Mistério da Cachoeira de Sangue da Antártida é solucionado após 100 anos

Por| Editado por Luciana Zaramela | 05 de Julho de 2023 às 17h50

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National Science Foundation/Peter Rejcek/Domínio Público
National Science Foundation/Peter Rejcek/Domínio Público

Graças à microscopia eletrônica, foi resolvido o mistério das Cachoeiras de Sangue da Antártida, a perturbadora geleira que parece estar vertendo águas sangrentas e que permaneceu enigmática por mais de 100 anos. Sua curiosa cor, sabemos agora, é graças a nanoesferas ferrosas que oxidam e deixam o líquido vermelho.

As infames cachoeiras foram descobertas na Expedição Terra Nova, lideradas pelo geólogo britânico Thomas Griffith Taylor em 1911. Na base da Geleira Taylor, que foi batizada em homenagem ao cientista, ele foi o primeiro a notar a presença de águas rubras. Quando verte do interior da base rochosa, a água parece normal, tomando, na superfície, a matiz avermelhada que levou à nomeação, pelo geólogo, de Cachoeira de Sangue.

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O responsável por desvendar o mistério é Kenneth Livi, da Universidade Johns Hopkins, que recebeu amostras da vertente e pôde analisar os sólidos presentes na água bem de perto, graças a microscópios eletrônicos de transmissão. Foi então que puderam ser notadas nanoesferas de ferro, pequenos objetos 100 vezes menores do que um glóbulo vermelho humano e que possuem características químicas e físicas únicas. É sua oxidação, em contato com o ar, que leva à vermelhidão.

Procurando no lugar errado

Embora sejam ricas em ferro, as nanoesferas também trazem outros elementos, como silício, cálcio, alumínio e sódio. Junto a Livi, trabalharam profissionais como a microbióloga Jill A. Mikucki, que já estudava a Geleira Taylor e a Cachoeira de Sangue há muito tempo.

Segundo o pesquisador, é provável que a identificação do elemento responsável pelo aspecto sanguíneo da água não ocorreu antes porque se acreditava que algum mineral estaria causando tudo isso — os estudos, então, buscavam no lugar errado, já que as nanoesferas não são minerais.

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Para um mineral ser considerado como tal, seus átomos têm de estar arranjados em uma estrutura bem específica, cristalina — como as nanoesferas não estão organizadas assim, métodos de detecção de minerais não os percebiam, segundo Livi. Há, ainda de acordo com ele, microorganismos no interior das geleiras que podem ter ficado no local por milhões de anos, escondidos sob as águas salobras da Antártida. É por isso que a microbiologia foi importante para o estudo.

Cheias de ferro e sal, as águas abaixo das geleiras guardam cepas bacterianas que provavelmente não mudaram por milhares de anos. Entender esse ambiente diferenciado e as formas de vida que o habitam pode nos ajudar a encontrar e compreender a vida em lugares inóspitos, especialmente em outros planetas, onde as condições podem ser similares. Livi é especialista em materiais planetários, e é isso, em partes, que o levou a pesquisar o caso.

De acordo com o especialista, missões como as das rovers de Marte levaram cientistas a estudar a Cachoeira de Sangue como se fosse um ambiente marciano — um tipo de preparação para nossos estudos de outros planetas. Mikucki e sua equipe, por exemplo, analisaram amostras do local com a mesma tecnologia das rovers que visitaram o Planeta Vermelho, encontrando organismos vivos pela primeira vez no lago sob a Geleira Taylor, mas não conseguindo desvendar, à época, o mistério das águas sangrentas.

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Embora tenha expressado contentamento pela resolução do mistério, Livi afirma que a pesquisa deixou clara a falta de preparação da ciência para o estudo de outros planetas, ao menos com as rovers atuais. Em ambientes gelados como o de Marte, descobrir a natureza de materiais pode requerer mais tecnologia, já que eles podem ter tamanho nano e serem não-cristalinos.

Um microscópio eletrônico de transmissão, como o usado na Geleira Taylor, pode ser necessário para identificá-los, mas ainda é inviável usá-lo em expedições como essas atualmente.

Fonte: Frontiers in Astronomy and Space Sciences, Johns Hopkins University