Minecraft tem uma biblioteca de textos censurados por governos

Minecraft tem uma biblioteca de textos censurados por governos

Por Felipe Goldenboy | Editado por Bruna Penilhas | 20 de Fevereiro de 2022 às 14h00
Divulgação/The Uncensored Library

Um grupo de jornalistas construiu no Minecraft uma biblioteca gigantesca, apenas com livros e artigos censurados por governos de diversos países. O local, chamado The Uncensored Library (A Biblioteca Sem Censura, em português), pode ser acessado por qualquer pessoa — e impressiona pela arquitetura fascinante e gigantesca.

A biblioteca é uma parceria do grupo Repórteres Sem Fronteiras, que defende a liberdade da imprensa pelo mundo, e da agência de publicidade DDB. Assista ao vídeo promocional da biblioteca (em inglês):

"O objetivo era alcançar jogadores com idades entre 15 e 30 anos, especialmente em países com censura online, para envolvê-los com o jornalismo independente", explicou o diretor de arte sênior da DDB da Alemanha, Sandro Heierli em entrevista ao site Dezeen.

A biblioteca é dividida por várias salas; cada uma é dedicada a um país e a um jornalista local que foi censurado, exilado ou morto. São eles:

  • Jamal Khashoggi — Arábia Saudita
  • Javier Valdez — México
  • Mada Masr — Egito
  • Nguyen Van Dai — Vietnã
  • Yulia Berezovskaia — Rússia

O caso mais recente (e chocante) é de Jamal Khashoggi. O jornalista foi assassinado dentro do consulado saudita em 2018, em Istambul, após críticas ao governo local e ao príncipe herdeiro do país, Mohammad bin Salman. Segundo a BBC, o planejamento e a execução do crime foram gravados, e as fitas foram ouvidas por poucas pessoas. O corpo dele nunca foi encontrado.

Protesto pelo assassinato do jornalista Jamal Khashoggi (Foto: Prachatai/Creative Commons)

A escolha foi baseada no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa, produzido pela Repórter Sem Fronteiras (quanto menor o número, menor a liberdade para jornalistas), e nos países que mais jogam Minecraft segundo os dados do Google.

Os textos são exibidos em livros, itens do próprio jogo. Todo o conteúdo é armazenado na nuvem através de blockchain; assim, governantes (e usuários) não conseguem monitorar o conteúdo nem alterá-lo. Entretanto, o acesso não é criptografado — ou seja, um usuário que acessa o mapa pode ter seu apelido, vinculado a uma conta, visível para todos os outros usuários.

Para amenizar isso, a biblioteca pode ser baixada como um mapa offline e até mesmo multiplicada. “O mapa offline é, depois, colocado em um armazenamento em nuvem blockchain descentralizado — sendo impossível de hackear”, afirmou Heierli. Ele continua:

“Uma vez baixado, o mapa pode ser carregado novamente, permitindo que a biblioteca se multiplique. Até agora, existem mais de 200 mil cópias — isso deixa a biblioteca impossível de ser derrubada até mesmo para os próprios Repórteres Sem Fronteiras.”

O design da biblioteca

O projeto impressiona tanto pelo seu propósito quanto pelo seu visual, inspirado na arquitetura romana e grega antiga. O design foi feito em parceria com a BlockWorks, um estúdio especializado em criar lugares no Minecraft: ao todo, 24 pessoas de 16 países ajudaram na criação do prédio; foram usados 12,5 milhões de blocos digitais para construí-lo.

No entanto, não se impressione pela quantidade de livros nas prateleiras: eles são apenas para decoração. Os livros que realmente importam estão no centro de cada uma das salas; são esses que você pode ler.

“The Uncensored Library é um uso ousado do Minecraft, e realmente encapsula tudo o que é ótimo sobre este jogo e a comunidade que ele criou”, diz o diretor-gerente da BlockWorks, James Delaney. Confira os bastidores da criação abaixo (em inglês):

Minecraft é um dos jogos mais acessados do mundo

Mas por que criar uma biblioteca no Minecraft? A resposta é simples: o game é um sucesso estrondoso, com 140 milhões de usuários ativos em 2021, segundo a distribuidora, Microsoft. Apesar de ter muitos jogadores crianças e adolescentes, o game também é famoso entre jovens e adultos — nos Estados Unidos e na Europa, a média de jogadores é de 27 anos, por exemplo. Heierli diz:

“Em países opressivos que restringem cada vez mais os direitos de seus cidadãos, os jovens tendem especialmente a fugir para jogos como Minecraft, que ainda proporcionam liberdade em mundos virtuais”.

O game também é utilizado como recurso educacional em várias escolas e museus do mundo. Aqui no Brasil, por exemplo, o Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo firmou uma parceria com a Microsoft para permitir visitas, construções e até a exibição de obras de arte no jogo. Existe até uma versão própria do game para a área da educação, chamada Minecraft: Education Edition, focada para uso nas escolas.

Para acessar a biblioteca, faça o download do mapa no site oficial. Minecraft está disponível para PC, consoles e celulares.

Fonte: BBCDezeenGizmodo, TechCrunchThe Uncensored Library

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