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Japão quer liberar água da usina de Fukushima no oceano; há riscos?

Por| Editado por Patricia Gnipper | 07 de Março de 2023 às 18h39

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Greg Webb/IAEA
Greg Webb/IAEA

O plano anunciado por autoridades japonesas de liberação da água radioativa da usina nuclear de Fukushima no oceano vem causando controvérsia entre os países vizinhos e ONGs ambientalistas. O resíduo — que já foi tratado — ocupa mais de mil tanques e precisa de uma destinação para que as obras de remediação continuem no local.

Pode soar uma péssima ideia, como soou para a China, Coreia do Sul e várias ilhas do Pacífico, mas o governo do Japão, a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) e cientistas não relacionados com o plano declararam que ela é segura. Recentemente, um artigo publicado por especialistas australianos no portal The Conversation reforça esta posição.

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Com longa experiência profissional e acadêmica na área de ciência e energia nuclear, os cientistas avaliam o tipo e quantidade de radiação a ser liberada, bem como a radiação já presente no oceano. A análise conclui que não há riscos e a medida é necessária para que o Japão siga com o processo de recuperação da área.

O que existe na água de Fukushima

Um total de 1,3 milhão de toneladas de água — o suficiente para encher 500 piscinas do tamanho da que o atleta Bruno Fratus nadou para conseguir uma medalha de bronze nas Olimpíadas de Tóquio. É esta a quantidade armazenada até o momento em Fukushima. Ela foi usada no processo de contínuo resfriamento dos reatores da usina.

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Além disso, um grande volume de água é contaminado todos os dias no solo abaixo do local. A instalação em que os reatores funcionavam foi construída no nível do lençol freático justamente para usar o líquido no resfriamento. É preciso dar sequência no processo de remediação da área para que os 140.000 litros contaminados diariamente sejam zerados.

Toda essa água — tanto a que havia sido usada enquanto a usina estava ativa, quanto a que é contaminada diariamente — é tratada por um processo chamado Sistema Avançado de Processamento de Líquido (ALPS). O tratamento pode ser repetido quantas vezes forem necessárias para deixar a água dentro dos padrões legais, um monitoramento que é feito pela IAEA.

O único contaminante radioativo que o ALPS não consegue remover é o trítio — uma forma de hidrogênio que possui dois nêutrons e um próton em seu núcleo atômico. Como em todo elemento radioativo, a radiação do trítio diminui com o passar do tempo a uma taxa chamada meia-vida. O termo se refere ao período necessário para que a radiação caia pela metade.
No caso do trítio, são 12 anos de meia-vida, ou um século até que ela esteja praticamente zerada, um tempo longo demais para manter o armazenamento nos tanques.

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Por que é seguro liberar o trítio?

Existem padrões nacionais e internacionais referentes à potabilidade de água, colocando limites para a presença de uma série de substâncias após os processos de tratamento. No Brasil, o Ministério da Saúde exige que a concentração de urânio na água não seja superior a 0,03 mg por litro.

No caso do trítio, o padrão internacional é medido em uma unidade chamada Becquerel (Bq), que indica o decaimento radioativo na amostra. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece 10.000 Bq por litro como parâmetro para a água potável, enquanto o Japão pretende lançar a água de Fukushima no oceano com apenas 1.500 Bq por litro.

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Além disso, pequenas quantidades de radiação estão presentes a todo momento em nosso cotidiano: mesmo o ar, as plantas e até nossos alimentos emitem radiação em alguma medida, em quantidades insignificantes para a saúde. O próprio Oceano Pacífico já possui cerca de 3 quintilhões — 3 bilhões de bilhões — de Becquerels de trítio.

O número é tão grande que é possível expressá-lo na massa total do elemento: seriam 8,4 kg de trítio em todo o volume do maior oceano do mundo. Em comparação, o Japão pretende liberar um total de cerca de 3 gramas com a água de Fukushima, a uma taxa de 0,06 gramas por ano (22.000 bilhões ou 22 TBq).

Finalmente, outras usinas nucleares também são obrigadas a descartar a substância de alguma forma. China e Coreia liberam mais de 50 TBq por ano em suas respectivas usinas de Kori e Fuqing. No Reino Unido, a usina de Heysham pode chegar a 1.300 TBq por ano e está em atividade há 40 anos.

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Há um ressentimento justificado nas ilhas do Pacífico em relação às tecnologias nucleares devido ao legado dos testes de bombas realizados na região. De qualquer forma, a diferença que as águas de Fukushima fariam seria mínima. Doze anos após o terremoto que deixou quase 20.000 mortos, a região deve continuar seu processo de reconstrução.

Fonte: The Conversation