Robôs sexuais podem ser a solução para suprir desejos humanos no espaço?

Por Patrícia Gnipper | 28 de Fevereiro de 2020 às 14h45
Shutterstock

Quando se fala em viagens espaciais de longa duração, uma das principais preocupações se dá com relação à saúde física dos astronautas, uma vez que já se tem conhecimento de uma série de problemas de saúde que surgem como consequência de se passar muito tempo no espaço. Outro motivo de estudo é a saúde mental desses exploradores espaciais, que podem experimentar coisas como depressão e ansiedade caso não tenham o devido acompanhamento e auxílio nessas questões. Mas você já parou para pensar em como astronautas enviados a mundos mais distantes — como será o caso do início da exploração de Marte na década de 2030 — lidarão com outras questões importantes, como as necessidades humanas básicas de intimidade? Sim, estamos falando de sexo. Sexo no espaço.

"Astronautas, apesar de seu treinamento rigoroso, continuam sendo humanos com necessidades. Para que a exploração e a colonização espacial sejam bem-sucedidas, precisamos superar tabus, considerar as necessidades e desejos humanos, e fornecer soluções concretas e realistas baseadas na ciência, e não na moralidade convencional", afirmam os canadenses Simon Dubé (psicólogo na Universidade Concórdia) e Dave Anctil (pesquisador na Universidade Laval). Eles também entendem que, para realizar longas jornadas espaciais realmente eficientes, é preciso tocar neste assunto, "dado que a intimidade e a sexualidade são necessidades básicas, e se tornam questões centrais para a compatibilidade humana no espaço".

Menos chances de intimidade, mais tensão entre a tripulação

(Imagem: Ines Vuckovic/Dose)

Não se sabe de nenhum astronauta que tenha feito sexo no espaço. Tanto a NASA quanto outras agências espaciais que já lançaram pessoas para fora da Terra negam que qualquer atividade sexual tenha ocorrido em suas missões, mas "uma preocupação importante é que a exploração e colonização do espaço limitará as oportunidades das pessoas para relacionamentos, intimidade e sexualidade por longos períodos de tempo", de acordo com a dupla de estudiosos.

Em sua visão, as primeiras missões humanas em mundos mais distantes, como Marte, incluirão pequenas equipes para darem início a assentamentos, mas "menos pessoas significa menos oportunidades de intimidade, potencialmente aumentando a tensão entre os membros da tripulação". Ou seja: se dois membros de uma tripulação colonizadora acabarem "dando match" entre si, as chances de que essa relação prejudique o ambiente de trabalho e as relações interpessoais são grandes; afinal, "pode ser difícil encontrar parceiros adequados à nossa personalidade e preferências, e quando um relacionamento [no espaço] terminar, essa pessoa ficará presa em uma nave com o ex-parceiro, possivelmente prejudicando o humor da equipe e o trabalho conjunto necessário para sobreviver em ambientes perigosos".

Mas isso significa, então, que o certo será proibir relacionamentos e interações sexuais entre esses futuros exploradores espaciais? Na verdade, tal proibição acabaria gerando outros problemas, que igualmente teriam potencial de prejudicar o bom relacionamento entre a equipe de astronautas. "Embora algumas pessoas possam suportar uma política de total abstinência, isso pode ser prejudicial à saúde física e mental de outras pessoas, especialmente quando grupos maiores se aventurarem no espaço", alertam os pesquisadores. Ou seja, trata-se de uma questão bastante complicada — por isso o debate é importante.

Robôs sexuais podem ser uma solução

Cena da série The Expanse, em que um casal pratica sexo em microgravidade

Na visão da dupla de especialistas, o que é retratado no filme sérvio A.I. Rising, de 2018, pode ser uma solução para a questão de se aliviar impulsos sexuais em viagens espaciais de longa duração. O longa explora como máquinas podem satisfazer desejos humanos, apoiando esses indivíduos durante suas jornadas longe da Terra.

E eles são específicos ao citar robôs sexuais em vez de considerar brinquedos eróticos tradicionais, pois estes "não atendem às dimensões sociais das necessidades eróticas humanas". Na verdade, eles usam o termo "erobots", que englobam, além dos robôs, chatbots eróticos e parceiros virtuais com tecnologias como a realidade aumentada, por exemplo.

"O termo erobots caracteriza todos os agentes eróticos artificiais virtuais. Diferentemente das tecnologias anteriores, os erobots oferecem a oportunidade de relações íntimas com agentes artificiais, adaptados às necessidades de seus usuários. Eles poderiam ajudar com a solidão e as inevitáveis ​​ansiedades geradas por ela. Eles poderiam atuar como parceiros românticos substitutos, proporcionar escapes sexuais e reduzir os riscos associados ao sexo entre humanos", explicam, afirmando que os erobots podem, com isso, suprir a necessidade de intimidade, dando apoio emocional. Por fim, equipados com sensores e recursos interativos, esses robôs podem "ajudar a monitorar a saúde fisiológica e psicológica dos astronautas, atuando como um complemento aos exames médicos diários".

Dessa maneira, a dupla de especialistas entende que é preciso haver colaborações entre a academia, os programas espaciais governamentais e o setor privado, para que todo o potencial da "tecnologia erótica" seja aproveitado em missões espaciais humanas. "A erobótica pode contribuir para programas de pesquisa espacial. Como um campo fundamentado em estruturas positivas em sexualidade e tecnologia, reconhece a importância da intimidade e da sexualidade na vida humana, e promove o desenvolvimento de tecnologias voltadas para a saúde e o bem-estar — e, finalmente, devemos abandonar nossos tabus em relação à tecnologia e à sexualidade enquanto viajamos para a fronteira final", concluem.

Fonte: The Conversation, Phys.org

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