Consulta sobre neutralidade da rede nos EUA é dominada por spam

Por Redação | 30 de Novembro de 2017 às 10h26

Uma pesquisa realizada nos EUA pela Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês, órgão semelhante à Anatel brasileira), voltada para conhecer a opinião pública sobre a neutralidade da rede, foi completamente minada por uma verdadeira invasão de spams. De acordo com dados de uma consultoria que analisou as publicações, mais de um terço dos 22 milhões de comentários publicados são falsos, criados por robôs usados por apoiadores ou não da questão, ou, simplesmente, postados com o objetivo de atrapalhar o andamento da discussão.

As informações da Pew Research mostram como uma consulta pública voltada para conhecer a opinião popular foi por água abaixo quando mais de um milhão de comentários foram publicados a partir de contas falsas de e-mail que diziam pertencer ao site pornográfico Pornhub. Sete mil foram publicadas a partir de um único IP, assinados apenas como “A Internet”, enquanto outros 7,5 mil utilizavam o inexistente "exemplo@exemplo.com" como endereço eletrônico.

Isso não é nada, entretanto, perto das submissões automatizadas. Segundo a Pew Research, uma em cada sete mensagens postadas para a FCC eram idênticas a outras, ou seja, faziam parte de uma campanha de spam promovida por apoiadores ou não da neutralidade da rede. De um lado, era publicado o manifesto positivo do apresentador de TV John Oliver, enquanto de outro mensagens sobre como a neutralidade na rede impede a evolução tecnológica eram exibidas.

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No centro dessa campanha estariam dois dos principais grupos envolvidos na discussão: o Battle for the Net, que milita desde o primeiro governo Obama em prol de uma internet livre; e a Aliança de Proteção dos Pagadores de Impostos, que tem como principais argumentos a dificuldade de manter uma infraestrutura atualizada em um mercado de internet neutra. Nessa briga, os contrários à causa parecem estar ganhando, com mais de metade das publicações repetidas sendo contrárias à causa.

Outras informações comprovam a realização de uma campanha voltada, justamente, para minar a discussão. Em um único segundo do dia 19 de junho, pouco menos de 500 mil mensagens foram publicadas de uma só vez. O mesmo aconteceu em 24 de maio, quando 86 mil postagens foram feitas de forma simultânea. A mensagem mais repetida aparece 2,8 milhões de vezes, representando um em cada dez comentários da pesquisa.

Mesmo entre as publicações consideradas legítimas – cujo parâmetro para localização foi o fato de elas serem publicadas uma única vez durante o período de consulta – existem problemas. Apesar de o sistema da FCC prometer autorizar a publicação apenas por meio de e-mails legítimos, somente 3% das postagens foram efetivamente verificadas. Desse total, nove mil nem mesmo possuíam um endereço eletrônico, enquanto nada menos do que oito milhões usaram dados falsos obtidos a partir de sites que vendem contas temporárias. Mais uma vez, os contrários à neutralidade ganham corpo aqui.

São dados impressionantes que exibem diferentes vertentes da militância online. Até que ponto um apoio popular, ou o contrário, exibido pela internet, é legítimo? Como lidar com os trolls que simplesmente querem ver o mundo pegando fogo, principalmente quando se trata de questões de suma importância como esta? E, acima de tudo, como criar um sistema seguro para publicação de comentários que seja, ao mesmo tempo, simples e acessível para públicos com níveis diferentes de intimidade com a tecnologia?

A FCC não atingiu esse ideal. Apesar de o consenso ser de que o público é majoritariamente a favor da neutralidade da rede, um dos principais mecanismos do Senado americano para atestar isso era, justamente, a consulta pública, cujos resultados foram descartados pela agência e considerados não confiáveis após a massiva invasão de spams.

Por outro lado, a maioria republicana no Senado é a favor da medida que deve acabar com a neutralidade da rede nos Estados Unidos. A perspectiva é que o projeto seja aprovado ainda neste ano e seja assinado pelo presidente Donald Trump no começo do ano que vem, revertendo uma das medidas do governo Obama, que impedia a diferenciação de velocidade e gastos de rede de acordo com o conteúdo acessado pelo usuário.

Fonte: Wired

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