Análise | Borderlands 3 é um loot shooter perdido no tempo

Por Wagner Wakka | 06 de Outubro de 2019 às 10h05
2K Games

Quando Borderlands foi lançado lá em 2009, o mercado estava aquecido pelo boom dos jogos indies. Foi nesse espaço que um grande game, até então com escopo não lá tão gigante assim, conseguiu seu espaço.

O título surfava em basicamente três ondas do momento. A primeira delas é a de personagens carismáticos robóticos, com uma profunda personalidade capaz de roubar as cenas.

Aqui, estamos falando de CL4P-TP, também chamado somente de Claptrap. O robozinho foi um dos pontos altos do roteiro do primeiro game, com um carisma que chegou a contagiar crianças e adultos, aproveitando-se muito bem do sucesso que começou com a personagem GLaDOS, o sistema operacional de Portal, lançado em 2007. Por muito tempo, a dupla de robôs roubou a cena em narrativas e criação de personalidade.

Outra característica intrínseca de seu momento era o humor que não se leva a sério. A história de Borderlands desde o começo é a de um caçador em busca de uma tumba de deuses antigos que guarda uma arca com poderes e tesouros místicos. Ou seja, o jogo não se propunha a uma seriedade, brincado, por vezes, até consigo mesmo.

Essa narrativa nos leva à terceira grande característica de Borderlands: o loot shooter. O termo se refere ao estilo de gameplay em que o jogador atira em inimigos para conseguir armas melhores, para matar outros adversário e pegar outras armas, para matar mais e melhorar ainda mais seus equipamentos. É este loop de ficar mais poderoso para vencer e vencer para ficar mais poderoso que fez tanta gente se manter horas e horas no título lançado 10 anos atrás.

Por que estamos falando do jogo original se esta é uma análise de Borderlands 3? Bom, o motivo é que, passada uma década, com outros dois games no meio (contanto o Tales From Borderlands) a série sofre pouquíssimos avanços, colocando este novo jogo como um ultrapassado game de tiro que não soube se renovar.

Desenvolvimento

Jogo foi lançado todo com legendas em português (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Borderlands 3 foi desenvolvido pela Gearbox, um estúdio texano cujo maior sucesso é exatamente esta série. A produção deste último jogo começou com Battleborn, outro game de tiro multiplayer online battle arena (MOBA) lançado em 2016. Em entrevista, o diretor de arte Scott Keste explicou que a desenvolvedora queria experimentar algo novo exatamente para sair da mesmice de seus jogos. Contudo, Battleborn foi um fiasco, sobretudo com o lançamento de Overwatch, que ofuscou qualquer mutiplayer na sua época.

Scott, porém, disse que Battleborn mostrou duas coisas para a Gearbox. Primeiro, que era preciso voltar a seu espaço de segurança, com a série de maior sucesso. O segundo ponto foi aproveitar ideias que não conseguiram adicionar em Battleborn e que caberiam em Borderlands 3.

Assim, começa o desenvolvimento deste jogo: um misto de ideias reaproveitadas, tentando se manter dentro de uma zona de segurança. Isso fica realmente claro quando se coloca as mãos no título.

Polêmicas

Antes de entrar em Borderlands 3 propriamente dito, também é preciso lembrar que este jogo está envolto em uma série de polêmicas. A maioria delas envolve Randy Pitchford, fundador e CEO da Gearbox.

Há pelo menos três episódios lamentáveis e acusações contra o executivo. A primeira delas, e “mais leve”, é o bate-boca aberto de Pitchford no Twitter com Troy Baker e David Eddings. Os dois são os atores que originalmente fizeram os personagens Rhys e Claptrap e que acabaram contestados na rede social pelo executivo ao cobrarem direitos trabalhistas. O CEO desceu o tom e xingou ambos em sua conta pessoal. Por este motivo, nenhum dos dois repetiu a atuação em Borderlands 3.

Outro episódio triste de Pitchford envolve um pendrive que o executivo esqueceu em um restaurante na Flórida. A peça não só continha informações confidenciais da Gearbox (o que seria uma falha de segurança), mas também possuía uma pasta com pornografia, envolvendo possivelmente uma menor de idade — a faixa etária da garota no vídeo não foi comprovada.

Pitchford chegou a participar de um podcast confirmando que o pendrive era realmente dele e que o interesse do vídeo era em um movimento de mágica que a menina fazia em um momento da cena.

Por fim, outro episódio notável recente do CEO é uma acusação de desvio de verbas. Pitchford foi processado por Wade Callender, ex-advogado corporativo da Gearbox, sob a acusação de ter movimentado US$ 12 milhões da desenvolvedora para uma outra empresa pessoal do executivo.

O montante teria sido pago pela 2K Interactive, publicadora de Borderlands 3, para a Gearbox, mas que Pitchford teria direcionado para a Pitchford Entertainment, Media and Magic. Callender, inclusive, enviou, anexo ao processo, um e-mail de confirmação da transferência.

A descrição de tais polêmicas não tem o intuito de diminuir o desenvolvimento do jogo por conta de atitudes de executivos da desenvolvedora. Contudo, Pitchford já é conhecido há tempos pelas suas atitudes controversas.

A ideia aqui é apresentar ao leitor o conhecimento do problema que pode pesar na hora de adquirir um produto, já que é com a compra de um jogo que se escolhe apoiar ou não uma empresa.

Tirado o elefante branco da sala, vamos ao jogo.

Ambientação 

Borderlands 3 coloca o jogador de volta em Pandora, o planeta onde basicamente toda a trama dos últimos jogos da série se passaram. A exceção foi Tales From Borderlands, que também permitia fases em uma lua de Pandora, criando toda uma mecânica de gravidade menor.

De cara, isso já mostra o ar de jogo antigo de Borderlands 3. Estamos de novo diante de um mesmo planeta, já muito explorado, com as cores, artes e trabalho gráfico muito próximo do que os outros games já haviam feito.

O jogador é colocado em uma região dominada pelo Culto às Arcas. O jogo tangencia uma discussão sobre seitas norte-americanas (da mesma forma que Far Cry 5), mas passa longe de se aprofundar no tema. Afinal, estamos falando do roteiro nada sério de Borderlands.

Jogo traz de volta muitos personagens já conhecidos (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

O jogo se passa depois da história de Borderlands 2 e Tales From Borderlands. Ou seja, estamos em uma Pandora após a morte de Handsome Jack e a descoberta de que existem muitas e muitas arcas pelo universo.

Aqui valem dois parênteses. O primeiro é de que conhecer um pouco da narrativa dos outros títulos da série é bastante importante para se ter um bom aproveitamento de Borderlands 3. Isso porque o jogo traz de volta muitos dos antigos personagens. Ainda, eles são apresentados com entradas impactantes e destinos marcantes, sendo que, se você não faz a mínima ideia de quem são aquelas pessoas, não será impactado de maneira alguma por essas cenas.

Outro ponto é que esta é a primeira vez que um game da série chega ao mercado com legendas em português. Por isso, há uma série de tomada de decisões a respeito de localização.

A principal delas é com o termo “vault”, traduzido pelo time brasileiro como "arca". Dentro do universo de Borderlands, as vaults são relativas a uma espécie de espólios especiais de entidades antigas, algo mais próximo a tesouro ou baús.

Contudo, a palavra "arca" também funciona, embora não acredite que tenha sido a melhor opção aqui. Assim sendo, a análise seguirá com os nomes conforme a tradução oficial do jogo.

Voltando ao enredo, a Pandora de Borderlands 3 faz com que nascesse um culto de crianças que têm fé de que a sobrevivência e a salvação estão nas arcas. O grupo é comandado pelos irmãos Tyreen e Troy, que criam um perfil em uma rede social e mantêm a fé do culto com lives em vídeo.

O jogador, então, é convocado por Lilith (personagem jogável do primeiro Borderlands) para ajudar a derrubar a dupla. Assim, é preciso escolher entre quatro caça-arcas para seguir a trama.

Ritmo 

O jogo começa em Pandora, mas escalona para outros planetas. Esta primeira parte, com tutorial e algumas missões que colocam o jogador na ambientação do jogo são extremamente tediosas e repetitivas.

Mais uma vez, as três primeiras horas são de encontros com personagens já conhecidos dos outros jogos, em um espaço também muito semelhante. Isso já coloca ao jogador um ar de déjà vu e dá a impressão de que estamos diante de um jogo antigo.

Outro problema desta primeira área é que ela não apresenta quase nada de inovação. Basicamente, todo desafio envolve somente atirar na cabeça até o fim da barra de vida do inimigo, sem a necessidade real de alguma estratégia mais complexa de vitória.

Isso se modifica completamente quando o jogador vai para outros planetas, já que a mudança de ambiente significa também encontrar inimigos mais variados. Por exemplo, é depois desse momento que há a introdução de armas elementais, com tiros que explodem armaduras ou eletrificam.

Amas elementais aparecem a partir da segunda área (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Até umas cinco ou seis horas, o ritmo de Borderlands 3 é bem lento, sem nenhuma grande mudança no atira-e-anda típico de um FPS.

Assim, um conselho é sair o mais rápido possível da primeira área (ignorando as missões secundárias) e seguir já para a história principal para não perder tanto tempo no que o game tem de pior.

Ctrl-V

É preciso destacar um ponto muito negativo de Borderlands 3: ele é muito parecido com os últimos games da série. Isso não quer dizer que ele tem a mesma linguagem, mas que toda a construção de personagens, movimentação, modo de atirar e até piadas não oferecem exatamente um refresco do que já foi apresentado pela Gearbox.

Até mesmo o texto engraçado que já fora um destaque na série também não evoluiu. Claptrap continua fazendo as mesmas piadas óbvias de ser o robô com alta capacidade, mas que faz as burradas e coloca todo mundo em risco. Vale lembrar que essa é a mesma personalidade do robô Wheatley de Portal 2. Ou seja, esse texto já está bastante batido.

Conseguir armas melhores é a base do Borderlands (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

As narrativas giram em torno de pessoas malucas e psicopatas, com um ar que é um misto de maniqueísmo e insanidade, mas que não funciona para levar o texto adiante.

A história principal se torna um óbvio caminho em que o jogador precisa correr atrás dos irmãos nos planetas em que eles passam, enfrentando novos inimigos, culminando em um chefe daquela área (geralmente sem personalidade, só um adversário genérico mais potente).

Isso faz de Borderlands 3 um jogo perdido no tempo. No fim, é bastante triste que a Gearbox tenha perdido a grande oportunidade de posicionar a franquia como destaque de jogo multiplayer em loot shooter.

A desenvolvedora tinha um cenário bastante favorável. Destiny está em decadência e Anthem não foi capaz de tomar este posto. Atualmente, The Division está forte como o jogo de tiro em busca de equipamentos, mas também sem muitas novidades no meio.

Este histórico mostra como o gênero de loot shooters ainda esbarra em um limitante de tempo e esforço de desenvolvimento, pesado com quanto de novidade e conteúdo pode oferecer para o usuário.

Desatualização

Borderlands 3 não adiciona quase nenhuma novidade de outros jogos de seu gênero. Tenta pegar emprestado o ritmo de viagem em vários mundos de Destiny, mas derrapa em manter o jogador demais em um só lugar.

Bebe também de títulos como Titanfall e Apex Legends, com um pulo duplo e um pouco de verticalização. Contudo, isso não é nenhuma novidade em 2019.

Desenvolve mal também o esquema de loots, já que não há o desenvolvimento de modos diferentes de criação de armas que não seja comprando ou encontrando com inimigos.

Tudo isso faz Borderlands 3 parecer um game lançado antes de Destiny ou The Division, sendo que é o mais recente entre eles, deixando a impressão de que a Gearbox criou um jogo que ela pensou que fosse ser interessante em 2016 e não atualizou para 2019.

Classes

Por outro lado, há uma boa adição ao game: o sistema de classes de habilidades dos personagens. Cada um dos quatro novos caça-arcas possui uma árvore de desenvolvimento com três poderes diferentes. Por exemplo, é possível usar este golpe mais forte para eliminar um grupo, ou imobilizar um inimigo mais forte e vencer os demais.

Jogo tem sistema de árvore de habilidades especiais (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Essa adição ao universo do título é muito bem-vinda e ajuda a dar uma modificada na mesmice de somente atirar. Ou seja, cria estratégias para quando há muito mais inimigos, ou até mesmo para os momentos em que você se vê sem bala (o que não é nada raro).

Uma escolha legal de design neste jogo é permitir ao usuário escolha recolocar todos seus pontos de habilidade a qualquer momento, bastando ir à nave. Ou seja, é possível testar diferentes setups e estratégias para passar uma região mais difícil ou escolher experimentar todos os modos, o que torna o seu jogo mais interessante.

Este é um dos resquícios das ideias de Battleborn aproveitadas em Borderlands 3. Um MOBA geralmente tem uma característica bem mais clara de habilidades e golpes especiais, o que a Gearbox aproveitou para adicionar aqui.

Contudo, vale lembrar: esta não é uma ideia tão inovadora assim. Tanto a franquia Destiny quanto Anthem possuem estruturas parecidas.

Para quem? 

No fim, é preciso reconhecer que Borderlands 3 é só mais um jogo para quem gosta de todas as características da série, sem tirar nem pôr. Para ser mais bondoso com a Gearbox, há algumas adições, mas bastante pontuais, que avançam pouco em relação a games mais modernos.

Uma teoria possível aqui é de que a desenvolvedora teria acreditado que manter os pontos de Borderlands, mas levar o jogador para outros planetas, seria suficiente para inovar. Infelizmente, esta sequência é só uma volta ao passado para os amantes da franquia.

Mudança de planetas ajuda a quebrar a mesmice do jogo (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Ou seja, se você já gostava de dar uns tirinhos em Pandora antes, certamente vai amar este novo jogo. Contudo, se você espera algo para substituir Destiny, tirar o gosto amargo de Anthem ou fugir um pouco de The Division, pode achar Borderlands 3 bastante defasado.

Borderlands 3 está disponível para Xbox One, PlayStation 4 e PC. No Canaltech, o jogo foi testado no PS4 com cópia gentilmente cedida pela 2K Games.

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