Impactos causados por cometas "quebrados" podem ser devastadores, aponta estudo

Por Daniele Cavalcante | 20 de Abril de 2020 às 11h40
Yuri_B/Pixabay

Um novo estudo alerta sobre o risco que cometas podem representar à Terra mesmo quando se partem em dois ou mais pedaços - como aconteceu recentemente com o cometa interestelar 2I/Borisov e também com o cometa C/2019 Y4 Atlas, que poderia ficar visível no céu do mês de maio. De acordo com o artigo, um desses eventos, inclusive, pode ter causado o Impacto do Younger Dryas, há cerca de treze mil anos.

A hipótese do Impacto do Younger Dryas afirma que um resfriamento climático teria afetado o hemisfério norte da Terra durante 1.300 anos, causando a extinção de uma megafauna e exterminado a cultura Clovis, composta pelos primeiros habitantes do continente americano. A causa disso seria a queda de um objeto espacial.

Em seu novo estudo, o autor W M Napier, do observatório e planetário de Armagh, na Irlanda do Norte, descreve como um cometa quebrado poderia ter sido o responsável pelo Younger Dryas e argumenta que esses pedaços de cometas poderiam ter ajudado a moldar o fluxo da vida na Terra. Isso poderia acontecer novamente, segundo Napier.

Possíveis pontos de impacto do Younger Dryas (Imagem: Bruce Jones)

Embora existam diversas evidências que sustentam a Hipótese do Younger Dryas, ela ainda não é comprovada e gera controvérsias. Por isso, muitos estudos são publicados, apontando os sinais de que um impacto, de fato, alterou o rumo da vida na Terra naquela época. Napier escreve que a ideia de um impacto cósmico "é apoiada pela presença de altas concentrações de poeira rica em platina em trinta locais no hemisfério norte".

Napier também menciona evidências de rápidas mudanças na flora e fauna combinadas com a platina - um elemento associado a asteroides e cometas - e outras indicações de impactos celestes com o rápido resfriamento do clima. Ele também cita evidências de incêndios florestais em grande escala ao mesmo tempo, quando até 10% da biomassa da Terra foi queimada em um período de semanas, talvez apenas dias.

Existem muitos trabalhos sobre esse assunto, alguns deles escritos pelo próprio Napier. Em 2010, ele publicou um artigo apresentando evidências de que um cometa grande, medindo de 50 a 100 km, se quebrou e parte dele atingiu a Terra, causando um resfriamento rápido e também as chuvas de meteoros Táuridas.

Pois bem, em seu novo artigo, o autor busca modelar a desintegração do cometa que supostamente causou o Younger Dryas para ver se é possível fazer uma correlação plausível entre o ambiente astronômico da época e o registro terrestre. Um dos candidatos a responsáveis pelo Younger Dryas é o cometa Encke, que ainda pode ser visto no espaço, mas teria se partido, arremessando um de seus pedaços na Terra.

O cometa Enke, candidato a responsável pelo impacto do Young Dryas (Imagem: NASA)

O Encke é parte de um grupo de cometas conhecido como cometas da família de Júpiter, que representam um risco maior para a Terra. Napier criou modelos de cometas dessa família com 20 km, 50 km, 100 km e 150 km de diâmetro, acompanhando suas evoluções por 10.000 anos. O resultado é que a maioria dos modelos prevê algo como 750-1500 eventos de cometas se dividindo, produzindo vários grupos de fragmentos. A massa e a velocidade desses fragmentos transportam 107 megatons de energia de impacto. Para comparação, a bomba que os EUA jogaram em Hiroshima, no Japão, foi de apenas 15 quilotons.

A boa notícia é que, em qualquer cenário provável desses modelos, os detritos não atingiriam a Terra. Mas eles deixariam uma trilha de detritos para trás, que ficam mais longos com o tempo, enquanto energia de impacto diminui com a velocidade. Napier mostra como é provável que as trilhas de detritos podem se expandir para uma seção transversal maior que a Terra, aumentando as chances de impactos.

De acordo com o estudo, a fragmentação de cometas não é rara e representa uma ameaça real à humanidade. Um único cometa poderia produzir múltiplos “furacões” de meteoros, o que já é uma informação preocupante. Além disso, impactos menores podem criar bastante fumaça meteórica e gerar resfriamentos repentinos por alguns anos, além de incêndios generalizados.

O estudo é importante para alertar sobre este perigo. Agências espaciais como a NASA criam meios de se proteger de impacto de asteroides, mas essas estratégias não funcionariam contra pedaços de cometas vindo em nossa direção.

Fonte: Universe Today

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