Review Gran Turismo 7 | Uma carinhosa homenagem à cultura dos carros

Review Gran Turismo 7 | Uma carinhosa homenagem à cultura dos carros

Por Felipe Demartini | Editado por Bruna Penilhas | 02 de Março de 2022 às 08h05
Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech

É impossível não se impressionar vendo as imagens de Gran Turismo 7. O título, que marca a transição de uma das franquias mais clássicas da Sony para uma nova geração, chega como o maior e mais bonito de sua saga, como o PlayStation 5 permite e demanda. É o game mais intimista e pessoal de seu criador, Kazunori Yamauchi, com nuances e elementos que estão abaixo da superfície de belos gráficos e simulação apuradas que já são as tradições da série.

Começa pela introdução, que primeiro nos coloca em um carro clássico ao som de uma versão eletrônica de orquestra clássica, e segue com uma abertura com um piano que prevalece, enquanto vemos imagens da história do automobilismo e da indústria automotiva. Nome após nome, vemos os responsáveis por essa obra, incluindo o todo-poderoso piloto Lewis Hamilton que, aqui, é carinhosamente chamado de “Maestro”.

Rapidamente percebemos, como já era de se esperar, que Gran Turismo 7 tenta ser mais do que um simulador ou um jogo de corrida cheio de opções. Ainda que caia em alguns costumes clássicos que vêm desde seus primórdios, o que temos aqui é uma carta de amor à cultura automobilística e um game para ser degustado por longo tempo, tanto por conta da quantidade de vias possíveis quanto pela progressão que faz questão de ser lenta.

Isso vale tanto para o bem quanto para o mal. Afinal de contas, o título da Polyphony Digital tem opções que vão além da mera roda no asfalto, apresentando museus de fabricantes, vídeos históricos e até conexões com o YouTube, trazendo conteúdo sobre montadoras e marcas diretamente das fontes oficiais. Modos, lojas e corridas têm uma história para contar e, mais do que apenas competir, o jogador também deve estar aqui para conhecer esse universo.

Grãos moídos e história para contar

O Gran Turismo Café funciona como um pequeno modo campanha para Gran Turismo 7, guiando a experiência enquanto desbloqueia pistas, veículos e histórias (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

O Gran Turismo Café, uma das principais novidades do novo game, é o ponto de convergência entre todos esses elementos contemplativos e o que há de mais próximo de uma campanha no novo game. A partir de diferentes menus, os jogadores vão disputar em provas nos circuitos ao redor do mundo, que vão sendo liberados um a um, assim como carros de diferentes disciplinas.

Enquanto a garagem vai sendo preenchida, o jogador também tem contato com o tom mais enciclopédico de Gran Turismo 7, entendendo a história de cada categoria automotiva que acaba de liberar. São trechos rápidos de leitura intercalados por belas imagens que, novamente, colocam o foco do game em mais do que apenas correr por aí, bem como apresenta suas dinâmicas uma a uma.

É também o primeiro passo para o colecionismo, outra coluna fundamental da experiência com a franquia. O sétimo game possui uma graduação de nível, que premia o jogador quanto mais carros ele tem na garagem, mas também faz questão de que as escolhas sejam conscientes; os créditos não vêm muito fácil e a compra de um veículo não deve ser encarada de forma leviana, com foco nas marcas preferidas e necessidades competitivas que permitem mais e mais avanço pelo jogo.

A burocracia e a quantidade de menus incomodam em Gran Turismo 7, com até alterações simples, como mudar a cor do carro, exigindo uma inexplicável navegação por múltiplas telas (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

É por meio do Gran Turismo Café que liberamos todos os aspectos do hub do game, desde a experiência multiplayer até oficinas de reparos, tuning, lojas e museus. Na medida em que os recursos vão sendo liberados, os elementos tradicionais da franquia também vão aparecendo, enquanto a progressão gradual serve como uma de tantas portas de entrada para os novatos na série, que podem estar tendo, aqui, sua primeira experiência com um simulador tão técnico.

Entre a necessidade de cumprir tarefas protocolares para obter uma licença para dirigir tipos específicos de carros ou um pedido simples de compra de peças para que um carro atinja certa graduação de potência, o novo modo de Gran Turismo 7 é uma demonstração de um elemento tradicional da marca: sua burocracia. Tirando os carros na pista, nada aqui é rápido e o game não tem pressa nenhuma para avançar, ainda que isso possa acabar levando a uma desmotivação do próprio usuário.

Ao mesmo tempo em que serve como um protótipo de modo história para o game, o Gran Turismo Café também é uma clara demonstração de que este é apenas o começo. Como um cafézinho que abre o apetite antes do almoço, completar suas tarefas serve mais para que o usuário se acostume com os sistemas e com a pegada do game, bem como com a ideia de que esta é uma safra que precisa ser degustada com calma, mesmo que essa não seja a vontade dos mais fanáticos por velocidade.

Potência não é nada sem controle

Progressão lenta requer que o jogador corra com veículos mais simples e básicos, galgando seu caminho e liberando os recursos de Gran Turismo 7 até chegar às corridas mais competitivas e carros mais velozes (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Entre largadas e chegadas, há muita navegação por menus, algo que, no PS5, deve incomodar menos do que na geração passada devido à velocidade de carregamento do console de nova geração. Até mesmo processos simples, como pintar um carro, se tornam burocráticos quando o jogador precisa criar estilos, escolher o tom — cores especiais são dispostas em uma gigantesca tabela para compra, em uma decisão de design quase inexplicável — é necessário salvar o design para, então, aplicar ao veículo. A “criação” é específica de cada máquina e, caso você queira duas máquinas pretas, por exemplo, terá de fazer tudo de novo.

A experiência do usuário apresenta contrastes que mostram que, ao mesmo tempo em que a franquia avançou demais, ainda tem um longo caminho a seguir em outros aspectos. Novamente focando nos novatos, opções como assistências e dificuldades são claramente exibidas na tela e têm configuração fácil pelos menus, enquanto o mesmo nem sempre vale para o sistema de tuning, outra das melhorias apontadas por Yamauchi para tornar mais palatável um dos aspectos fundamentais de Gran Turismo 7.

Museus de fabricantes, oficinas mecânicas e modos de visualização acompanham a experiência de velocidade de Gran Turismo 7, que mais do que um simulador de corrida, deseja ser uma carta de amor à cultura automotiva (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Mexer nos carros é, sim, fácil, com os grandes menus com cara de tabela de Excel sendo traduzidos em um indicador numérico de potência, que mostra como cada mudança se aplica à performance. Por outro lado, o game falha ao mostrar, por exemplo, que colocar um pneu de corrida macio e suspensões de competição em um carro de passeio pode até gerar uma máquina rápida, mas também desembestada e difícil de controlar, sem que um jogador sem experiência em mecânica saiba exatamente o que pode fazer para tornar tudo mais suave.

Ao mesmo tempo, Gran Turismo 7 é um game que faz questão de mostrar que o sucesso só vem a partir de começos modestos. Apesar de carros velozes e músicas contagiantes estarem disponíveis desde o início em modos como o Music Rally, uma das mais divertidas adições deste novo título, não pense que será possível sair pilotando a 300 quilômetros por hora e competindo em grandes combates automotivos desde o início. Pelo contrário, como já é tradição na série, você vai precisar galgar e aprender muito para chegar até lá.

Modo Music Rally de Gran Turismo 7 lembra clássicos como OutRun, com o jogador tendo de coletar checkpoints e dirigir direito para chegar até o final da música (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

A comparação com outros jogos de corrida recentes, como a série Forza Horizon, por exemplo, pode parecer apetitosa, mas é também descabida. Afinal de contas, estamos falando de um simulador altamente apurado, no caso da obra da Yamauchi, contra um game cujo foco está na casualidade. Como elemento de unificação, claro, temos a diversão e a experiência de pilotar máquinas clássicas, modernas e velozes, mas as similaridades param por aí.

Até chegar aos poderosos GTs ou aos monopostos, a ideia é que o usuário conheça toda a rota até ali e compita no que seriam as categorias de base. É a forma de aprender as dinâmicas e entender a simulação, mas também valorizar a história e as inovações tecnológicas que nos levaram até o máximo da performance. Mais do que entender o caminho até ali, a ideia é valorizar isso, em uma homenagem aos feitos humanos que transparece em cada elemento.

Na ponta dos dedos

Gran Turismo 7 faz bom uso do controle DualSense, transferindo sensações da pista e o peso dos carros, essenciais em um simulador, para o joystick (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Simuladores de velocidade, principalmente aqueles tão precisos e minuciosos como Gran Turismo 7, só têm sua experiência completa quando jogados com um volante de qualidade, com Force Feedback devidamente ajustado. Levando isso em conta, chega a ser impressionante o trabalho da Polyphony Digital com o DualSense, o controle do PlayStation 5, entregando as sensações e nuances da pilotagem na medida em que é possível fazer isso em um joystick.

Carros mais pesados terão esse elemento transferido para os gatilhos, enquanto as alterações entre asfalto, grama, brita, zebras e demais elementos são transferidas para as mãos dos jogadores. As sensações servem como auxílio na pilotagem e aumentam a sensação de imersão, ainda que o suporte ao DualSense peque um pouco na reprodução de colisões com o cenário e outros veículos.

A simulação precisa e a reprodução acurada de veículos e detalhes das pistas seguem como uma característica indiscutível de Gran Turismo 7 (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Visualmente e interativamente falando, Gran Turismo 7 segue a tradição de primor técnico que é uma característica da série desde o início. Nos replays, outro grande foco do novo game e com incrementos musicais que tentam tornar assistir tão interessante quanto jogar, é possível perceber as pequenas variações que cada um dos elementos das corridas exercem sobre os veículos.

Nas câmeras aproximadas, dá para notar até a distorção dos pneus durante as curvas, enquanto o balanço da suspensão e da lataria servem como elemento para auxiliar nas tarefas de tuning e calibração dos carros para melhor performance. Isso sem falar, novamente, no elemento mais vistoso de todos, os gráficos, que reproduzem de forma belíssima as latarias e sua interação com os diferentes elementos climáticos.

Falar de visuais em um título da série Gran Turismo é quase chover no molhado, mas também algo impossível de se deixar de lado. Nesse sentido, o novo game investe em opções para quem desejar tunar o nível de detalhes ao máximo, com um modo de performance que foca na estabilidade da jogabilidade e outro voltado para o máximo do potencial gráfico — ainda que aspectos impactantes, como o ray tracing, somente apareçam nos replays e modos fotográficos.

Efeitos visuais avançados, como Ray Tracing, aparecem apenas nos replays e modos fotográficos de Gran Turismo 7 (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

É possível, sim, perceber serrilhados em elementos que não estão em primeiro plano, como placas nas pistas ou detalhes internos de carros que já deram as caras em games anteriores. Mas, acredite, você vai ficar mais impressionado com a movimentação do sol pelo painel ou das gotas de chuva no para-brisa, bem como na mudança sutil, mas importante, de clima durante uma prova mais longa, alterando todos os aspectos do game, desde seus visuais até a jogabilidade.

Há sempre muito acontecendo por trás das cortinas do game, mas novamente, estamos falando de um título que deve ser apreciado devagar e com um olhar mais tranquilo. Ainda que a velocidade seja o elemento fundamental aqui, ela não é necessariamente o fim da experiência, com o título apresentando muito mais do que apenas correr e chegar em primeiro. É um convite para quem procura mais de um game de velocidade, mesmo que endereçado aos mais adeptos e não, necessariamente, àqueles que procuram diversão rápida.

Vale a pena jogar Gran Turismo 7?

Gran Turismo 7 chega com a ideia de atrair novatos e resgatar veteranos, com alguns sistemas se tornando mais acessíveis e clássicos da franquia de volta em sua melhor forma (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Novidades como o Music Rally são pequenas diante da grandiosidade do mundo que o título nos apresenta. Enquanto a chata obtenção de licenças aparece como, muitas vezes, um empecilho para seguirmos em frente, ela é parte pequena de uma experiência altamente precisa e focada, voltada aos amantes da simulação e dos automóveis, não apenas em categorias específicas, mas das máquinas como um todo.

Como dito, os elementos burocráticos da experiência com Gran Turismo 7, assim como certas arestas a serem polidas nas configurações técnicas dos veículos, podem afastar os novatos, por mais que o game siga um grande caminho para atrair esse público. Quem estiver disposto a aprender, entender e, principalmente, apreciar, vai encontrar muito a fazer aqui, em um game que não foi feito para grandes maratonas de jogatina, mas sim para experimentos, tentativas e contemplação.

Mesmo na versão base do PlayStation 4, a performance não deixa a desejar, ainda que, logicamente, a melhor experiência possível esteja no console de nova geração. Jogadores que estão na era passada de consoles experimentarão mais telas de carregamento e espera, principalmente na navegação entre os múltiplos menus. No cerne da experiência, o título se comporta como esperamos de um Gran Turismo e das mentes cuidadosas da Polyphony Digital.

Versão PlayStation 4 de Gran Turismo 7, vista acima, não faz feio em performance, mas as esperas entre a navegação nos menus e os efeitos reduzidos mostram que essa é uma experiência pensada para a nova geração de consoles (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

É esse, aliás, o elemento interno que mais brilha no game. Durante toda a divulgação do novo game, Yamauchi sempre falou de Gran Turismo 7 como o apogeu da franquia até agora. O que se percebe quando colocamos as mãos no game é que ainda há mais para ser obtido e diferentes melhorias a se realizar, principalmente no que toca o aspecto burocrático dos títulos.

Entretanto, se a ideia dos envolvidos era entregar uma homenagem à cultura do automóvel, Gran Turismo 7 faz isso com primor. O criador da franquia acerta quando fala que a ideia é trazer de volta o foco na cultura e em seus diferentes aspectos, com o título sendo a concretização desta ambição. Cartas de amor, afinal de contas, não foram feitas para serem lidas rapidamente — ainda que a paixão, às vezes, seja arrebatadora demais para conter.

Gran Turismo 7 chega em 4 de março de 2022, em versões PlayStation 4 e PS5. No Canaltech, o game foi testado no PlayStation 5, em cópia digital gentilmente cedida pela Sony.

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