Nova geração de foguetes pode revolucionar a indústria da aviação

Por Patrícia Gnipper | 27 de Março de 2019 às 21h10

A indústria aeroespacial está dando os primeiros passos para uma verdadeira revolução. Estamos falando dos novos foguetes reutilizáveis, capazes de fazer vários lançamentos de carga ao espaço a cada ano a um custo muito mais baixo em comparação com foguetes tradicionais. E na visão de uma empresa suíça de investimentos, essa nova geração de foguetes tem potencial para revolucionar também a indústria da aviação comercial no que diz respeito a voos de longa distância.

De acordo com a visão da UBS, voos de longa distância (aqueles que duram mais de 10 horas) seriam "canibalizados" por viagens feitas com tais foguetes, como o Starship, da SpaceX, que está em fase de testes com um protótipo e não demorará muito para ser inaugurado oficialmente. Ainda que a ideia de Elon Musk para este foguete seja usá-lo em viagens para a Lua e Marte, o veículo seria capaz de lançar naves sem sair da atmosfera da Terra, acomodando até 100 pessoas em uma viagem de curtíssima duração — estima-se que o Starship poderia voar de Nova Iorque para Xangai em apenas 39 minutos, enquanto atualmente aviões fazem esse trajeto em 15 horas.

Conceito da nave do sistema Starship (Imagem: SpaceX)

Segundo estimativas da UBS, mais de 150 milhões de pessoas anualmente voam por mais de 10 horas, e somente no ano passado, foram registradas 527 mil rotas de longa distância em aviões com uma média de 309 assentos. "Embora alguns possam ver o potencial de usar o espaço para atender ao mercado de viagens de longa distância como ficção científica, acreditamos que existe um grande mercado aí", diz a empresa, que levantou os seguintes números: "se assumirmos que 5% desses voos no futuro sejam servidos por foguetes a US$ 2.500 por viagem, a oportunidade de receita seria de mais de US$ 20 bilhões por ano".

O próprio Elon Musk, CEO da SpaceX, já levantou essa ideia. Ele chegou a dizer que sua empresa tem sim planos de transportar passageiros a qualquer lugar da Terra em menos de 60 minutos, com essa viagem futurista custando algo equivalente a uma passagem de avião. E a UBS concorda: "dada a duração das viagens comerciais de longa distância e as regras em torno das restrições de tripulação, decolagem e pouso em aeroportos, acreditamos que um foguete reutilizável teria taxas de utilização materialmente melhores do que um avião comercial".

Em uma pesquisa recente da UBS, 10% dos entrevistados disseram que prefeririam voar em uma espaçonave no lugar de uma aeronave em viagens de longa distância, e esse número tende a subir à medida em que os foguetes reutilizáveis caírem cada vez mais "na boca do povo". Até então, a SpaceX tem seu Falcon 9 como case de sucesso, com o Falcon Heavy já mostrando do que é capaz e o Starship, ainda mais poderoso, dará as caras muito em breve.

Em 2018, a SpaceX lançou o Falcon Heavy em uma missão de testes, que levou ao espaço este Tesla Roadster vermelho com um traje espacial fazendo as vezes de "motorista" (Foto: SpaceX)

Turismo espacial como trampolim para voos comerciais usando foguetes

Mudar a dinâmica de toda uma indústria bem estabelecida, como é a da aviação comercial, não é algo que acontecerá rapidamente. No papel, tudo é bonito, mas na prática muitas questões entram na jogada, incluindo os "conchavos" de grandes cabeças do setor. É preciso que as empresas desta indústria estejam envolvidas nessa revolução, apostando em foguetes para viagens de longa distância e somando esforços nessa empreitada. Empresas como a SpaceX abrem as portas para essa transformação, mas sem a abertura de gigantes do setor, nada sairá do falatório.

Só que o turismo espacial pode desempenhar um papel impulsionador nessa jogada. Afinal, a popularização do turismo espacial depende das empresas espaciais, com esta indústria estando em um processo de revolução justamente com a ascensão de nomes como SpaceX, Blue Origin e Virgin Galactic. E, para a UBS, os bilhões de dólares despejados em empresas espaciais privadas representam um "alto nível" de formação de capital — ainda que o turismo espacial esteja dando os primeiros tímidos passos, o subsetor "se tornará popular à medida em que a tecnologia for comprovada e o custo cair".

Por enquanto, o turismo espacial está limitado aos poucos voos organizados pela estadunidense Space Adventures, que levou apenas sete turistas à Estação Espacial Internacional (ISS) nas últimas décadas a bordo de foguetes russos Soyuz — os mesmos que levam astronautas à ISS desde 2011. O custo é de mais de US$ 20 milhões por pessoa, com os turistas ficando pouco mais de uma semana na estação.

Mas nos últimos anos as empresas espaciais privadas da nova geração estão de olho nesse mercado, em especial para viagens suborbitais ao redor do planeta. A Virgin Galactic, por exemplo, já realizou de maneira bem sucedida testes de voo sem e com tripulação usando sua nave VSS Unity, e pretende começar a oferecer passeios espaciais ainda em 2019 — centenas de ingressos já foram vendidos, por sinal, ao preço de US$ 250 mil cada.

Arte mostra a VSS Unity fazendo um voo suborbital (Imagem: Virgin Galactic)

"Esta área parece ser o mercado que tem o maior potencial para ganhar força rapidamente", prevê a UBS, que enxerga o modelo de negócios da Virgin como seguindo os passos dos primórdios da aviação.

A Blue Origin, fundada por Jeff Bezos (o CEO da Amazon), também está na jogada, com sua nave New Sheppard que será lançada também por um foguete reutilizável próprio. O sistema está em desenvolvimento há alguns anos, e não deve demorar muito mais para ser inaugurado. Já a SpaceX, de Musk, deve inaugurar sua empreitada de turismo espacial em 2023, com o Starship, levando o bilionário japonês Yusaku Maezawa para dar uma volta ao redor da Lua. Além dele, outros seis a oito convidados farão a viagem como parte do Dear Moon Project.

E como as três empresas usam sistemas de lançamento reutilizáveis, a UBS entende que essas companhias poderão tornar o turismo espacial "uma ocorrência mais comum" ao passo em que esse setor ficar cada vez mais confiável e, claro, com preços mais acessíveis para que uma parcela maior da população tenha acesso à novidade.

"Estimamos que o turismo espacial será uma oportunidade de mais de US$ 3 bilhões por ano, crescendo a taxas de dois dígitos. Isso seria semelhante ao que aconteceu na aviação comercial, especialmente após o surgimento de companhias aéreas de baixo custo", analisa a UBS, que já prevê o surgimento de ramificações lucrativas dos esforços que, hoje, são liderados pela Virgin Galactic, SpaceX e Blue Origin.

Dessa maneira, quando mais e mais pessoas já tiverem feito viagens espaciais a bordo de foguetes, a ideia de se usar foguetes para viajar comercialmente entre países distantes uns dos outros deverá ficar cada vez mais forte. A UBS estima que, até 2030, o turismo espacial será um mercado de US$ 3 bilhões, servindo, portanto, como um trampolim para o desenvolvimento de viagens de longa distância na Terra por meio de foguetes. A empresa acredita que o acesso ao espaço será "o facilitador de oportunidades mais amplas" — e estamos ansiosos para ver essa previsão de futuro se concretizar.

Fonte: CNBC

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