares no Paraguai e no mercado cinza brasileiro (Imagem: Francielle Lima)


Mesmo assim muita gente prefere arriscar no mercado cinza, por um motivo dos mais fortes: o preço dos smartphones - que podem ser até 50% mais baratos do que o cobrado no mercado formal. Isso porque dispositivos “cinzas” não pagam impostos, o que permite aos importadores comercializá-los por valores bem competitivos. Ainda que esses aparelhos cheguem aqui sem serem homologados pela Anatel (o que pode fazer com que eles sejam bloqueados pelas operadoras), sem suporte de uma assistência técnica e com chances de apresentar problemas de conexão, muita gente prefere arriscar. Afinal, pagar (bem) mais barato por um dispositivo com configurações parrudas pode compensar.

Mas agora, com a COVID-19, o mercado cinza de smartphones tem um cenário dos mais nebulosos para enfrentar. E que vai impactar diretamente no bolso de quem planeja comprar um aparelho nessa categoria. E já acertou em cheio quem mora lá do outro lado da fronteira.

Paraguai paralisado

Como dissemos no início desta reportagem, o Paraguai tomou medidas duras para conter a propagação da COVID-19 em seu território. Para isso, o governo promoveu um lockdown, permitindo que a população saia às ruas apenas para o essencial, ou seja, fazer compras em supermercados ou farmácias. No mais, tudo parado. E isso inclui o comércio em geral.

E esse lockdown atingiu em cheio as lojas de eletrônicos de Ciudad del Este, cidade que faz fronteira com Foz do Iguaçu e de onde sai boa parte dos smartphones que abastecem o mercado cinza brasileiro. “Nós começamos a sofrer os efeitos da Covid-19 já no início deste ano. Como a epidemia atingiu a China primeiro, as lojas de Ciudad del Este tiveram desabastecimento de aparelhos”, afirmou ao Canaltech o proprietário de uma das maiores lojas de importados da região, que pediu para não ser identificado. “Agora, com a obrigatoriedade de fechamento das lojas e o fechamento da Ponte da Amizade, nossas vendas caíram consideravelmente. Apenas aqui na minha loja, tivemos de demitir 60% dos funcionários e números semelhantes estão ocorrendo em outras lojas”.

Região de lojas em Ciudad del Este: comércio paralisado (Crédito da foto: Wikipedia / Creative Commons)

Aliás, o fechamento da Ponte da Amizade é um capítulo à parte no cenário de eletrônicos Brasil-Paraguai. Para evitar que brasileiros - ou cidadãos paraguaios que moram ou estiveram recentemente no país - propaguem a COVID-19, o governo paraguaio determinou o bloqueio da ponte, sendo que sua reabertura deve ocorrer apenas em dezembro, pouco antes do Natal. “Com a Ponte da Amizade aberta, minha loja recebia 10 mil clientes por dia”, declarou nossa fonte. “Agora, precisamos esperar até julho, data prevista para a reabertura do comércio aqui no Paraguai. Ainda assim, atenderemos apenas para a população local. Com a ponte fechada, a movimentação, claro, será muito menor”.

Como o dólar fará os brasileiros comprarem smartphones no mercado formal

O fechamento da Ponte da Amizade fará com que o mercado cinza brasileiro de smartphones sofra um desabastecimento. Afinal, é por lá que muitos dos aparelhos passam antes de chegar às lojas. E aí, o que se vê é a velha e boa lei da oferta e da procura. Se a demanda por dispositivos está maior que se tem disponível no mercado, os preços sobem. E é exatamente o cenário atual.

“Hoje, os lojistas no Brasil desistiram do Paraguai, estão desovando seu estoque e, depois, estão comprando os aparelhos para revenda a partir dos chineses, que estão sediados principalmente em São Paulo e já têm muitos produtos estocados”, afirmou Marcelo Luna, representante comercial que trabalha entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este. “Além disso, eles conseguem trazer os smartphones para o Brasil por outros meios, sem necessariamente passar pelo Paraguai. Em uma conta simplista, antes o mercado cinza brasileiro tinha 75% dos produtos vindos do mercado paraguaio e apenas 25% eram provenientes da China. Agora, esse cenário se inverteu. Mesmo assim, o número de aparelhos disponíveis no mercado está muito menor, o que os torna mais caro”, completa.

Mas, para Reinaldo Sakis, gerente de Pesquisa & Consultoria de Consumer Devices da IDC Brasil, não é exatamente a escassez que encarece os smartphones no mercado cinza brasileiro. “Quem traz smartphones do mercado paraguaio, não traz apenas pela Ponte da Amizade. Ali, aliás, é um dos locais mais arriscados para essa prática, porque a fiscalização é maior. É evidente que os celulares são trazidos para cá por outros meios, como barcos e aviões”, afirmou. “No entanto, ainda que o fechamento das lojas tenha impactado na alta dos preços, é um outro fator o grande vilão para os smartphones do mercado cinza terem ficado mais caros: o dólar. Em tempos com a moeda americana nas alturas, o Paraguai perde muita força, com preços dos smartphones tendo um potencial de aumento de até 50%”.

De fato, a crise causada pela COVID-19 fez o dólar subir a níveis recordes. Para se ter uma ideia, até o fechamento desta reportagem, US$ 1 estava cotado a R$ 5,86. Com isso, comprar smartphones no mercado cinza passa a não compensar: “No caso de smartphones Android, os preços em lojas de Ciudad Del Este ainda estão um pouco mais baixos, mas quando revendidos no Brasil, os valores aumentam consideravelmente. Como os lojistas pagaram em dólares e precisam embutir os custos e lucro no preço final do aparelho, o valor acaba ficando muito próximo do que é vendido no mercado formal”, disse Sakis, do IDC. “Com isso, o usuário vai preferir comprar aparelhos em lojas oficiais, onde terá garantia, assistência técnica, poderá parcelar o pagamento, além de contar com um dispositivo certificado pela Anatel”.

Nossa fonte no Paraguai também é da mesma opinião. A alta do dólar impactará no mercado cinza de smartphones até mais do que a escassez de aparelhos no mercado. “O câmbio brasileiro é muito sensível. Qualquer instabilidade faz o real se desvalorizar enormemente frente ao dólar. E a crise do coronavírus piorou isso enormemente”, afirmou o empresário. “Já o Guarani (moeda usada no Paraguai) é o inverso. O câmbio paraguaio vem se mantendo estável há anos, ajudando no consumo local. Tanto que o preço dos produtos não teve grandes alterações para a população daqui. Na verdade, até diminuiu”.

No entanto, esse cenário de aparelhos mais caros e queda do mercado cinza deve acontecer apenas a partir dos próximos meses. “Até o primeiro trimestre deste ano, o mercado cinza, foi muito forte, inclusive em janeiro e fevereiro. E na comparação com o mesmo período entre 2019 e 2020 é possível que haja até mesmo um crescimento”, declarou Sakis. “Como os produtos estavam em trânsito nesse período, não registramos quedas na comercialização".

E qual será o futuro do mercado cinza Brasil-Paraguai? 

Com o rígido fechamento das fronteiras imposto pelo governo paraguaio, o futuro, pelo menos a curto prazo, será difícil para as lojas que abastecem o mercado cinza brasileiro. Isso porque como dissemos anteriormente, os estabelecimentos de Ciudad Del Este só reabrirão em julho e, ainda assim, só poderão atender à população que mora no Paraguai, já que os brasileiros estão barrados.

Por conta disso, as lojas paraguaias vêm tentando se reinventar. Muitas delas migraram para o online, trabalhando principalmente com marketplaces. Segundo nossa fonte, o e-commerce paraguaio teve um crescimento de 300%. “Algumas das maiores lojas aqui de Ciudad del Este, incluindo a minha, têm planos de internacionalizar o e-commerce. Estamos estudando os trâmites e devemos começar a vender para o Brasil em dois meses”.

No entanto, essa crise comercial também deixará terra arrasada em parte de Ciudad del Este. E isso se dará na forma de fechamento de muitas lojas da região. “É bem possível que ao final desta crise, apenas os grandes players de Ciudad del Este sobrevivam”, afirmou Luna, que já trabalha na região há anos. “Boa parte dos pequenos estabelecimentos terá de fechar as portas. Das mais de 500 lojas que vendem para o Brasil, muitas sairão do mercado. Além disso, antes da crise, a região recebia 100 toneladas de produtos por dia. Esse volume deve cair também. Será uma nova realidade que teremos de nos adaptar”, completa.

Audiência do site "Compras Paraguai", maior comparador de preços para quem quer comprar no país: queda acompanhou a crise da COVID-19 (Captura da imagem: Similar Web)

Luna também desenha um cenário diferente no mercado cinza brasileiro, ainda que isso não seja visto diretamente pelo consumidor: “Com a fronteira fechada, os chineses que estão em São Paulo tentarão consolidar o aumento de participação de mercado ante os lojistas que compravam do Paraguai. Antes da crise, eles tinham uma parte menor do mercado cinza - talvez, por volta de 25%. Agora, eles podem tentar inverter isso”, afirmou. “Mas também há um fato: assim que o mercado paraguaio reabrir, ele engolirá o Brasil de novo quando falamos de eletrônicos. E paralelo a isso, junto com a crise financeira que a COVID-19 está trazendo ao Brasil, veremos um aumento gigantesco no consumo de produtos de segunda mão, assim como aconteceu na Europa quando a crise financeira de 2008 estourou”.

E qual o cenário para as grandes fabricantes de smartphones estabelecidas no Brasil?

Devido ao surto de coronavírus e a oscilação do dólar, a previsão para 2020 é bastante incerta. Segundo o IDC, espera-se que o mercado de smartphones chegue ao final de 2020 com alta de 2%. Já os features phones devem ter queda de 3,5%.

“Além da alta do dólar que afetará os preços dos produtos vindos do Paraguai, o ecossistema estabelecido aqui no Brasil ainda fará pressão junto à Polícia Federal para que haja um maior número de apreensões de produtos”, disse Sarkis. “Com isso, projetamos uma queda de 39% em relação à atuação do mercado cinza por aqui”.

Essa pressão citada por Sarkis pode ser na forma do fornecimento de informações de inteligência para que a PF localize a mercadoria ilegal. E com a pandemia da COVID-19 e o fechamento das fronteiras, o volume de dispositivos transportados diminuiu, o que facilita o monitoramento de quem tenta trazer esses aparelhos para o Brasil. Exemplo disso é o maior número de apreensões feitas pela Polícia Federal nos últimos meses, na ordem de dezenas (ou centenas) de milhares de reais.

Apreensão recente de eletrônicos feitos pela PF na fronteira com o Paraguai. Imagem: Polícia Militar do Mato Grosso do Sul

Mas, mesmo com a queda do mercado cinza, as grandes fabricantes que atuam no Brasil ainda enfrentarão muitas turbulências neste ano. Além de março, o segundo trimestre deve registrar números bastante impactados pela pandemia da COVID-19, principalmente porque o país enfrenta uma quarentena severa, com as lojas físicas fechadas, além da perda de empregos na esteira da crise financeira.

Cenário projetado pelo IDC para o mercado de eletroeletrônicos em 2020: números impactados pela COVID-19

No entanto, para o terceiro trimestre (entre julho e setembro), a expectativa é de recuperação. “Teremos Black Friday, as festas de final ano e também uma maior retomada da nossa rotina pré-COVID”, afirmou o executivo do IDC. “A indústria deve se recuperar por volta de setembro, mas com um novo custo refletindo, já que o dólar não cairá para os mesmos patamares pré-crise. De qualquer forma, é quase certo que o setor de eletroeletrônicos perderá um trimestre de vendas”.

Agora, como o setor poderá recuperar depois de uma “tempestade perfeita”, envolvendo a perda de vendas de um trimestre, dólar alto e crise financeira? Para Renato, as empresas terão de usar a criatividade: “Com o dólar em alta, ficará muito difícil para fabricantes de smartphones e varejistas praticarem descontos, até porque elas precisarão manter suas margens de lucro de qualquer maneira e muitos desses custos serão repassados ao consumidor”, afirmou. “Uma das saídas seria ofertar mixes de produtos diferentes, com a criação de pacotes, por exemplo, de smartwatches + smartphones. Essa combinação pode focar os produtos topos de linha. Ainda que eles sejam restritos a uma parcela pequena da população, as margens de lucro nesse nicho são muito maiores”.

E a crise também pode fazer com que lançamentos de smartphones sejam cancelados no Brasil? Sarkis acha muito difícil: “Smartphones têm seu roadmaps planejados com muita antecedência. Isso envolve Pesquisa & Desenvolvimento, produção, ações de marketing. Há um investimento muito grande nesse processo”, declarou. “Pode ser que as fabricantes cortem eventos de lançamento, por exemplo, adiem a chegada de um produto ou deixe de lançar a variante de um modelo de uma determinada categoria para adequar demandas e custos. Mas deixar de lançar uma linha de smartphones não faz sentido. É muito custoso, uma retomada seria muito mais complexa. E elas perderão muito dinheiro se optarem por isso. E dinheiro é algo que elas não podem se dar ao luxo de perder”, completa.

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