10 experimentos estranhos feitos no espaço

10 experimentos estranhos feitos no espaço

Por Daniele Cavalcante | 01 de Janeiro de 2021 às 20h00
NASA

Quando a humanidade conquistou a capacidade de ir ao espaço, muitas perguntas puderam ser respondidas. Descobrimos, por exemplo, que é possível levar um objeto artificial para a órbita do nosso planeta, que podemos transmitir sinais do e para o espaço, e mostramos ser possível chegar à Lua. Mas muitas outras dúvidas só podiam ser respondidas através de experimentos científicos, e alguns podem até ser bem divertidos.

(Imagem: Reprodução/NASA)

Talvez possamos dizer que o primeiro grande experimento científico bem sucedido fora da Terra tenha sido o Sputnik, satélite lançado pela União Soviética em 4 de outubro de 1957 (embora outros foguetes tenham deixado nossa atmosfera antes). Ele foi o primeiro satélite espacial e responsável pelo primeiro sinal emitido do espaço. Durante sua missão de 22 dias, ele transmitiu um “bip” através de sinais de rádio, que podiam ser detectados até mesmo por radioamadores.

O sucesso do Sputnik levou os EUA a travar a Corrida Espacial com a União Soviética até 1975. Isso fez com que a ciência desenvolvesse tecnologias e conhecimentos o suficiente para o pouso de humanos na Lua com a missão Apollo 11, em 1969, o que nos levou a um novo cenário que se tornaria corriqueiro: o dos experimentos científicos na Lua e, mais tarde, na órbita terrestre. Até hoje, astronautas viajam à Estação Espacial Internacional (ISS) para realizar novos estudos, e alguns deles foram bem estranhos.

Quer ficar por dentro das melhores notícias de tecnologia do dia? Acesse e se inscreva no nosso novo canal no youtube, o Canaltech News. Todos os dias um resumo das principais notícias do mundo tech para você!

Olha só o que esses caras já fizeram lá fora:

Empurraram um traje de astronauta para o espaço

Em alguns filmes e séries de ficção científicas, os cadáveres de membros da tripulação que morrem dentro de uma nave espacial são atirados no vácuo cósmico para flutuar eternamente. Se isso acontecesse na ISS, a cena seria algo parecido com o vídeo acima.

Este experimento foi realizado no dia 3 de fevereiro de 2006. Um traje espacial russo apelidado de Ivan Ivanovitch (ou Sr. Smith, ambos nomes muito comuns em seus respectivos países) foi recheado com roupas velhas e empurrado propositalmente da câmara de descompressão sem amarras, levando consigo um transmissor de rádio.

A ideia era saber se os trajes espaciais poderiam ser usados ​​como satélites, por isso foi batizado de SuitSat-1. Como os trajes tinham uma determinada vida útil e, depois, tornavam-se inúteis, os russos queriam descobrir se era possível encontrar alguma utilidade para eles no espaço.

Os relatórios do resultado da missão variam. A NASA diz que o transmissor morreu logo após o lançamento, mas a Rússia afirma que houve uma transmissão final quinze dias depois. O último sinal confirmado foi recebido em 18 de fevereiro, mas o SuitSat-1 continuou em órbita durante meses, antes de entrar na atmosfera da Terra e queimar em 7 de setembro de 2006.

Jogaram um martelo e uma pena na Lua

Reza a lenda que, certa vez, Galileu Galilei, convenceu os professores a assistir suas experiências na torre inclinada de Pisa. Do topo da torre, o físico deixou cair uma pedra grande junto de outra pequena para mostra rque ambos alcançavam o solo simultaneamente. Seja a história real ou não, o princípio da universalidade da queda livre foi determinado por Galilei: se dois corpos caírem ao mesmo tempo em um lugar com o mesmo campo gravitacional, sofrem a mesma aceleração independentemente de sua composição.

Mas há um problema nessa frase. Se um dos dois objetos tiver formato que apresente resistência ao ar — uma pena ou folha de papel, por exemplo — ele vai lutuar demorar mais para cair no chão. Então, a lei só poderia ser de fato comprovada em um lugar onde não existe ar. A Lua é um desses lugares, e os astronautas que foram para lá durante as missões Apollo aproveitaram a oportunidade para realizar o experimento.

Em 2 de agosto de 1971, o comandante David Scott, da missão Apollo 15, pegou um martelo e uma pena de falcão e os ergueu à mesma altura — cerca de 1,6 metro do chão —, e em seguida os largou. Sem a resistência do ar, os dois objetos caíram simultaneamente. Embora os cientistas já soubessem que o resultado seria este, podemos dizer que foi um alívio, já que o retorno dos exploradores espaciais era baseado nessa mesma teoria, conforme relatou o astronauta da NASA Joe Allen.

Fizeram uma gota d'água colorida e flutuante

Como as coisas se comportam em microgravidade? Muitas experiências na ISS são motivadas por essa pergunta. Nesse tipo de ambiente, sementes podem brotar? Plantas podem gerar frutos nutritivos? No início, algumas questões eram mais… inusitadas. Mas não menos interessantes.

Os astronautas aprenderam rápido que se você derramar um pouco de água em ambiente de microgravidade, ela simplesmente fica flutuando por lá, como uma bola transparente e grudenta. Imagine o tipo de brincadeiras, digo, experimentos podem ser realizados com isso. Já houve balões de água estourados, câmeras GoPro inseriras dentro da água flutuante para filmá-la de dentro, entre outras coisas divertidas. E teve esse cara, chamado Scott Kelly, que coloriu uma gota de água na ISS.

Ele usou um corante alimentar e depois inseriu comprimidos efervescentes dentro de uma bolha de água flutuante. Além de se dissolverem lá dentro, gases foram liberados na água e formaram um efeito curioso.

Atearam fogo no espaço

E o fogo, como se comporta na microgravidade? Os cosmonautas descobriram isso de uma maneira não muito agradável, ou seja, não intencional, em um incidente na estação espacial soviética Mir, em 1997. Em 24 de fevereiro daquele ano, seis membros da tripulação estiveram em perigo quando um fogo se acendeu no gerador de oxigênio. A chama saiu de um cartucho de combustível sólido e impediu o acesso a uma das duas cápsulas de escape. Felizmente, a equipe conseguiu controlar o incêndio.

Isso ensinou às agências espaciais lições importantes para a Estação Espacial Internacional, que ainda estava nos estágios iniciais de construção. Vários outros estudos foram realizados depois, como experimentos de queima de sólidos a bordo da ISS para saber quais são as características do fogo e da extinção de chamas em microgravidade. Vários tipos de combustível foram usados e os dados desses experimentos podem ser usados ​​para diversos fins, inclusive para entender melhor os detalhes mais sutis da combustão aqui mesmo, na Terra.

Levaram aranhas para tecer teia no espaço

Desde o início da exploração espacial, animais foram enviados ao espaço para saber como eles se sairiam por lá. Embora a triste história da cachorrinha Laika seja a mais famosa, outros animais foram ao espaço antes. Na maioria das vezes, os viajantes foram mamíferos, mas outras espécies mais inusitadas também fizeram parte das experiências. Por exemplo, aranhas.

Duas aranhas tecedeiras de seda dourada (Trichonephila clavipes), chamadas Esmeralda e Gladys, fizeram uma estadia de 45 dias na ISS. Diferente dos animais que antes eram lançados sozinhos em foguetes, sem nenhuma assistência, as aranhas foram bem tratadas, mantidas em um habitat agradável, com as condições de luminosidade ideais para simular um ciclo noturno, além de controle de temperatura e umidade e, claro, alimentação a base de moscas-das-frutas.

As aranhas se adaptaram muito bem à microgravidade, tecendo teias para caçar o alimento — as moscas não foram servidas grelhadas em pratos com talheres. Essa espécie come suas teias no final de cada dia para recuperar as proteínas, e Esmeralda e Gladys fizeram todo o processo normalmente, no prazo correto. Isso foi curioso, porque outras espécies de tecelãs levadas à ISS teciam teias a qualquer hora do dia.

Algumas curiosidades, contudo, foram anotadas nessa experiência. Por exemplo, as aranhas teciam teias de maneira diferente na microgravidade. Eram teias mais planas e redondas, se comparadas comparação com os formatos mais tridimensionais e assimétricos que essa espécie tece aqui na Terra.

Tartarugas cosmonautas

Tartarugas também já foram ao espaço. As primeira foram laçadas pelos soviéticos na década de 1960, antes de a humanidade saber como organismos vivos reagiriam a uma viagem espacial. Infelizmente, decidiram usar animais sem a capacidade de dar consentimento, e em 1968 duas tartarugas russas deram uma volta ao redor da Lua, ao lado de moscas, larvas, sementes, plantas, algas e bactérias.

No momento do lançamento, as cosmonautas de casco não estavam mais sendo alimentadas. Isso fazia parte do experimento. Elas viajaram por sete dias, enquanato outras tartarugas permaneceram na Terra, também privadas de comida, pelo mesmo período. Uma comparação dos dois grupos de tartarugas revelou que quaisquer mudanças nos animais cosmonautas foram basicamente resultados da fome. Ao menos puderam ter uma vida tranquila depois da aventura espacial.

Plantaram sementes astronautas

(Imagem: Reprodução/Jud McCranie)

Experimentos com plantas e sementes podem ser comuns hoje na ISS, mas na década de 1970 essa era uma ideia… esquisita. A missão Apollo 14, lançada em 31 de janeiro de 1971, levou consigo uma dessas carga inusitadas — cerca de 500 sementes. É que os cientistas do Serviço Florestal dos EUA queriam saber se sementes de árvores que voaram no espaço iriam brotar normalmente.

Cinco espécies de árvores foram incluídas em um cilindro que ficou com o astronauta Stuart Roosa, permanecendo no módulo de comando na órbita lunar. Depois de 34 voltas na Lua, a missão voltou à Terra com as sementes. Elas foram plantadas e a maioria sobreviveu para brotar. Não havia diferença perceptível entre elas e as sementes que ficaram em nosso planeta.

Elas cresceram e ficaram conhecidas como “Moon Trees”. Foram então transplantadas em vérios lugares de todos os EUA, mas poucas podem ser contabilizadas hoje, pois acabaram se misturando com as demais árvores.

Formigas ficaram deslocadas

Outra pesquisa teve como objetivo comparar o comportamento de formigas em gravidade normal com um grupo que foi levado à microgravidade. Os cientistas mediram como as interações entre as formigas dependem do número de indivíduos em uma determinada área.

Oito habitats com aproximadamente 100 formigas cada foram levados à ISS, onde os cientistas usaram câmeras e softwares para analisar os padrões de movimento e as taxas de interação entre os insetos de cada formigueiro. Estudos anteriores mostram que as formigas conseguem estimar quantas delas estão na área, um cálculo necessário em muitas situações diferentes, como em busca de comida.

As formigas na microgravidade, contudo, fizeram suas pesquisas com menos eficiência, talvez devido à dificuldade de se agarrar à superfície, relatam os cientistas do estudo. Cerca de 7% das formigas no espaço flutuavam livremente e não tinham um "ponto de apoio" na superfície, o que deve ter interferido na capacidade individual de avaliar a densidade de formigas em uma área e traçar seu caminho na busca por comida.

Tecnologia reptiliana

(Imagem: Reprodução/John Solem)

Com novos problemas, surgem novas (e estranhas!) abordagens para encontrar soluções. Os astronautas, por exemplo, cansados de ter dificuldades em realizar tarefas simples, como colocar coisas na mesa ou pendurar pranchetas na parede da ISS (nem mesmo fitas adesivas são eficazes na microgravidade), recorreram a testes inspirados nas superfícies pegajosas dos pés das lagartixas.

O pé de uma lagartixa tem milhões de pelos minúsculos capazes de se agarrar a outras superfícies, como paredes, através de uma atração no nível atômico. Os engenheiros criaram algo semelhante coberto por pelos minúsculos que podem grudar todos os tipos de paredes e superfícies. Isso ocorre porque os pelinhos criam um pequeno campo elétrico para gerar uma “aderência” através da fricção dos elétrons. É mais ou menos como esfregar um pedaço de plástico (como uma caneta ou régua) no seu cabelo e ver o objeto atrair pedacinhos de papel.

Essa estratégia foi bem inteligente, na verdade, porque usar o campo elétrico para criar algo pegajoso não gera resíduos nas superfícies da ISS. A NASA também planeja usar a tecnologia de “patas de lagartixa” para melhorar os reparos de equipamentos como satélites, por exemplo.

Guerra das Colas

(Imagem: Reprodução/NASA/collectSPACE.com)

Ok, já falamos disso aqui no Canaltech, mas não poderíamos deixar a peculiar “Guerra espacial das colas” de fora dessa lista. Tudo começou em 1985, quando a Coca-Cola pediu à NASA para testar uma latinha de refrigerante a bordo do ônibus espacial. Ela seria desenvolvida especialmente para ser usada no ambiente de microgravidade, onde os líquidos — você já viu a bolha de água flutuante em um dos vídeos acima — podem voar e prejudicar o interior da nave.

E NASA enviava à órbita da Terra o ônibus espacial Challenger pela oitava vez, mas essa missão foi diferente, pois a tripulação teve que beber refrigerante no espaço. A lata de Coca-Cola até que era bem elaborada, projetada especialmente para atender às necessidades dos astronautas. Não que eles estivessem loucos por um refrigerante no espaço, mas… por que não? Ser a primeira fabricante de refri a enviar seu produto para o espaço parecia uma ótima publicidade.

Quando a Pepsi ficou sabendo da campanha, pediu à NASA para ser incluída no experimento. A agência concordou, e os astronautas receberam a tarefa de experimentar as duas latas e dar um “veredito” sobre as soluções das empresas. Alguns astronautas não ficaram muito satisfeitos com a coisa toda, mas descobriram que o gás das bebidas não iam para lugar algum além da barriga. Quando bebemos um copo de refrigerante, boa parte do gás vai embora para o ar antes de ingerirmos, mas em microgravidade, acaba-se engolindo tudo. Burp! Saúde.

Fonte: Science Alert, NASA

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.