Os jogos eram mais difíceis antigamente?

Os jogos eram mais difíceis antigamente?

Por Felipe Goldenboy | Editado por Bruna Penilhas | 23 de Novembro de 2021 às 18h36
Reprodução/Tradewest

Uma das discussões que afloram sempre entre jogadores mais novos e veteranos é a de que os games antigos eram muito mais difíceis. O problema é que essa "treta", muitas vezes, é enviesada graças à memória afetiva de títulos marcantes da nossa infância.

Afinal, os jogos de antigamente, lá dos anos 1980 e 1990, eram realmente mais difíceis que os de hoje? Reclamamos sem necessidade de jogos como Dark Souls, por exemplo? O Canaltech foi atrás de respostas para além da nostalgia. Spoiler: sim, eram mais difíceis. E existem explicações para isso.

Lógica dos fliperamas

Na opinião de Claudio "Prandas" Prandoni, jornalista que cobre videogames desde 2005, a dificuldade dos games antigos era “injusta”. Isso porque as referências dos desenvolvedores da época não eram jogos de console ou computador, mas sim de fliperama — máquinas que bombaram nos anos 1970 e 1980 nas quais, para jogar, era preciso comprar e inserir fichas.

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“Os donos de fliperamas queriam que você gastasse o máximo de dinheiro possível, comprando mais fichas. Por isso, os jogos eram muito difíceis de propósito”, explica Prandoni. Algumas máquinas tinham ajuste de dificuldade e, segundo o jornalista, era comum que os jogos fossem configurados na dificuldade mais alta.

“Quando o console e o computador passaram a ser referências, a compra de fichas não existia mais. Mesmo assim, a referência de design de jogos continuavam sendo os fliperamas."

Fliperama em Kyoto, no Japão (Foto: Ethan Hein/Creative Commons)

Prandoni também lembra que esta era uma época com recursos limitados, em que os desenvolvedores ainda descobriam o que o poder do hardware era capaz. Por isso, existia o pensamento de que um jogo difícil prolongaria a vida útil da aventura em frente aos controles: “quanto mais difícil um jogo, mais tempo para terminá-lo. Quase uma questão de custo-benefício”, diz.

Existe até um termo popular para essa leva de jogos, o “Nintendo Hard”, que se refere à dificuldade extrema dos títulos do Nintendinho (NES). Exemplos de jogos assim são Battletoads, Mega Men e Ninja Gaiden.

PlayStation e o início da mudança

Essa mentalidade mudou nos anos 1990, com a chegada do primeiro PlayStation e de jogos mais focados em narrativa. Na opinião de Prandoni, os responsáveis por isso foram os jogos com gráficos em 3D (três dimensões); ele cita, especificamente, Final Fantasy VII e The Legend of Zelda: Ocarina of Time, como os principais pontos de virada.

Final Fantasy VII, de PS1, trouxe uma história incrível, animações em computador e gráficos em 3D. Anos depois, Ocarina of Time, de Nintendo 64, focou na história e na construção de mundo, tão vivo que absorve o jogador pelas inúmeras maneiras de interagir com ele.”

A segunda etapa com Nintendo DS e Wii

Nos anos 2000, a chegada do Nintendo DS e do Nintendo Wii marcam um segundo ponto da jornada da dificuldade nos games. A Nintendo passou a adotar uma estratégia chamada “Oceano Azul”, que consistia em abraçar a maior quantidade possível de pessoas, principalmente as que não jogavam.

“Acho que a balança pendeu demais para um lado. Ficou a impressão de que os jogos precisavam ser muito fáceis, a ponto de levar o jogador pela mão para que ele não desistisse”, diz Prandas. Ele nota isso principalmente em jogos da Nintendo: games do Super Mario ajudam o jogador caso ele perca muitas vidas, por exemplo.

Com o tempo, os jogos também vão ficando maiores, complexos e densos, como Grand Theft Auto (GTA), Assassin’s Creed e outros. “Jogos acabam ficando mais fáceis para você conseguir, simplesmente, jogar, embarcar naquele mundo complexo”, afirma.

Atualmente, quem puxa o bonde dos jogos difíceis é a FromSoftware, responsável por títulos icônicos como Dark Souls, Demon's Souls e o futuro Elden Ring, que chega em 2022. “Eles não tiveram um estalo e pensaram em fazer um jogo difícil. Todos os games deles são difíceis pelas mecânicas que oferecem”, explica ele. “Eram jogos planejados apenas para o oriente, mas que caíram no gosto do público ocidental e estouraram”.

O retorno de jogos retrô, a popularização de títulos da FromSoftware e amadurecimento da indústria são a oportunidade perfeita para os saudosistas da dificuldade de games reviverem seus dias de luta e de glória. Fácil ou difícil, o importante é manter o jogador satisfeito em frente aos controles.

Com informações: USGamer

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