Neve em SP? Especialista explica a frente fria no sudeste e sul do Brasil

Por Patrícia Gnipper | 19 de Agosto de 2020 às 17h59
Ross Sokolovski/Unsplash

Estamos sendo bombardeados por notícias dizendo que "vai nevar em São Paulo" nesta semana. Mas isso não é verdade. Claro, muitas dessas notícias foram desenvolvidas com um tom mais cauteloso dizendo que "pode nevar no estado de São Paulo" — só que essa possibilidade também não existe. E quem explica tudo isso é Willians Bini, meteorologista com mestrado pela USP e atual diretor de projetos da SOMAR Meteorologia.

Primeiro, vamos entender por que e como surgiu essa história de que poderia nevar em São Paulo nos próximos dias. Informações dadas à imprensa pela MetSul Meteorologia indicavam uma real e intensa diminuição na temperatura dos próximos dias nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo, em especial, graças a uma massa de ar polar vinda da Argentina, afetando, na verdade, todo o Brasil a partir desta quarta-feira (19).

O mapa mostra o avanço da frente fria e da massa de ar polar no país entre os dias 19 e 22 (Imagem: Reprodução/CPTEC)

À Veja São Paulo, o instituto disse que essa frente fria tem potencial de ser "um evento histórico de frio e neve", com base em simulações feitas por seus especialistas. Em algumas dessas várias simulações, havia o cenário em que "locais pouco acostumados a ver neve ou que não testemunham o fenômeno por décadas" registrariam a ocorrência de neve e chuva congelada — e, entre esses locais, estaria o sul do estado de São Paulo, com "probabilidade altíssima" de testemunhar neve, mesmo lembrando que "hoje não se pode fazer projeções precisas de quantidade e localização do fenômeno".

Rapidamente, a mídia divulgou as informações do MetSul em massa, e a polêmica começou a surgir logo em seguida, quando o Climatempo rebateu a afirmação de que havia uma "probabilidade altíssima" de nevar em São Paulo. Eles brincam dizendo que "a Frozen do inverno de 2020 chega ao estado e faz a temperatura despencar", confirmando o frio intenso a partir desta quarta-feira, sendo que a capital paulista "pode até bater recordes de frio para este ano". Contudo, são categóricos: "mas não vai nevar no estado de São Paulo".

Uma das simulações mostrava neve no sul de SP (Imagem: Reprodução/MetSul/Veja São Paulo)

Depois disso, o próprio MetSul deu um passo para trás em suas afirmações, publicando em seu site oficial que a "chance de neve se limita ao sul do Brasil e não alcança São Paulo". Eles revelam que o dia mais frio no estado será a sexta-feira (21), em especial na capital paulista. Em algumas cidades mais ao sul, próximas do Paraná, a temperatura na tarde de sexta ficará abaixo de 10 ºC, "o que é incomum e atipicamente abaixo para o período". Enquanto isso, o norte do estado paulista enfrentará temperaturas muitíssimo mais altas.

Previsão atualizada do MetSul para o estado de São Paulo até o dia 21 de agosto (Imagem: Reprodução/MetSul)

Ainda assim, mesmo nas cidades que lidarão com as temperaturas muito mais baixas do que o habitual para essa época, o instituto diz que "o ar polar não atingirá com grande intensidade a região serrana, e o ar mais gelado, propício à neve, ficará limitado no sul do Brasil". Eles explicam que os modelos numéricos anteriores, que foram disseminados pela mídia, "chegaram a sugerir a possibilidade de neve no sul paulista, mas, cinco a seis dias antes, as projeções de computador oferecem cenários muito menos confiáveis".

Ou seja: quando o assunto é a previsão do tempo, é sempre extremamente arriscado fazer afirmativas com tantos dias de antecedência, uma vez que os modelos mais confiáveis, entre os vários dos mais utilizados, são atualizados pelo menos duas vezes ao dia, adequando-se a cada nova simulação.

Previsão mais realista (Imagem: Reprodução/SOMAR)

Muito frio e chuva, mas sem neve em São Paulo

Em entrevista ao Canaltech, Willians Bini, da SOMAR Meteorologia, explica o que acontece no estado de São Paulo nesta semana. Sobre as projeções que apontavam a ocorrência de neve em SP, ele ressalta que "não é só o frio intenso que provoca neve", pois há outras condições que devem estar alinhadas para que isso aconteça. "Quando temos nebulosidade e condição de chuva junto com temperaturas baixas, existe a possibilidade de neve. Por outro lado, se temos temperaturas baixas e um céu aberto, existe uma condição de geada". Enquanto a neve se precipita (ou seja, "cai do céu"), a geada é a formação de uma camada de cristais de gelo diretamente na superfície.

Mas, ué? Pois justamente o que está acontecendo em São Paulo não é exatamente frio intenso, nebulosidade e chuva? Sim, é verdade. "E, no último final de semana, alguns modelos realmente mostraram uma condição de frio muito intenso e pontos de neve no extremo sul do estado de São Paulo". Aí vem o "pulo do gato": para que a neve ocorra, a incursão de ar frio precisa adentrar diversas camadas da atmosfera, não permanecendo apenas na superfície — e, em São Paulo, o ar frio intenso desta semana não abrange todas as camadas da atmosfera, o que dificulta a formação da neve. A chuva e o frio intenso que chegam agora à maior parte do estado paulista não são suficientes para que neve na região.

"No caso de uma massa de ar frio realmente intensa avançar sobre o estado de SP, juntamente com áreas de chuva, as regiões mais propícias para a ocorrência de neve seriam o extremo sul paulista, na divisa com o Paraná e a Região da Serra da Cantareira, que já teve neve em alguns eventos no século XX. Mas as previsões são claras: para esse evento dos próximos dias, mesmo essas regiões de SP não devem receber neve", afirma.

O mapa mostra a intensidade das temperaturas mínimas em São Paulo nesta sexta-feira (21) (Imagem: Reprodução/SOMAR)

Quando perguntamos se essa frente fria que chega agora será mesmo a mais intensa do ano, o meteorologista faz um apontamento importante: "geralmente, o que é frio não é a frente fria, o que é frio é a massa de ar frio que vem logo em seguida da frente fria; a frente fria é uma região de transição entre duas massas de ar", então "o que vem atrás da frente fria é a massa de ar, essa sim que derruba as temperaturas". Com essa questão mais técnica explicada, ele responde que "sim, muito provavelmente essa massa de ar frio vai ser a mais intensa do ano".

Já quando perguntamos se essa massa de ar frio será algo histórico como vem sendo apontado por aí, o especialista diz que não é bem assim. "Temos que tomar muito cuidado com esses termos. Por que histórico? Tivemos muita neve [no sul do Brasil] em 2013. Será que um período de sete anos pode ser considerado histórico?", questiona, caso a neve que caia no sul do país nesta semana seja mais intensa do que a de 2013. "Teríamos que esperar o evento acontecer para aí sim comparar ambos os anos, 2020 e 2013, para saber se foi um evento histórico de fato", ressalta.

E por que as temperaturas sobem antes da "friaca"? Willians Bini explica que isso se chama "aquecimento pré-frontal", algo extremamente comum e "natural quando se tem a entrada de uma massa de ar frio". A explicação para isso é relativamente simples e tem a ver com a direção da circulação dos ventos: "quando uma frente fria se aproxima, os ventos passam a soprar do quadrante norte (de norte para sul), e essa direção costuma transportar o calor das regiões tropicais e equatoriais; no caso, o calor das regiões nordeste e centro-oeste do Brasil".

Neve no sul do Brasil: aí sim!

Já ao analisar a previsão do tempo para os estados do sul do Brasil nesta semana, a situação é bem diferente do estado de São Paulo, e lá, sim, a neve deverá acontecer. Segundo o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), as condições apontam para a presença de ar bastante frio em altitude atmosférica suficiente para "gerar condições favoráveis para a ocorrência de precipitação em áreas do sul do país". Sendo assim, entre a quinta-feira (20) e o sábado (22), "haverá condições favoráveis para a ocorrência de neve na região sul brasileira, principalmente em regiões de altitudes mais elevadas".

Previsão de neve para os estados do sul do Brasil entre quinta e sábado (Imagem: Reprodução/CPTEC)

Já quanto à intensidade e distribuição espacial dessa neve sulista, o CPTEC permanece cauteloso, dizendo que "há muitas incertezas" em relação a isso. Ou seja: é arriscado afirmar exatamente quanto de neve e em qual extensão ela cairá, ainda que tudo indique que sim, vai nevar no sul — em especial nas Serras do Sudeste gaúcho, no Planalto do Rio Grande do Sul, na Serra Gaúcha, na Serra Catarinense, no Planalto Catarinense, no Meio Oeste de Santa Catarina, no Planalto do Paraná e nos Campos Gerais do Paraná.

Também estão previstas geadas bastante amplas nos três estados, justamente por causa da umidade mais elevada. A previsão é de temperaturas mínimas abaixo de -3 ºC durante o final de semana nas áreas mais elevadas.

Previsão de geada ampla no sul do Brasil, atingindo também partes do estado de São Paulo e Mato Grosso do Sul (Imagem: Reprodução/CPTEC)

Vale lembrar que a ocorrência de neve em determinadas regiões do sul do Brasil não é um fenômeno raro, tampouco incomum para o período de inverno. "Tudo depende das combinações meteorológicas. Não dá para dizer ainda que essa de 2020 será totalmente diferente das demais", diz Willians. Será preciso esperar que o evento aconteça, analisar os registros cautelosamente e, então, comparar com as ocorrências passadas. Somente depois disso é que se poderá afirmar, ou não, que essa frente fria do momento entrará para a história — como vem sendo informado apressadamente por aí.

Fonte: Veja SP, Climatempo, MetSul, BBC, CPTEC, Tempo Agora

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