Além de Cyberpunk 2077: como a Polônia virou exportadora mundial de games?

Além de Cyberpunk 2077: como a Polônia virou exportadora mundial de games?

Por Wagner Wakka | 09 de Dezembro de 2020 às 10h43
Divulgação/CD Projekt Red

Os olhos da maioria dos fãs de videogame certamente estão virados para Cyberpunk 2077, game que chega neste dia 10 de dezembro para atual e próxima geração de consoles, além de PC. O título foi feito pelo estúdio polonês CD Projekt Red, aclamado pelos games da franquia The Witcher.

Entretanto, o país não é uma banda de um hit só. Atualmente, ele conta com 440 estúdios, lançando anualmente 480 jogos e empregando 9710 pessoas no setor, segundo levantamento da Games Industry Conference.

O país viu seus números explodirem nos últimos anos, partindo de um mercado avaliado em 304 milhões de euros em 2016 para além dos 500 milhões de euros em 2020. Só entre 2018 e 2019, o crescimento foi de 32%.

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Esses números podem parecer uma surpresa, mas games importantes dos últimos anos vieram de lá. This War of Mine e Frostpunk (vencedor do prêmio de Melhor Jogo do Brazil’s Independent Games Festival de 2019) são da 11 Bit Studios. Call of Juarez, Dead Island e Diying Light são da Techland, também um estúdio polonês. GhostRunner, da All In! Games, é um dos destaques de novembro.

Até mesmo Fortnite, o game de maior sucesso recente, passou por mãos polonesas em seu desenvolvimento. A People Can Fly é um estúdio que ofereceu suporte para grandes títulos como Outriders, Gears of War e, principalmente, Fortnite.

Com uma histórica conturbada em conflitos, no coração da Europa, é curioso que um país modesto, com 38 milhões de habitantes, seja tão proeminente na indústria dos games. Entretanto, fatores comerciais e do passado ajudam a entender o caminho que guiou a Polônia a se tornar um centro de exportação de games.

Passado de guerras e “pirataria”

Durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, a Polônia foi palco dos principais conflitos da Europa. Não à toa, o termo “corredor polonês” se refere à zona de combate.

No meio da Guerra Fria, o país se posicionava quase na fronteira entre o eixo ocidental e oriental. Contudo, em 1952 ele se tornou basicamente uma ditadura nos moldes comunistas da época. Isso implicava um bloqueio ao ocidente, seja de mercadorias, pessoas e, principalmente, de contato cultural.

É neste cenário completamente introjetado que nasce a demanda por games na Polônia. Na verdade, a vontade de jogar vem depois de outra necessidade: a de acesso a computadores.

“Varsóvia [capital do país] é muito próxima da Alemanha. Isso ajudou com que pessoas pudessem trazer para cá primeiro os computadores; depois, os games. O nosso mercado nasceu completamente dentro de uma lógica de mercado cinza, com essas pessoas trazendo isso de fora”, conta Pawel Miechowski, líder de relações públicas da 11 Bit Studios em entrevista exclusiva ao Canaltech.

Miechowski é atualmente conselheiro da Indie Games Poland Foundation, voltada para ajudar estúdios locais a ganhar projeção fora do país. Contudo, ele começou na companhia há 10 anos, trabalhando como escritor para This War of Mine.

Voltando ao passado da Polônia, a demanda de jogos nasce, portanto, de pessoas importando ilegalmente PCs e games, revendendo-os no mercado cinza. Miechowski é enfático em dizer que evita usar o termo pirataria, tendo em vista que a importação do produto era proibida, mas a venda não.

As fontes que conversaram com o Canaltech sobre o passado de desenvolvimento de games no país são unânimes em apontar o jogo inicial da indústria por lá: Puszka Pandory.

O jogo foi exportado com o nome de Pandora’s Box, ou, em tradução para o português, Caixa de Pandora. Trata-se de um título lançado em 1986 por Marcin Borkowski, entusiasta de PCs no país que resolveu fazer seu próprio adventure de texto. Como um exemplar de sua época, trazia apenas frases na tela, com as quais o jogador poderia interagir usando texto.

Este cenário inicial do mercado de games na Polônia é semente de uma das características mais salientes da indústria do país: a predileção pelos jogos de PC. Dos quase 500 games lançados anualmente pelo mercado local, ao menos 25% são voltados para PCs.

Mercado polonês é focado em jogos para PC (Foto: The Game Industry of Poland)

Na fundação do passado gamer do polonês está uma raiz de importação e revenda de títulos para computadores, com pouca expressividade do mercado de consoles. E isso será ainda mais estimulado na era pós-comunista.

Abertura cultural e o surgimento da CD Projekt

Em 1990, a Polônia entrou para a lista de países que saíram de uma economia planificada para um sistema de mercado. Em outras palavras, passa para o time capitalista. Com isso, também veio a abertura cultural, acesso a aparelhos e jogos, além de, claro, a importação de games, que deixou de ser ilegal. É nesse cenário que nasce a CD Projekt — sem o "Red" no final do nome.

Escritório da CD Projekt em Varsóvia (Foto: Sergey Galyonkin/Creative Commons)

Fundada por Marcin Iwiński e Michał Kiciński, a empresa tinha foco em distribuição de software para computadores na Polônia, incluindo programas como Windows e outras ferramentas de trabalho.

“Esses programas eram importados, primeiramente, e distribuídos por aqui assim que eram lançados nos Estados Unidos. Entretanto, com o passar do tempo, a companhia decidiu começar a oferecer um pouco mais. Os programas passaram a vir com manuais localizados, depois vieram completamente localizados e, por fim, com alguns bônus”, explica a empresa no relatório The Game Industry of Poland.

Dentro do desenvolvimento de games, a CD Projekt nasce primeiro com a função ambígua de distribuição, além de oferecer ferramentas para a indústria.

“Antes disso, a gente até tinha acesso aos jogos que vinham de fora, principalmente para PC. Mas eles chegavam aqui em inglês, japonês ou na versão europeia que fosse. Só depois da distribuição oficial por aqui que isso melhorou. Claro, mais importante até, começaram a chegar as ferramentas, os programas mesmo, em polonês para as pessoas aprenderem a fazer games”, lembra Miechowski.

Antes mesmo da CD Projekt entrar no mercado de desenvolvimento de jogos, outros gigantes tomaram a dianteira da indústria, ainda proeminente, polonesa. O primeiro game de destaque do país surgiu em 2003: Chrome, da Techland. O jogo de tiro em primeira pessoa para computadores surfava na onda dos games do gênero da época. Embora tenha recebido análises medianas em seu lançamento, foi um ponto importante para o país por duas questões.

A primeira foi adicionar a Polônia no mapa de desenvolvimento de jogos pela primeira vez. Trata-se do primeiro game polonês que, oficialmente, teve lançamento internacional.

Além disso, Chrome foi a base para o desenvolvimento de uma motor gráfico bastante usado por desenvolvedores locais, a Chrome Engine. “Qualquer pessoa com acesso a computadores que cresceu naquela época fuçou nos motores gráficos e plataformas de desenvolvimento e mod para PC. Era um negócio da época, por assim dizer”, aponta Miechowski, da 11 Bit Studios.

Chrome também foi a base para que desenvolvedores vissem nos jogos de tiro em primeira pessoa (FPS) uma oportunidade de mercado. Foi assim assim que a People Can Fly lançou Painkiller em 2004, um FPS no qual um homem morto precisa mata Lúcifer para conseguir sua entrada no paraíso.

Painkiller foi o primeiro polonês bem-sucedido mundialmente, com boa recepção em análises e vendas. Isso motivou a Techland a continuar no mercado com Call of Juarez, game inspirado em filmes de faroeste da década de 1980 lançado em 2006 junto à Ubisoft.

Foi somente com o avanço de games locais como os da Techland e People Can Fly que a CD Projekt resolve ampliar seus negócios para além da distribuição e começou a desenvolver seus próprios títulos. Assim nasceu a CD Projekt Red em 2002, estúdio focado em produzir seus próprios games e se inserir nesse segmento da indústria. Para isso, a companhia apostou em licenciar a série de livros The Witcher, superconhecida no país, para adaptá-la para os games. O primeiro jogo da companhia só foi lançado cinco anos depois, em 2007.

The Witcher, tanto o livro quanto o game, é um divisor de águas para a história da Polônia e uma das primeiras obras a levar para o mundo a cultura local. Veja bem, Chrome, Painkiller e Call of Juarez levantaram a bandeira do país para além das dependências regionais, mas The Witcher é sobre a história da nação que fora destruída duas vezes por grandes guerras e que até hoje carrega cicatrizes das batalhas e disputas internas.

Depois disso, o mercado local de desenvolvimento de games se aproveitou do boom dos indies do final dos anos 2000 e isso permitiu que hoje o país tenha seus 440 estúdios de desenvolvimento ou suporte para jogos, número apresentado pelo relatório The Game Industry of Poland, lançado em agosto de 2020.

Desses estúdios, 20 têm mais de 200 funcionários e 44 têm mais de 40 pessoas em seu time. Do total, 39% têm cinco ou menos empregados.

Mas por que a Polônia? 

Com seus 38 milhões de habitantes, a Polônia pode ser considerada um país nanico, nas proporções a que nós, brasileiros, estamos acostumados. A nação tem o 21º maior PIB do mundo, o que não põe a região em grande destaque econômico local. O que traz o questionamento: o que a Polônia tem de tão especial que torna o país tão atraente para o mercado de desenvolvimento de jogos?

A resposta está na entrada do país na União Europeia.

Avanço do mercado de games da Polônia (Arte e dados: The Game Industry of Poland)

Em 2004, quando entrou para o bloco econômico e político, o país passou pela desburocratização dos negócios internacionais e, principalmente, ganhou mais competitividade monetária. A Polônia é candidata para entrar na zona do Euro, mas ainda atua com moeda própria, o Złoty, equiparado ao Real.

“A moeda fraca [o Złoty] da região facilita investimentos e até a adoção de mão-de-obra. Pensa assim: as empresas são todas globalizadas e pagam em euros para um funcionário que vai gastar localmente. Ou seja, é um atrativo para mudança”, explica Carl Granberg, fundador da Pixel Delusion, que lançou este ano Kosmokrats.

Carl Granberg, fundador da Pixel Delusion (Foto: Arquivo pessoal)

Granberg é finlandês, veterano da indústria e trabalhou para a Remedy em Alan Wake, na Starbreeze em Brothers - A Tale of Two Sons e até na CD Projekt Red. Em 2016, resolveu se basear na Polônia para montar a sua própria empresa.

As facilidades de investimento na região foram o principal atrativo para ele. “Realmente, é um espaço que traz oportunidades de receber em euro para um país que oferece um conforto e estabilidade grandes”, explica em entrevista exclusiva ao Canaltech.

Miechowski, da 11 Bit Studios, fala em algo parecido. Segundo ele, um desenvolvedor médio no país receberia o equivalente a entre R$ 10 mil e R$ 15 mil em euros. “Isso é suficiente para pagar o aluguel em um bom apartamento no centro de Varsóvia, por exemplo, com bastante conforto e poupando para o futuro”, adiciona o executivo.

Imigração e Brasil na Polônia

A indústria de desenvolvimento de jogos da Polônia é um espaço de imigrantes. Miechowski conta que o boom do país fez que houvesse uma defasagem de mão-de-obra especializada na região. Com isso, a indústria tomou duas direções.

A primeira foi garantir a formação local, com universidades oferecendo mais de 60 cursos voltados para diferentes áreas do desenvolvimento de games, entre arte, design e programação. Tudo para tentar fomentar a contratação local nos próximos anos.

Até lá, as empresas optam por buscar trabalhadores de fora. Segundo o relatório State of Polish Video Game Industry, de 2017, mais da metade das empresas tinham funcionários estrangeiros e pretendiam contratar mais.

“A Polônia é um país no qual você pode ter uma boa vida trabalhando com jogos, além de contar com uma vasta opção de estúdios. O caminho para a minha migração para cá também foi bem tranquilo e rápido”, lembra Lucas Stannis, produtor de Last Oasis, game lançado em março de 2020 pela polonesa Donkey Crew.

Lucas Stannis no Natal de 2019 na Donkey Crew (Foto: Arquivo Pessoal)

Stannis recebeu convite para se mudar para a Polônia depois de visitar o país em um evento de games em 2018. Há dois anos vivendo por lá, vê boas oportunidades para sua carreira. E ele não é o único brasileiro por lá, não. Segundo o relatório de 2017, o Brasil desponta como sétimo maior exportador de desenvolvedores de jogos para a Polônia.

Dados de imigrantes trabalhando na indústria polonesa (Arte e dados: Polish GameDev 2017)

Outro brasileiro que também teve uma temporada de trabalho na Polônia foi Victor Frascarelli, atualmente repórter do The Esports Observer. Ele se mudou para o país para trabalhar para a Kinguin, companhia que, assim com a CD Projekt, faz a distribuição digital de jogos do Steam, Origin e outros.

“A Polônia é um país no qual se veem muitas das marcas das guerras na população, mas é um lugar no qual há muitas oportunidades e você pode ganhar bastante trabalhando com games”, explica Frascarelli.

Victor Frascarelli durante sua passagem pela Polônia (Foto: Arquivo Pessoal)

Mão do estado

Outro ponto que favoreceu a indústria, além do posicionamento dentro da União Europeia, foram os incentivos fiscais. Todos os entrevistados com os quais o Canaltech conversou para esta matéria disseram que este é um dos principais pontos para o rápido crescimento da indústria local de games.

Atualmente, empresas polonesas contam com apoios semelhantes a editais com redução fiscal e até financiamento parcial ou completo de um jogo. Miechowski lembra de um incentivo, entre vários, em que a companhia não paga taxas para o governo em um game até bater o “break even” do projeto. Ou seja, enquanto não tiver receita equivalente ao investimento, não há cobrança de imposto.

“Também é importante que haja a pulverização desses apoios. Se você é uma empresa pequena, se é grande, há algum incentivo para você. Também há a oportunidade de acordo com a região. Por exemplo, se você está na capital, pode pegar um incentivo da cidade, da região, do país e até da União Europeia. Quer dizer, você tem muitas opções caso a sua primeira aposta não dê certo”, lembra o executivo da 11 Bit Studios.

Para ficar de olho

Com 440 empresas e quase 500 jogos lançados anualmente, separamos aqui uma lista de 10 estúdios, para além da CD Projekt Red, para ficar de olho:

  • 11 Bit Studios - This War of Mine, Frostpunk
  • Bloober Team - Observer, Layers of Fears e Blait Witch
  • All In! Games - GhostRunner
  • Donkey Crew - Last Osasis
  • The Knights of Unity Professional Unity Development - Disco Elysium
  • Phobia Game Studio - Carrion
  • SuperHOT - Franquia SuperHOT
  • Techland - Call of Juarez, Dead Island, Diying Light
  • People Can Fly - Painkiller, Gears of War, Fortnite, Outriders
  • Pixel Delusion - Kosmokrats

Com informações: The Game Industry of Poland, State of Polish Video Game Industry, Creative Industries In The Polish Economy, Warsaw Video Games Industry

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