Queda de objeto espacial resfriou a Terra há 13.000 anos, aponta estudo

Por Daniele Cavalcante | 13 de Novembro de 2019 às 11h00

Há cerca de 13.000 anos, um resfriamento climático teria afetado o hemisfério norte durante 1.300 anos, causando a extinção de uma megafauna que até então preenchia aquela região do planeta. A alteração do clima também teria extinguido a cultura Clovis, composta pelos primeiros habitantes do continente americano. Tudo por causa de um impacto cósmico — ao menos isso é o que diz a Hipótese do Impacto do Younger Dryas, que tem gerado controvérsia desde que foi apresentada em 2007.

Embora seja uma ideia bastante discutida no meio científico, algumas pesquisas em vários lugares do mundo têm revelado novas evidências de que esse período de resfriamento foi causado pelo impacto de um objeto que veio do espaço. Outros cientistas rebateram a tese com diferentes causas possíveis, como uma alteração de correntes oceânicas no Atlântico Norte, por exemplo.

Em um novo estudo, publicado na revista Scientific Reports no final de outubro, o arqueólogo Christopher Moore e 16 colegas da Universidade da Carolina do Sul apresentaram algumas evidências de um impacto cósmico. O estudo tem como base pesquisas realizadas na Carolina do Sul e se assemelha a outras descobertas — picos de platina, um elemento associado a asteroides e cometas, foram encontrados na América do Norte, Europa, oeste da Ásia, Chile e na África do Sul.

O que deu início ao rápido resfriamento da Terra?

O período do Younger Dryas recebeu o nome da Dryas Octopetala, uma flor silvestre cujas folhas prosperam no frio e se tornaram comuns durante a época do resfriamento (Foto: Shutterstock)

Durante a época do Younger Dryas, as temperaturas médias caíram abruptamente. De acordo com Moore, se uma queda semelhante a essa acontecesse hoje, a temperatura média da ensolarada Miami mudaria rapidamente para a gélida de Montreal, no Canadá. “Camadas de gelo na Groenlândia mostram que esse período frio no Hemisfério Norte durou cerca de 1.400 anos”, afirma.

Moore também foi autor e coautor de artigos anteriores sobre locais onde foram encontrados picos de platina. “Primeiro, pensamos que era um evento norte-americano, mas depois apareceram evidências na Europa e em outros lugares que nos levaram a pensar que era um evento do Hemisfério Norte. E, agora, com as pesquisas no Chile e na África do Sul, parece que provavelmente foi um evento global”, diz.

Para alguns geólogos e cientistas, as evidências apontam para a ideia de que um cometa ou asteroide fragmentado colidiu com a Terra há 12.800 anos e causou esse evento climático. Essa hipótese sugere que o impacto, além de desencadear um inverno, provocou incêndios florestais intensos que bloquearam a luz solar com fumaça. No estudo realizado pela equipe de Moore, foi usado como evidência um lago da Carolina do Sul que existe há pelo menos 20.000 anos.

Outros cientistas ao redor do mundo encontraram em oceanos, lagos, e núcleos de gelo grandes picos de partículas associadas à queima, como carvão e fuligem, que remetem à data de início do Younger Dryas. Esses seriam sinais de incêndios cataclísmicos encontrados em toda a parte, sugerindo que a Terra, de fato, sofreu um impacto que afetou todo o planeta. Até 10% das florestas e pastagens do mundo podem ter queimado, diz Moore.

Procurando por mais pistas, os pesquisadores estudaram uma camada de sedimentos chamada chamada Youndger Dryas Boundary, distribuída em todo o mundo. “Se você imaginar a superfície da Terra como um bolo, o Youndger Dryas Boundary é a camada que foi congelada em sua superfície há 12.800 anos, posteriormente coberta por outras camadas ao longo dos milênios”, explica Moore. Nos últimos anos, cientistas encontraram uma variedade de materiais exóticos nessa camada que, mais uma vez, apontam para um impacto cósmico.

Buscando evidências em lagos naturais

O White Pond faz parte dessa paisagem há 20.000 anos ou mais (Foto: Christopher R. Moore)

Geólogos e arqueólogos como Moore buscam por novas evidências em lagos naturais, que também acumulam sedimentos ao longo do tempo, preservando camada por camada um registro das condições climáticas e ambientais da história do planeta. Um desses lagos é o White Pond, situado no sul do condado de Kershaw, na Carolina do Sul.

Dentro do lago, há depósitos de lama e lodo com mais de 6 metros de espessura que se acumularam pelo menos desde o pico da última era glacial, há mais de 20.000 anos. A equipe de Moore extraiu sedimentos do fundo desse lago e, com base nas sementes preservadas e no carvão de madeira que foram coletadas, eles determinaram que havia uma camada de cerca de 10 centímetros de espessura do Youndger Dryas Boundary, datado de algum momento entre 12.835 e 12.735 anos atrás.

Então, a equipe começou a buscar por platina, porque esse material tem concentrações muito baixas na crosta terrestre, mas é comum em cometas e asteroides. Pesquisas anteriores já haviam identificado uma grande “anomalia de platina” nas camadas de Younger Dryas nos núcleos de gelo da Groenlândia, bem como na América do Norte e do Sul e na África do Sul, o que aponta para a hipótese do impacto global. Se essa ideia for real, a platina deveria ser encontrada nas camadas Younger Dryas de outras regiões também.

Sem muita surpresa, a equipe de Moore encontrou, de fato, altos níveis de platina em suas amostras do White Pond, além de uma proporção incomum de paládio. De acordo com o pesquisador, “o fato de haver muito mais platina do que paládio sugere que a platina veio de uma fonte externa, como a precipitação atmosférica após um impacto extraterrestre”.

A equipe também encontrou um grande aumento de fuligem na camada Younger Dryas, o que aponta para incêndios florestais em larga escala naquela região. Além disso, a quantidade de esporos de fungos geralmente associados ao esterco de grandes herbívoros diminuiu nessa camada em comparação com as camadas formadas em períodos anteriores, sugerindo um declínio repentino na megafauna por lá.

Embora essas descobertas não provem a hipótese do Younger Dryas, dados da equipe de Moore são consistentes com a crescente quantidade de evidências, coletadas por cientistas ao redor do mundo, de que um cometa ou asteroide causou uma calamidade ambiental em escala continental, ou global, há 12.800.

Fonte: The Conversation

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