Artista vende NFTs de cocaína por R$ 16 mil e vira alvo de redes sociais

Artista vende NFTs de cocaína por R$ 16 mil e vira alvo de redes sociais

Por Igor Almenara | Editado por Douglas Ciriaco | 21 de Setembro de 2021 às 12h22
Reprodução/MART PRODUCTION

O artista colombiano Camilo Restrepo surgiu na internet em 2017 com uma ideia bem bizarra: vender 1 mil "pacotes de cocaína", de “um quilo cada”, como token não fungível (NFT) — é uma receita para dar errado, não é? O que seria só um conceito meio doido, mas inofensivo, para as redes sociais foi além do aceitável.

O “a ToN oF coke” (“Uma tonelada de cocaína”, em português) não é muito bem explicado pelo artista, que vende os pacotes direto na plataforma OpenSea. “São 1 mil pacotes de cocaína colecionáveis que podem ser adquiridos legalmente cuja propriedade pode ser verificada no blockchain”, descreve o projeto. Mas não pense que são fotos ou desenhos personalizados da droga, cada NFT é uma caixa retangular branca em forma de arte digital, produzida por computador, em um fundo cinza — todas perfeitamente idênticas.

O conceito do "a ToN oF coke" é bem simples: cada NFT equivale a 1 kg de cocaína totalmente virtual (Imagem: Reprodução/OpenSea)

Restrepo seguia bem com o projeto até que suas contas na web passaram a ser caçadas pelas redes sociais. Seus posts, que basicamente celebram a venda de um “pacote”, são frequentemente tirados do ar, enquanto seus perfis recebem notificações, são suspensos e vivem sob a ameaça de banimento permanente.

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Exemplo disso foi o que aconteceu com o artista no Twitter. Em julho, ele criou uma conta na plataforma para divulgar suas negociações, mas o perfil foi suspenso permanentemente em questão de dias. No Instagram, a reação foi semelhante, mas somente dois de seus posts foram removidos por “violações às Diretrizes da Comunidade ao vender produtos ilegais” — bastaria mais uma remoção para todo o seu perfil ser permanentemente banido.

O pacote mais caro de todos, o de número 666, custa 6 ETH (R$ 16 mil reais, aproximadamente) (Imagem: Reprodução/OpenSea)

Não é droga de verdade, mas parece

Apesar do teor questionável, o projeto não é ilegal. A “cocaína em cripto”, como ele apelida, é totalmente virtual e não representa direito a qualquer contraparte na vida real. Para o colombiano, quem erra são os sistemas de avaliação de denúncias. “Eu acho que o algoritmo não sabe a diferença entre cocaína em cripto e a droga de verdade”, pontuou o artista em entrevista ao site Input.

O problema pode ser impulsionado pela violenta relação de seu país, a Colômbia, com a cocaína. Até hoje, a droga tem um mercado ilegal forte no país, sendo ele um dos maiores produtores da substância. A série Narcos, da Netflix, conta um pouco de como o produto ilícito se tornou rentável por lá e impactou significativamente outros continentes.

Curiosamente (ou não), o modelo de pagamento de Restrepo também se assemelha ao esquema adotado pelo mercado ilícito na Colômbia. Segundo o site The Byte, bancos locais dificultam a circulação de criptomoeda no país ao adicionar mecanismos de proteção para o câmbio de dólar (necessário para adquirir certas moedas virtuais).

A solução do artista colombiano para o problema é quase como uma lavagem de dinheiro: ele transfere Ethereum para as carteiras virtuais de seus consumidores que, em troca, encaminham pesos colombianos para a conta pessoal do artista. Quando a compra é efetivada, a moeda digital volta para a carteira original.

"Isso realmente imita o círculo de lavagem de dinheiro de cocaína", comentou Restrepo. "Considerando que muitas remessas [de drogas] hoje são pagas com criptografias e logo trocadas por dinheiro", finaliza.

Mas por que cocaína virtual?

Camilo Restrepo teve uma vida complicada em decorrência da força do tráfico de drogas na cidade colombiana de Medelín e, em seu trabalho, um dos temas mais recorrentes é a violência da guerra às drogas no país. "Pessoas próximas a mim foram assassinadas por terem (ou não) relação com o tráfico de drogas e, quanto mais o tempo passa, mais percebo que o combate às drogas tem sido um fracasso total", explica o artista.

Camilo Restrepo (Imagem: Reprodução/Alejandro Arango)

Apesar de não ter nascido com essa proposta, o "a ToN oF coke" levanta discussões sobre a legalização e regulamentação do consumo de drogas e, para o colombiano, isso basta para dar utilidade ao projeto.

Em paralelo, o sucesso das vendas em NFT permitiria que ele mostrasse ao mundo como vive um grande traficante de drogas. "Eu também sei que, se este projeto viralizar, poderia viver com [o fruto das vendas de] uma tonelada de cocaína NFT igual a um traficante de drogas, que pode viver a vida inteira movimentando uma única tonelada de cocaína", contou Restrepo.

Fonte: OpenSea (a ToN oF coke), Input

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