Em "Contato", Carl Sagan vislumbra encontro com ETs questionando razão e fé

Por Patrícia Gnipper

“Contato” é um dos mais de 20 livros escritos por Carl Sagan, o célebre cientista, astrobiólogo, astrônomo, astrofísico, cosmólogo, escritor e divulgador científico norte-americano. O autor, que também escreveu mais de 600 publicações científicas, ficou famoso fora do meio acadêmico e científico graças à série “Cosmos: Uma Viagem Pessoal”, de 1980, em que foi coescritor junto a sua esposa Ann Druyan e atuou como narrador e apresentador. Sim: a série “Cosmos: Uma Odisseia do Espaço-Tempo” apresentada pelo físico Neil deGrasse Tyson (e disponível na Netflix) que faz um tremendo sucesso desde 2014 é uma releitura atualizada da série original de Sagan.

Contato, de Carl Sagan

Capa da segunda edição brasileira de "Contato", lançado em 1985 (Reprodução: Divulgação)

No romance de ficção científica “Contato”, publicado em 1985, alguns traços da personalidade de Sagan ficam evidentes ao analisar o caráter da protagonista - uma cientista do SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence, que significa “Busca por Inteligência Extraterrestre” em português) que trabalha no projeto com o objetivo de detectar sinais de vida inteligente fora do planeta Terra. O livro chama atenção não somente por ser uma obra muito bem escrita e elaborada, como também por revelar muitos dos interesses de Sagan com relação a um primeiro contato com seres extraterrestres. E tudo devidamente pautado na ciência, naturalmente, deixando o sensacionalismo ufólogo de lado.

O livro fez bastante sucesso e acabou servindo como roteiro para uma adaptação cinematográfica homônima lançada em 1997 que se manteve relativamente fiel à história original escrita pelo cientista. A história é uma defesa da ciência, abordando a ideia central de que a ciência e a razão podem ser meios através dos quais as pessoas podem experimentar um fascínio sobre o Universo - coisa que geralmente é associada à religião e à fé.

filme Contato

Pôster da adaptação cinematográfica de "Contato" (Reprodução: Divulgação)

Sagan foi um notável defensor do ceticismo e do uso do método científico, promovendo a busca por inteligências alienígenas por meio de projetos tecnológicos como o SETI, ou ainda o envio de mensagens a bordo das duas naves Voyager, que contêm discos fonográficos de ouro com sons e imagens selecionados com a ajuda do cientista como sendo amostras da diversidade de vida e cultura no planeta Terra. É isso mesmo: já que Sagan não conseguiu fazer contato com um ser extraterrestre por aqui, pelo menos sua mensagem está navegando pelo espaço esperando ser encontrada e decifrada por alguma civilização tecnologicamente inteligente.

A trama principal do livro

Enquanto apresenta ao leitor conceitos de radioastronomia e o potencial dessa área da astronomia na busca por vida inteligente em outros planetas, Carl Sagan também explora o relacionamento humano em “Contato”.

O livro tem como protagonista a personagem Eleanor (Ellie) Arroway, cientista do SETI que se empenha na busca de sinais de vida inteligente lá fora. Enquanto essa atividade é vista por outros astrônomos como uma espécie de suicídio profissional, Ellie conseguiu captar ondas de rádio misteriosas vindas de uma região próxima à estrela Vega - a mais brilhante da constelação de Lira, localizada a 26 anos-luz da Terra.

SETI

Antenas que fazem parte das instalações do SETI no Novo México (Reprodução: Divulgação)

Aos poucos a cientista vai decodificando a mensagem e revelando seu conteúdo, que se trata de uma espécie de manual de instruções para a construção de uma máquina que, até ser construída, não se fazia ideia de seu propósito. Muitos consideravam que a máquina seria capaz de destruir a humanidade, ou ainda que pudesse servir como uma espécie de cavalo de Tróia alienígena, mas a hipótese mais abraçada dizia que ela seria uma nave espacial. Após um acerto entre as nações mais importantes do mundo, a máquina foi desenvolvida e colocada para funcionar.

Os tripulantes da máquina, juntamente com Ellie, acabam sendo transportados para o centro do universo e têm a oportunidade única de fazer contato direto com os alienígenas, que, por sua vez, têm habilidades sobre humanas como o poder de tomar a forma da pessoa que os tripulantes mais amam na Terra. Ao se apresentar à Ellie, o E.T. tomou a forma de seu pai, Teodorre Arroway, falecido quando a cientista tinha somente nove anos de idade.

A experiência dura cerca de 24 horas e, em seguida, a tripulação é enviada de volta à Terra. Porém, quando voltam são surpreendidos pela notícia de que eles ficaram por lá por apenas 20 minutos, que a máquina não teria saído fisicamente do lugar e que todos os registros que Ellie teria feito no espaço foram perdidos. Sem conseguir provar a viagem sem precedentes que fizeram, os membros da tripulação são interrogados e acusados de ludibriar todo o planeta somente para manter seu projeto de pesquisa em atividade.

A partir desse momento o livro mostra uma inversão nos papéis e a cética Ellie, que acredita ter vivenciado aquela experiência de verdade, passa a experimentar sensações de espiritualidade idênticas às religiosas.

Analisando “Contato”

Talvez o mais importante a respeito desse livro seja o fato dele não ser uma obra “barata” de sci-fi, fugindo do clichê dos hominídeos esverdeados desembarcando na Terra em um disco voador que aterroriza os habitantes de alguma cidade, ou chegando aqui para destruir nosso planeta tendo o governo dos Estados Unidos como os grandes salvadores da humanidade. Utilizando todo seu conhecimento científico, Sagan usa “Contato” para espalhar ciência e astronomia entre um público não acadêmico e aborda a temática da busca por vida extraterrestre inteligente de maneira sóbria e séria.

Contato, de Carl Sagan

Contracapa da edição de "Contato" pela Editora Guanabara, com uma breve análise da obra (Reprodução: Divulgação)

Além disso, o grande debate que esse livro proporciona se dá na antiga (e, por vezes, aparentemente eterna) guerra entre religião e ciência, deixando a reflexão sobre como nossa sociedade reagiria se (ou quando) realmente descobrir vida em outros planetas além da Terra.

Com essa obra, temos material para pensar a respeito da importância política que a religião tem em praticamente todo o mundo - independente de qual religião estivermos falando. No livro (assim como na vida real) diversas decisões políticas são tomadas somente após uma avaliação por parte de religiosos, para o desespero da personagem principal que, até ter sua experiência questionada pela comunidade científica, via a religião e a fé como uma espécie de histeria coletiva.

Então enquanto acompanhamos a trajetória de Ellie, nos deparamos com embates filosóficos sobre a existência (ou não) de Deus, bem como paramos para pensar a respeito de extremismos - ambos religioso e científico. Lá para o fim do livro, quando Ellie e seus colegas têm sua experiência extraterrestre tida como fantasiosa, vemos a personagem questionar a ciência em que tanto acredita, já que não se consegue explicar e provar que o contato com seres de outro planeta de fato aconteceu.

Ou seja: o ceticismo com que Ellie encarava a religião e as experiências espirituais dos fiéis voltou-se contra a cientista quando ela mesma se viu em uma situação em que vivenciou uma experiência sem conseguir prová-la - da mesma forma que acontece com devotos que passam por experiências espirituais que a ciência não consegue explicar.

Ficou curioso? Exemplares antigos de "Contato" podem ser facilmente encontrados em sebos, mas as edições novas também fazem parte das prateleiras das grandes livrarias. Na loja brasileira da Amazon, por exemplo, o livro custa R$ 31,81.