Mundo Mistério | Episódio 1 decifra enigmas do Triângulo das Bermudas

Por Nathan Vieira | 29 de Agosto de 2020 às 12h00
Reprodução/Netflix, Edição/Canaltech
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No dia 4 de agosto, a Netflix lançou a série Mundo Mistério, protagonizada pelo youtuber Felipe Castanhari, do Canal Nostalgia. A produção original da plataforma de streaming é voltada a mistérios da ciência e da história. Já conversamos com o próprio Castanhari sobre os bastidores da série e agora trazemos um especial, comentando sobre cada um dos episódios, destacando a parte mais científica e tech deles.

A premissa da série é bem clara: desvendar mistérios em torno da ciência e da história da humanidade. E no primeiro episódios, Triângulo das Bermudas, isso está bem presente. E é de maneira lúdica, misturando explicações científicas com diálogos entre personagens e até mesmo cenas de animação, que o primeiro episódio revisita os casos que levaram muitas pessoas a acreditarem piamente que existia algo até mesmo paranormal relacionado à região.

"Os temas precisavam ser explicados pela ciência, esses mistérios, e cada um deles foi focado em mostrar ciência em um aspecto específico, desde falar da parte mais teórica como o episódio do Triângulo das Bermudas, que a gente foi mais para fenômenos naturais", conta Castanhari em entrevista ao Canaltech.

Felipe Castanhari no Triângulo das Bermudas, no primeiro episódio da série Mundo Mistério (Imagem: Divulgação/Netflix)

"Em cada tema a gente explora a ciência de uma forma diferente, sempre tendo ela como fio condutor do episódio, e cada um teve um desafio diferente. O primeiro episódio foi um desafio para a montagem em si, para a gente entender o formato. A gente ainda estava entendendo como ia montar na edição e transformar todo aquele material bruto em um programa. Então foi bem desafiador, porque a gente tinha que justamente descobrir como era o formato, quanto a gente teria de voice over, quanto a gente teria de animação".

Basicamente, o episódio de estreia da série explica que o Triângulo das Bermudas é uma região triangular caribenha cujos vértices são compostos pela Flórida, Porto Rico e pela Ilha das Bermudas, localizada no Oceano Atlântico. A área na qual vários aviões e navios acabaram desaparecendo é apontada pelos especialistas como propensa a tempestades, que, por sua vez, podem provocar ondas gigantes. Essas ondas costumam se concentrar em correntes de água submersas, como a Corrente do Golfo.

As imprevisíveis tempestades do Caribe e Atlântico que dão origem a ondas de tamanho imenso, assim como trombas d’água, muitas vezes significam desastres para pilotos e navegadores, e a topografia do fundo do oceano varia de extensos recifes a algumas das mais profundas fossas marinhas do mundo. Com a interação de fortes correntes sobre os recifes, a topografia está em um estado constante de fluxo e gera desenvolvimento de novos perigos para a navegação.

Fenômenos naturais

Para entender melhor aos fenômenos naturais mencionados por Castanhari no episódio, o Canaltech conversou com Allan Pscheidt, coordenador do curso de Ciências Biológicas do Centro Universitário FMU. À reportagem, ele explica que tornados e trombas d'água são fenômenos meteorológicos caracterizados por uma coluna de ar com ventos intensos (cerca de 119km/h ou mais) em movimento giratório ao redor do seu centro e alta capacidade destrutiva.

"Essa coluna se estende da base de uma nuvem cumulonimbus e toca a superfície terrestre e recebendo o nome tornado, ou a superfície da água e recebendo nome de tromba d'água. A coluna, devido ao movimento giratório e a velocidade dos ventos, pode desestabilizar aeronaves e embarcações que estiverem em contato, colocando em risco navios, aviões, helicópteros ou mesmo banhistas", explica o professor.

Fenômenos naturais como trombas d'água são grandes inimigos das navegações (Imagem: Espen Bierud/Unsplash)

Outra forma da ciência justificar esses mistérios por trás da região são as grandes bolhas de metano que saem de reservas no fundo do mar e chegam à superfície, derrubando barcos. O metano é um gás com efeito estufa cerca de 4 vezes maior que o dióxido de carbono e estudos paleoclimáticos indicam que, no passado, a liberação desse gás foi importante para alterar ciclos climáticos e extinguir espécies, estando diretamente relacionado com o aumento das temperaturas do planeta.

O professor Allan conta que, ao longo de milhões de anos, toda a matéria orgânica em decomposição no assoalho marinho produziu metano. Esse metano é utilizado como fonte de energia por bactérias metanófilas e outros organismos em regiões profundas, como uma resposta evolutiva ao material disponível nessas regiões. "Com o tempo, processos de movimentação do assoalho e sedimentação originaram reservatórios de petróleo e gás natural formando bolsões subterrâneos abaixo do oceano. A formação desses bolsões de metano está intimamente relacionada ao passado do planeta e os ciclos de carbono com o aquecimento e esfriamento do planeta ao longo das eras", acrescenta.

Allan ainda explica que terremotos e outros movimentos causam fraturas no assoalho e o escape de fluidos origina crateras circulares ou pockmarks em todo o mundo. De acordo com ele, a liberação do metano também está relacionada com a mudança do nível do mar que afeta a pressão submarina e o aumento da temperatura da água no fundo do oceano.

"Pockmarks que liberam metano ativamente possibilitam a formação de biofilmes de bactérias e, assim, fonte de alimento para a fauna marinha como mexilhões, molucos, vermes, corais etc., mas a liberação do metano em grandes quantidades pode contribuir significativamente para o aquecimento global, além de causar movimentos como deslizamentos submarinos alterando a geografia de diferentes regiões do globo", o professor inclui em sua explicação.

Mas e os desaparecimentos?

Os rastros dos navios podem estar no fundo do mar, numa profundidade ainda desconhecida pelo ser humano (Imagem: Alexandra Rose/Unsplash)

O que mais fortalece a crença de que o Triângulo das Bermudas está submetido a forças sobrenaturais é que simplesmente nenhum rastro foi encontrado. E parte disso pode estar relacionado com o fundo do mar. Na região, a profundidade chega a um nível em que nenhum ser humano conseguiu visitar por conta principalmente da pressão submarina. "O oceano é dinâmico e seus fluidos estão em movimento. O peso da coluna de água eleva a pressão hidrostática, com diminuição no volume e estado físico de alguns gases", aponta Allan.

Toda essa dinâmica é causada pela relação entre profundidade, pressão, densidade e temperatura e a sua compreensão é importante na medicina hiperbárica para mergulhadores e submarinos. O professor diz que, ao nível do mar, a pressão é de 1 atm ou uma atmosfera. Ao mergulhar, a cada 10 metros de profundidade a pressão aumenta em uma atmosfera pelo peso da coluna de água e assim sucessivamente.

"Como a pressão afeta os gases, a pressão submarina interfere nos bolsões de petróleo e gás natural, como o metano, armazenados no fundo dos oceanos, comprimindo esses gases em fissuras no assoalho. A alteração na pressão ou na estrutura origina crateras ou pockmarks", conclui o professor.

Apesar de atualmente termos certas respostas para o Triângulo das Bermudas, diferente da década de 1970, quando houve a maior repercussão em torno dos casos, é claro que ainda fica uma pulga atrás da orelha e aquela sensação de mistério. E por falar em mistério, a primeira temporada de Mundo Mistério está disponível no catálogo da Netflix em oito episódios.

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