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Músicas feitas com o Lyria 3 podem ser enviadas ao Spotify e outros streamings?

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João Melo/Canaltech
João Melo/Canaltech

O Google tem um fluxo grande de lançamentos que levam novos recursos ao Gemini, ferramenta de inteligência artificial (IA) da empresa, e um dos destaques recentes é o modelo Lyria 3. Ao acioná-lo, os usuários conseguem gerar músicas de até 30 segundos a partir de comandos simples.

O serviço precisa apenas de um prompt que descreva o gênero e o tema da faixa desejada para produzir o conteúdo. Também é possível enviar fotos ou vídeos como referência para que a IA atue como compositora e produtora musical — gerando até mesmo uma capa para o single.

Mas, apesar de a gigante das buscas afirmar que a intenção da nova funcionalidade é ser apenas um recurso divertido que explora a criatividade dos usuários, é natural que surjam questionamentos acerca do uso posterior desses conteúdos sintéticos.

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Nesse sentido, um dos pontos de maior relevância diz respeito à possibilidade (ou não) de publicar as músicas geradas pela IA do Google em plataformas de streaming musical.

Músicas geradas pelo Lyria 3 podem ser publicadas em streamings?

A resposta mais direta para essa pergunta é sim. Plataformas como Spotify, Deezer, Apple Music e Amazon Music não contam, atualmente, com restrições específicas que impeçam a publicação de músicas geradas por inteligência artificial, como é o caso dos conteúdos criados com o Lyria 3.

Segundo Paulo Henrique Fernandes, advogado e head de produtos e tecnologia da V+ Tech, o fato de a música ter sido criada com a ferramenta de IA integrada ao Gemini não a torna ilegal nem impede que seja enviada aos streamings. Ele ressalta que a IA, por si só, ainda não é motivo de bloqueio.

O especialista pontua, entretanto, que a questão em torno de faixas geradas de forma 100% sintética gira muito mais em torno de possíveis violações relacionadas à propriedade intelectual.

Problema é a violação de direitos autorais, não a IA

No anúncio do seu recurso de geração de músicas com IA, o Google afirmou que a tecnologia utilizaria artistas e músicas já produzidas apenas como “inspiração criativa”, ressaltando que não haveria “imitação” por parte da ferramenta.

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E é exatamente esse o principal ponto de atenção levantado por Fernandes. Isso porque, ainda que os streamings não impeçam a publicação de músicas criadas parcial ou totalmente por IA, eles têm apertado cada vez mais o cerco contra possíveis violações de direitos autorais.

O advogado detalha que o problema não reside no fato de haver uma produção como inspiração, mas sim em tentativas de clonagem de voz sem autorização ou uso indevido de identidade artística.

“Se a música gerada pela IA for apenas ‘inspirada’ em um estilo, gênero ou atmosfera, isso não configura violação. Estilo não é protegido por direito autoral. O problema começa quando há similaridade estrutural relevante em melodia, harmonia característica, letra ou arranjo distintivo que permita reconhecer a obra original. Aí pode haver alegação de plágio”, afirma o especialista.

No contexto brasileiro, essas violações vão ao encontro do que é estabelecido pela Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/1998). A legislação assegura aos autores o reconhecimento de sua autoria e o controle sobre a reprodução e a divulgação das obras.

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Músicas, partituras e produções sonoras estão entre as criações intelectuais protegidas pela lei, garantindo direitos ao criador automaticamente a partir da criação da obra — independentemente de registro formal. Vale ressaltar que essas normas se aplicam a eventuais infrações envolvendo conteúdos gerados tanto por humanos quanto por IA.

Cerco contra conteúdos fraudulentos ou gerados 100% com IA

Diante do crescimento de ferramentas de inteligência artificial com capacidade de produzir músicas com qualidade cada vez maior, os serviços de streaming musical tentam implantar mecanismos para mitigar o impacto desses conteúdos nas plataformas.

Um dos principais exemplos é a Deezer, que desde de 2025 conta com uma ferramenta de detecção de músicas geradas por IA. O recurso permite acompanhar o aumento constante de conteúdos totalmente sintéticos no aplicativo, além de rotular explicitamente faixas criadas com inteligência artificial.

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Dados divulgados pela Deezer apontam que, em 2025, cerca de 13,4 milhões de faixas geradas por IA foram identificadas na plataforma. Apesar de esse número representar entre 1% e 3% dos streams no app, o serviço constatou que 85% das execuções de conteúdos gerados sem interferência humana estavam associadas a práticas fraudulentas.

Algumas medidas práticas adotadas após a identificação de músicas geradas por IA incluem:

  • Exclusão de streams fraudulentos dos pagamentos de royalties;
  • Remoção de faixas 100% geradas por IA das recomendações algorítmicas;
  • Não inclusão de faixas totalmente sintéticas em playlists editoriais.
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O Spotify, por sua vez, divulgou em setembro de 2025 um comunicado no qual aborda diretrizes relacionadas à proibição da clonagem de voz não autorizada e ao reforço de mecanismos contra spam. Nesse segundo ponto, o serviço apertou o cerco contra práticas como uploads em massa, duplicatas, manipulação de SEO e uso abusivo de faixas artificialmente curtas.

Paulo Fernandes destaca que esse tipo de ação é especialmente importante em um momento em que ferramentas de inteligência artificial podem ser usadas não só para produzir conteúdos, mas também para distribuí-los em grande volume e com pouca originalidade.

“O que mudou é o contexto: como as plataformas estão combatendo ‘farm de plays’ e spam, faixas muito curtas, lançadas em grande volume ou com variações mínimas, podem cair em filtros de abuso e perder recomendação, distribuição ou até ser removidas se parecerem parte de um esquema”, ressalta o advogado.

O Spotify afirma que, entre setembro de 2024 e setembro de 2025, período em que houve uma grande expansão de recursos de IA generativa, foram removidas 75 milhões de faixas classificadas como spam da plataforma.

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O Canaltech entrou em contato com serviços como Amazon Music e Apple Music para obter informações sobre mecanismos de identificação de conteúdos gerados por IA, além de números relacionados a esse tipo de música nos respectivos aplicativos. No entanto, não houve retorno até a publicação desta matéria.

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