Review Kena: Bridge of Spirits | Jogo lindo, mas longe de ser perfeito

Review Kena: Bridge of Spirits | Jogo lindo, mas longe de ser perfeito

Por Felipe Goldenboy | Editado por Bruna Penilhas | 24 de Setembro de 2021 às 16h32
Divulgação/Ember Lab

É impressionante que Kena: Bridge of Spirits seja o primeiro jogo do seu estúdio, chamado Ember Lab. A empresa, especialista em animações, ganhou os primeiros holofotes com um curta inspirado no jogo The Legend of Zelda: Majora’s Mask em 2016 (assista abaixo); no ano passado, ganhou ainda mais destaque com Kena, um jogo com cara de filme da Disney Pixar; e, agora, conquista o merecido espaço no mercado de desenvolvimento de games logo na estreia.

Em poucas palavras, Kena é um jogo ótimo: tem uma história simples, trilha sonora de arrepiar, gameplay divertido e animações fofíssimas. Porém, quando começam as batalhas contra chefões, o fofíssimo se transforma em um tenebroso desafio, em que o jogador pode passar horas tentando derrotar um inimigo apenas. Isso sem citar a falta de polimento e os vários deslizes (literalmente) em suas mecânicas de plataforma — o que poderá ser consertado pelo estúdio, se for da vontade deles.

Kena: Bridge of Spirits foi lançado em 21 de setembro para PlayStation 4, PlayStation 5 e PC (via Epic Games Store). Confira o que achamos do jogo a seguir.

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Antes de destrincharmos o jogo, aqui vai um registro feito através do Modo Foto do game. Sim, os personagens posam para a câmera (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

É hora de dar tchau

Em Kena: Bridge of Spirits, você controla… Kena, veja só. Ela é uma guia espiritual cujo trabalho é ajudar espíritos a encontrarem seus caminhos pós-vida, ajudando-os a se livrarem de traumas e culpas do passado. Para isso, a personagem conta apenas com um cajado e a habilidade de “pulsar” uma energia azul, a qual também serve de escudo.

Tudo começa quando ela chega em uma vila misteriosa, com o objetivo de achar o santuário sagrado no topo de uma montanha. O porquê não sabemos, e o jogo sequer explica — até temos breves flashbacks mais adiante, mas eles não dizem muito. Passamos mais tempo descobrindo as histórias dos moradores dessa vila e ajudando-os a libertarem espíritos do que descobrindo a própria narrativa da protagonista.

Os irmãozinhos que precisamos ajudar logo no começo da história (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Como um bom filme da Pixar, o jogo usa elementos palatáveis a todos os públicos para contar uma história densa e complexa se analisada friamente, abordando morte, luto e as coisas terríveis que o ser humano consegue fazer quando é cegado pela raiva. Junte isso à trilha sonora épica, produzida pelo artista Jason “Theophany” Gallaty em parceria com o artista Dewa Putu Berata, do grupo Gamelan Cudamani, de Bali, uma ilha da Indonésia. Ouça um pouco no vídeo abaixo:

Com certeza, eu não criaria empatia por Kena se não fosse um detalhe: a direção de arte do jogo. Como esperado pelos trailers, Kena: Bridge of Spirits traz cenários amplos e esverdeados, personagens caricatos e expressivos, além de animações cinematográficas. Porém, as cutscenes parecem sofrer com constantes quedas de frame rate — o que não faz muito sentido, visto que são vídeos pré-renderizados. Eu também estranhei as trocas entre o gameplay a 60 quadros por segundo no PS5 e a cutscene com FPS reduzido, mas talvez seja apenas um incômodo pessoal.

Gameplay simples, mas divertido

Kena: Bridge of Spirits é um jogo linear em terceira pessoa com mundo aberto. O mapa se divide, basicamente, em quatro partes: o centro da vila (onde você passa pouquíssimo tempo), o lado esquerdo, o lado direito e o caminho para a montanha. Kena precisa libertar a alma de alguém em cada região desse mundo, e para isso, é necessário coletar três relíquias de alma, resolvendo quebra-cabeças ou derrotando chefões, os quais merecem um capítulo à parte neste review, mais abaixo.

Os cenários são cheios de contraste entre a natureza e a corrupção que toma conta da vila (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

O gameplay é simples, mas divertido. Kena começa apenas com um cajado e com um pulso espiritual que também serve como defesa. Gradualmente, ela aprende novas habilidades espirituais, como um arco e flecha, uma bomba e um dash (traduzido como Corrida em português do Brasil). O jogador também pode desbloquear novos golpes e melhorar os já existentes através de pontos de karma, coletados naturalmente a partir da exploração e do combate.

O combate é razoável: um ataque leve, um ataque pesado, um bloqueio, uma esquiva e o parry (apertar o botão de bloqueio no momento certo para conseguir emendar um contra-ataque, o que é extremamente difícil). A maioria dos inimigos não exige grandes estratégias para serem combatidos, mas alguns têm pontos fracos, sendo necessário combinar determinadas habilidades para derrotá-los o mais rápido possível.

Design dos inimigos é muito bonito e criativo (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Muitas falhas técnicas preocupantes

A exploração, porém, peca pela falta de polimento — e o jogo foi adiado por conta desse mesmo motivo, veja bem. Enquanto explorava o mundo de Kena, encontrei vários lugares que parecem ser escaláveis, mas que, na verdade, não são. Algumas superfícies parecem ser planas, mas Kena começa a deslizar assim que pisa nelas. Às vezes, enquanto estava pendurado em alguma rocha, simplesmente não conseguia pular para um lado específico. Até mesmo quando eu estava me movimentando normalmente pelo cenário, era comum que a caminhada de Kena “travasse” e começasse de novo sem qualquer razão.

Em três momentos, fui obrigado a reiniciar o jogo para conseguir continuar. O primeiro foi um desses deslizes, o qual aproveitei até para recriar um videoclipe do MC Créu e de outros sucessos:

O segundo foi quando, de repente, o jogo ficou em primeira pessoa: não importa o quanto eu me matasse, eu ainda dava respawn com a câmera em primeira pessoa. Já o terceiro foi quando eu, utilizando pulos duplos, cortei caminho para chegar a um lugar do mapa: o jogo simplesmente não carregou a maioria dos assets, criando paredes invisíveis e uma paisagem no horizonte que parece ter saído diretamente de um PlayStation 1 mal renderizado.

Algo de errado não está certo (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Porém, isso não chega perto de um relato do criador de conteúdo Gaybol, do canal Pipocando Games. Ele compartilhou no seu Twitter que derrotou um chefão no mesmo instante em que ele foi morto, o que não “liberou” a progressão do jogo. A solução que ele encontrou foi jogar tudo de novo, do início.

Embora não seja uma falha técnica, eu senti que Kena: Bridge of Spirits também aproveitou mal os recursos que o DualSense do PS5 pode oferecer. O feedback tátil do controle é inexistente, exceto quando a protagonista está perto de um rot escondido, quando você sente leves pulsações. Dá para sentir apenas a resistência dos gatilhos, que mais causam desconforto do que qualquer outro sentimento.

Já sobre o uso do SSD, as telas de carregamento ainda se fazem presentes quando o jogo é iniciado e quando Kena é derrotada, mas duram menos de dois segundos.

Os Rot, a coisa mais fofa desse mundo

Talvez o que mais tenha chamado atenção nos trailers de Kena foram os Rot, as pequenas bolotinhas pretas que encontramos gradualmente pela jornada. Além de serem extremamente carismáticos (por favor, empresas, façam bonecos e pelúcias deles!), eles são úteis no gameplay, como ajudar no combate e carregar objetos pesados — sim, também são um bom alívio cômico. Estas criaturas são muito fofas e se comunicam com Kena e o cenário a todo momento, seja nadando, brincando com objetos ou admirando a paisagem. Você também pode personalizá-los com chapéus cosméticos e interagir com carinho, dancinhas, beijinhos e até espirros.

Não dá vontade de apertar? (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Os Rot também são essenciais para combater a corrupção que toma conta das florestas: uma força maligna causada pelos espíritos que ainda relutam em ir dessa para uma melhor. Com a ajuda de uma flor mágica, eles podem ganhar a forma de uma massa amorfa, quase semelhante a um dragão, para quebrar barreiras e liberar a passagem de Kena.

Sai da frente que o bichão tá passando! (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Mas os Rot não ajudam toda hora. Eles ficam assustados quando uma batalha começa, e você precisa acertar golpes para coletar pontos de coragem suficientes para uma ação de Rot. Quando isso acontece, você consegue fazer ataques mais fortes, distrair o inimigo ou consumir uma flor que aumenta a vida de Kena. Essas flores são escassas (geralmente são duas e não restauram a vida completamente) e não reutilizáveis durante as batalhas. E isso piora o maior problema de Kena: Bridge of Spirits para mim.

Do nada um Dark Souls?

OK, talvez eu esteja exagerando com uma comparação com Dark Souls. Porém, enquanto o jogo tem uma dificuldade mediana durante a maior parte do tempo, o título se torna extremamente difícil quando começam as batalhas contra os chefões. Demorei pelo menos uma hora e meia para derrotar vários deles, e terminava a jogatina com as mãos trêmulas e suadas. Eu mal conseguia prestar atenção nas cutscenes que viam depois porque eu, literalmente, estava me tremendo por inteiro.

Começo a me tremer todo só de lembrar (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

A sensação posterior não era a de dever comprido ou de aprendizado, mas sim a de frustração. O jogo não prepara o jogador para uma batalha tão difícil, que exige reflexos rápidos, aperto de botões nos momentos certos e muita, mas muita paciência.

Apenas um golpe consegue acabar com muita vida do jogador, e os chefes costumam proferir vários ataques seguidos. Também é comum a sensação de que você desviou no tempo certo, mas o inimigo ainda conseguiu atacá-lo de alguma forma por questão de milissegundos. O jogador vai de “mó paz” a “respirando por aparelhos” em apenas um combo, e as flores que restauram a saúde de Kena enchem pouco a barra de vida.

Chefões quebram o ritmo do jogo e têm dificuldade completamente desproporcional (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

E se você já sofreu com o primeiro chefão, prepare-se: mais próximo ao fim do jogo, as três relíquias de alma são protegidas por três chefões diferentes. Como cada boss é único e com habilidades diferentes, você morrerá muito para conseguir passar por eles. Isso sem citar o último boss, dividido em três grandes batalhas: se você morrer na última parte, volta para o começo. E lá se vão algumas horas de tremedeira e suor.

Kena: Bridge of Spirits vale a pena?

A resposta é sim. Kena: Bridge of Spirits é um jogo bonito, fofo, com uma duração média de 15 horas de gameplay (muitas dessas horas se devem aos chefões extremamente difíceis devido aos chefões com dificuldade desproporcional). Se você gosta de estilo de arte cartunesco e animado, combates frenéticos e uma história intimista e transcendental, aposte nesse game.

Kena: Bridge of Spirits é uma das melhores surpresas de 2021 (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Acho que o jogo vale o investimento, apesar das falhas técnicas e defeitos em geral. Torcemos apenas que esses bugs sejam consertados pelo estúdio o mais rápido possível — mas é sempre bom lembrar que este é um jogo independente, feito por uma pequena equipe e, portanto, algumas falhas são normais. Além disso, torcemos também para que o próximo jogo da Ember Lab seja tão bom quanto este. Afinal de contas, Kena: Bridge of Spirits é o primeiro game da empresa, e precisamos tirar o chapéu para seus desenvolvedores.

A Ember Lab cedeu gentilmente ao Canaltech uma cópia do jogo de PlayStation 5 para análise.

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