Review Death's Door | Tudo que vive há de morrer

Review Death's Door | Tudo que vive há de morrer

Por Felipe Goldenboy | Editado por Bruna Penilhas | 27 de Julho de 2021 às 19h06
Reprodução/Devolver Digital

Death’s Door está entre os lançamentos indies mais promissores de 2021. Quem não se encantaria com um corvo fofíssimo cujo trabalho é ceifar almas? Ainda mais em um mundo à la Tim Burton?

No começo, achei o novo título da Acid Nerve, publicado pela Devolver Digital, um tanto quanto monótono. Levou quase uma hora de gameplay para que o jogo mostrasse, realmente, a que veio: exigir muita paciência, destreza e raciocínio rápido do jogador, enquanto cria uma trama de suspense nas entrelinhas.

Mais do que isso, o game flerta com os opostos o tempo todo: com o colorido e o escuro, com a alegria e a melancolia, com a vida e a morte. Essa mistura entrega um dos melhores jogos do ano, e o Canaltech explica o porquê neste review.

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Fala sério: este protagonista é fofo demais! (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Coletar almas gigantes para resgatar... uma alma gigante

Death’s Door é uma aventura isométrica (ou seja, vista de cima) que coloca o jogador no controle de um jovem corvo. Nesse mundo, a morte não existe mais. O trabalho de levar as almas para o além ficou a cargo de um seleto grupo de corvos que trabalham na Sede do Comitê dos Ceifadores, um escritório cinzento onde todos estão eternamente ocupados.

Sem tempo, irmão (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

A trama começa quando nosso protagonista é designado a ceifar uma alma gigante e levá-la de volta para o Mundo das Portas. Tudo ocorre normalmente, até que, assim que derrotamos o inimigo, um corvo muito maior (e mais velho) nos ataca e foge com a alma.

Quando finalmente o encontramos, descobrimos que ele usou essa alma gigante para tentar abrir a Porta da Morte (daí o nome do jogo!), a qual precisa de muita energia para ser destrancada. Sem ter concluído o seu objetivo, o jovem corvo se vê obrigado a ajudar o colega mais velho a buscar outras três almas gigantes e, enfim, terminar o trabalho e voltar para casa.

O que será que tem atrás desta porta? (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Esse começo de história é um pouco confuso, de fato. Afinal, por que diabos ele lhe ataca? Não era melhor… pedir um favor? Uma ajuda? Dizer um “bom dia” primeiro?

Tudo fica mais claro ao longo da história. Enquanto viaja pelo mundo, conversa com personagens e descobre lugares escondidos na própria sede do comitê, o jogador encontra pistas de que há alguma história sinistra nos bastidores. Nosso corvinho azarado vai se tornando, gradualmente, um herói predestinado a quebrar todo esse ciclo de vida eterna.

Essa é a mistura do Brasil com o Egito

É um pouco difícil categorizar Death's Door, colocá-lo em uma caixinha. O jogo mescla elementos de jogabilidade de Dark Souls com mecânicas de exploração dos antigos The Legend of Zelda. O estilo de arte também lembra o do cineasta Tim Burton. Tentarei explicar.

Primeiro, a parte Souls. Cada região conta com apenas um checkpoint (uma porta que nos leva de volta para a sede do comitê). Isso significa que, se você explorar toda aquela área por um bom tempo e acabar morrendo, você volta lá para o começo. E todos os inimigos mortos serão revividos nos mesmos lugares.

É desta porta que estamos falando (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Você até consegue arranjar alguns atalhos pelo caminho, mas terá de voltar para o tão, tão distante checkpoint. Isso me deixou, particularmente, muito frustrado. O jogo também não tem mapa, me obrigando a perambular pelos cenários enormes e idênticos durante longos minutos apenas para achar um lugar específico. Esses vaivéns deverão ser uma parte bem complicada da jogatina, a não ser que você tenha uma memória muito, muito boa ou seja um grande fã deste tipo de mecânica.

Outro detalhe são os vasos de planta espalhados pelo mapa. Quando plantamos uma semente, ela vira um item consumível que restaura toda nossa vida. Ou seja, cuidado para não se curar e ser atacado de bobeira logo depois, porque você vai demorar para encontrar outro vaso de novo.

Use as sementes da alma com sabedoria (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Ah, vale ressaltar: embora lembre Dark Souls, Death’s Door não é um jogo Souls-like; e sim, um jogo de aventura e exploração bem desafiador. Nada a ponto de fazer você surtar.

O título também não é um roguelike, como Hades e Dead Cells. Além de ter checkpoints (embora sejam poucos), as fases não são procedurais — ou seja, não são geradas aleatoriamente a cada nova partida. Você também não perde seu progresso após morrer.

Já na parte de Zelda, os cenários são cheios de quebra-cabeças, passagens secretas e cantos inacessíveis com os equipamentos e habilidades que você dispõe naquele momento da jogatina. Você até enxerga alguns itens, mas não faz ideia de como chegar até eles. Vale a pena ficar sempre atento a cada canto do cenário — até mesmo os reflexos do chão escondem segredos —, e também voltar aos lugares pelos quais você já passou.

Death’s Door também é um jogo lindo. Os mundos são coloridos e, em simultâneo, cheios de melancolia; os personagens têm formas exageradas e bizarras (como uma panela no lugar da cabeça), mas são super carismáticos. O uso da luz e da sombra impressiona, especialmente quando estamos caminhando por uma região ensolarada.

Você encontra pequenos vilarejos como esse ao longo do caminho (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Gameplay simples e upgrade confuso

Na parte de jogabilidade, o jogo cumpre seu papel sem reinventar a roda: é basicamente um hack’n’slash em que você precisa se defender de hordas de inimigos. Você ataca um pouco com sua espada, desvia, ataca de novo, desvia, e por aí vai. Não há como bloquear ataques inimigos.

O significado de "se virar nos 30" (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Também é possível usar ataques de longa distância. Você começa com um arco e flecha simples, e vai desbloqueando alguns poderes mágicos ao derrotar mini-chefões, como flechas de fogo, bombas e uma corrente para chegar a lugares distantes. Há um limite de quatro ataques à distância, que pode ser recarregado ao acertar golpes de espada tradicionais. Um ataque normal recarrega um ataque à distância.

Você pode aumentar sua capacidade de vida e de ataques, mas essa é uma tarefa difícil. É necessário encontrar os templos sagrados que estão escondidos pelo mapa. Eu mesmo terminei o jogo sem conseguir nenhum upgrade, apenas com 4 slots de vida e de ataque — morri várias vezes e soltei palavrões em várias outras. Mas sobrevivi para contar a história.

O jogo faz questão de jogar na sua cara que você morreu (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Aliás, o sistema de progressão de Death’s Door é confuso por si só. Você consegue melhorar algumas características do personagem com facilidade, como força de ataque, velocidade, destreza, entre outros. Mas, na prática, mal dá para notar alguma diferença.

Esta é a tela de melhorias do jogo. Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

O lado bom das coisas ruins

Eu ficava muito tocado após o fim de cada batalha com um chefão. Após um inimigo ser morto, inicia-se um funeral com alguns presentes. Chamou minha atenção que o coveiro sempre fazia um discurso exaltando as qualidades do vilão, mesmo que elas fossem pífias (algo como "apesar de ter sido um carrasco, sua força e persistência jamais serão esquecidas"). Também fazia-se um minuto de silêncio por aquela alma que acabara de partir.

O tempo desta alma chegou ao fim (Foto: Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

É curioso que um vilão tenha características positivas. Nós mesmos, como seres humanos, muitas vezes falhamos em olhar para as pessoas ao redor com o mínimo de empatia, e entender que todos têm lados bons e ruins. E que esses lados não são construídos de um dia para o outro, mas sim com toda uma história, um passado do qual talvez nunca tenhamos acesso.

Os vilões de Death’s Door buscam pela vida eterna. Eles não querem morrer, e nem estão preparados para isso. E o jogo propõe uma discussão muito sincera e filosófica sobre o ciclo da vida: mesmo que o fim seja doloroso para quem fica, este é o fluxo natural das coisas. Tudo que existe há de morrer; se isso não acontecer, haverá um desbalanceamento no equilíbrio natural das coisas.

Essa é uma discussão perigosíssima, ainda mais durante a pandemia de COVID-19, que levou a vida de milhões de pessoas ao redor do globo. No entanto, o jogo aborda o tema de maneira leve, respeitosa, e principalmente, bem humorada. E as mensagens que o game traz se tornam ainda mais necessárias neste mundo cinzento, carente de respeito e de amor.

"A verdadeira grandiosidade pode lhe custar a alma" (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Vale a pena?

Sim. Vale a pena abrir a sua porta para Death’s Door (ahá!). Eu demorei para gostar do jogo, mas, perto do primeiro chefão, fiquei verdadeiramente encantado. Tão absorto que, literalmente, não via a hora passar.

Death's Door deve render boas horas de diversão... e também de sofrimento (Captura de tela: Felipe Goldenboy/Canaltech)

Apesar de alguns deslizes e vaivéns desnecessários, o jogo que deve agradar quem gosta de histórias profundas e desafios — mas sem passar do ponto — ao longo de cerca de 10 horas de gameplay. Como o jogo está totalmente localizado em português do Brasil, você também entenderá algumas piadas e ironias no texto.

Death’s Door faz jus ao hype e se destaca como um dos melhores lançamentos do ano. O game está disponível para Xbox One, Xbox Series X, Xbox Series S e PC. Este review foi feito a partir de uma cópia de PC cedida gratuitamente pela Devolver Digital.

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