Até onde a Inteligência Artificial pode realmente nos levar?

Por Eduardo Ibrahim | 28 de Agosto de 2020 às 10h00

Nesse momento de transição entre o mundo industrial e o mundo digital, correntes de pensamentos, opiniões técnicas e filosóficas se misturam para tentar entender o impacto futuro da Inteligência Artificial nas nossas vidas, e está cada vez mais difícil separar ficção da realidade.

Não é à toa que estamos vendo isso acontecer. Podemos dizer que estamos vivendo um período “anti-utopia” de ideias, onde a ciência e tecnologia não têm limites que possamos enxergar. Na minha graduação, quando apresentei, como proposta de trabalho final, um óculos para filmar e consultar as aulas, a orientadora disse que era “utópico” e matou o projeto. Não porque aquele podia ser o primeiro smartglass já criado (bastante improvável), mas porque a ideia era consultar por texto os momentos das imagens gravadas, e não havia sequer uma previsão de existir uma tecnologia que fizesse isso.

Trazendo para o presente, fazer uma pergunta no Google e ele te responder o minuto exato da resposta com um vídeo no YouTube já é tão comum que até passa despercebido o uso da Inteligência Artificial ali. Mas, no início do século (há apenas 20 anos), nem uma pesquisadora acadêmica altamente qualificada era capaz de prever os avanços tecnológicos que estamos vivendo agora. É o tal do “crescimento exponencial” que nossa mente de passos lineares não é capaz de enxergar.

Na solução de pesquisa de vídeos do Google não há somente um único algoritmo de IA como costumamos imaginar, mas uma combinação deles. Sem uma visão ampla de combinação de tecnologias, uma única mente naturalmente limitada não seria capaz de conectar todos os pontos, e provavelmente essa solução nunca existiria.

Nas áreas de inovação de grandes empresas se fala em ambiente seguro, onde todas as ideias podem circular sem preconceitos. Nesse ambiente, quantidade é melhor que qualidade por uma simples questão matemática: quanto mais ideias diversas, mais chances de combinação para criação de uma solução nova. É assim que estamos avançando exponencialmente com a tecnologia, usando a criatividade humana para criar soluções novas. Mas e se o próprio computador soubesse escolher os melhores algoritmos? E se ele pudesse combiná-los, auto-aprender e criar soluções sozinho? Parece utopia ou ficção científica de novo?

Pois já existem ferramentas que fazem isso, e elas serão uma das bases para chegar no que chamamos de Singularidade Tecnológica. Tendemos a pensar que esse é um momento mágico no tempo onde as máquinas terão a capacidade de pensar como humanos, ou quando um algoritmo criará uma Super Inteligência. Mas esse é um processo silencioso e imperceptível — como a solução de busca em vídeos do Google — que tem como maior desafio a capacidade de entender conceitos abstratos como nós humanos. Porém, esse é um problema que já começa a ser resolvido pelo que chamamos de Aprendizado de Máquina Automatizado, o primeiro passo para fazer a máquina aprender a aprender.

Hoje, ele é usado para auxiliar o trabalho dos Cientistas de Dados na identificação e escolha dos melhores algoritmos, e depende da criação dos denominados hiperparâmetros — uma tentativa de modelar conceitos abstratos. Mas talvez nem o programador que está construindo o código perceba todo esse potencial. Logo, alertas sobre a necessidade de regulamentação da IA, como os de Elon Musk, fazem todo sentido.

Quando você digitaliza uma informação, os limites de processamento com ela são quase infinitos, e o universo está repleto de informações que agora estão sendo digitalizadas e salvas na nuvem, desde o nosso DNA até o Bóson de Higgs — desculpe se isso parece ficção de novo. Como consequência, outras singularidades sutis surgirão no caminho para resolver problemas que a humanidade nunca pensou que pudesse resolver antes —  utopia?.  Mas para isso acontecer, vamos precisar saber atravessar esse momento de transição, revendo premissas do passado, como as das escolas de economia da era industrial.

Nunca se imaginou ter tantas informações disponíveis, a economia que conhecemos foi baseada em incertezas, que serão substituídas por respostas das máquinas em tempo real, seja sobre o governo, o produto, o produtor ou o consumidor.

Portanto, se eu tentasse responder, em uma única sentença, à pergunta-título do artigo: até onde a Inteligência Artificial pode realmente nos levar? A resposta seria: até onde a gente quiser!

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