Mudanças climáticas podem transformar recifes de corais em "cidades-fantasmas"

Mudanças climáticas podem transformar recifes de corais em "cidades-fantasmas"

Por Wyllian Torres | Editado por Patrícia Gnipper | 18 de Agosto de 2021 às 04h00
Guilherme Longo/UFRN

Os recifes de corais são uma espécie de colônia da vida marinha onde existe uma extraordinária biodiversidade — de animais e plantas. Um novo estudo conduzido por cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) revela que cerca de metade da vida marinha em recifes tropicais do Atlântico Sul não resistirão aos efeitos do aquecimento global até o fim deste século, caso os níveis de emissão de gases de efeito estufa se mantenham nas taxas atuais.

De acordo com o novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), o planeta atingirá, em 2030, a marca de 1,5 °C de aquecimento global em relação ao período pré-industrial. No entanto, os efeitos dessas mudanças provocados pelo aumento da temperatura global já aparecem em diversos sistemas, terrestres e marinhos. É o caso dos corais, organismos extremamente sensíveis à crescente acidez e temperatura dos mares.

Atol das Rocas (Imagem: Reprodução/Guilherme Longo/UFRN)

Ao longo de setes anos, os pesquisadores Guilherme Longo, Leonardo Capitani e Ronaldo Angelini buscaram compreender como o aumento da temperatura da Terra afeta de forma direta os animais marinhos, bem como os recifes e a matéria orgânica. Para isto, o grupo escolheu o sítio localizado no Atol das Rocas, a Primeira Reserva Biológica do país, a cerca de 150 km de distância de Fernando de Noronha. “Por ser uma área protegida, os recifes do Atol são um laboratório do que seria um ecossistema natural, com mínima interferência humana direta”, comenta Longo.

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A pesquisa contou com o apoio e monitoramento do Programa Ecológico de Longa Duração das Ilhas Oceânicas e da equipe de reserva biológica do Atol. A partir dos dados, os pesquisadores conseguiram elaborar um modelo matemático da cadeia alimentar dos recifes tropicais do Atlântico Sul —  o que, até então, não existia nesta área de pesquisa. O modelo compara a biomassa de diferentes organismos a cada ano, como peixes, algas, coras e outros invertebrados, considerando a eficiência que aquele recife tem em circular energia e matéria.

As projeções indicam que, caso os atuais níveis de emissão de gases de efeito estufa se mantenham pelos próximos anos, muitas espécies de animais entrarão em colapso a partir de 2050. Leonardo Capitani explica que o aquecimento dos oceanos provocará uma diminuição drástica na diversidade marinha, pois a biomassa dos recifes terá bem menos capacidade de transferir energia e matéria para o animal seguinte da cadeia alimentar. “As algas vão ter menos nutrientes e os peixes serão menos resistentes, diminuindo e fragilizando as espécies”, acrescenta Capitani.

(Imagem: Reprodução/Mission Blue/Tobias Zimmer/Shawn Heinrichs)

Além disso, Capitani ressalta que os recifes correm risco de se tornarem “cidades-fantasma” no mar, completamente sem vida. O estudo é mais um alerta sobre a crise climática provocada pela ação humana. Os pesquisadores apontam que, entre as consequências dessa perda dos corais, estão prejuízos para a atividade pesqueira e o turismo do litoral brasileiro, uma vez que os recifes são reservas de importantes cardumes e, claro, atraem turistas por conta de sua beleza.

Os pesquisadores apontam para a necessidade urgente de projetos de monitoramento a longo prazo de ecossistemas marinhos, bem como o fortalecimento de unidades de conservação para reduzir impactos humanos locais. “Com isso, podemos preparar os recifes para impactos globais”, encerram.

Os resultados da pesquisa foram publicados na edição do dia 18 de agosto da revista Ecosystems.

Fonte: Agência Bori

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