Mundo Mistério | Episódio 2 faz pensar nas proporções de uma pandemia

Por Nathan Vieira | 30 de Agosto de 2020 às 18h00
Reprodução/Netflix, Edição/Canaltech
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Mais do que nunca, estamos compreendendo o conceito de pandemia. Foi no início de março que a COVID-19 começou a mudar radicalmente o nosso estilo de vida. Mas, obviamente, essa não foi a primeira vez em que uma pandemia tomou conta do mundo. Mesmo sem ter intenção, a série Mundo Mistério, protagonizada por Felipe Castanhari, do Canal Nostalgia, abordou em seu segundo episódio um tema que está sendo mais atual do que podia imaginar: a peste bubônica.

Não que a peste bubônica esteja causando estrago atualmente, mas é impossível assistir ao episódio e não relacioná-lo à pandemia que estamos vivendo atualmente.

"Os episódios foram temas que eu escolhi basicamente por amostragem do meu canal, sabendo que a minha audiência gostaria que eu fizesse um vídeo sobre, e temas que eu sei que teriam sinergia com a ciência. Então a gente tinha que passar pela ciência, os temas precisavam ser explicados pela ciência, esses mistérios, e cada um deles foi focado em mostrar ciência em um aspecto específico", conta Felipe Castanhari em entrevista ao Canaltech.

A Grande Peste

O segundo episódio de Mundo Mistério traz à tona a pandemia avassaladora que foi a peste bubônica, mais conhecida como Peste Negra (Imagem: Kuma Kun/Unsplash) 

Numa mescla entre animação, diálogos entre personagens e explicações científicas, o segundo episódio revisita a pandemia da peste bubônica, popularmente apelidado de "peste negra". Ela assolou a Europa, Ásia e Africa de 1346 a 1353 e foi responsável por tirar a vida de 75 milhões a 200 milhões de pessoas.

Na época, a peste bubônica foi levada de um continente a outro por meio das pulgas de roedores que viviam nos navios mercantes, e foi transmitida aos humanos por meio das picadas dessas pulgas. Especula-se que o contato direto com excrementos de roedores infectados também foi uma das prováveis causas.

Dentre os sintomas da peste bubônica estão febre, calafrios, fraqueza e dificuldade para respirar. Ainda assim, o principal sinal da doença é a formação de nódulos (chamados bubões, daí o nome) pelo corpo, além de necrose nas extremidades do corpo devido às endotoxinas bacterianas sobre os vasos sanguíneos, o que deixava essas áreas enegrecidas (daí o apelido "peste negra").

O período também ficou conhecido pelas vestimentas utilizadas pelos médicos. A máscara com formato de bico de pássaro armazenava um composto de ervas e aromatizantes na tentativa de proteger os médicos de uma substância que exala da matéria orgânica em decomposição e causa fortes odores.

De acordo com o Dr. André Ribas, epidemiologista da Faculdade São Leopoldo Mandic, a peste bubônica foi um divisor de águas na história da medicina por vários motivos: além do impacto que ela teve, que foi o mais importante em termos populacionais, demonstrou a importância da organização da saúde pública. "Foram as primeiras vezes em que se utilizou a quarentena como ferramenta de controle da introdução de novos patógenos, ferramenta que ainda é utilizada até hoje, além da questão da melhoria nas condições habitacionais como forma de controlar doenças. Tudo isso veio com o aprendizado da peste bubônica", conta o especialista ao Canaltech.

Ainda existe, mas sem pânico

A peste bubônica existe até hoje. Na verdade, é extremamente difícil que ela seja eliminada por se tratar de uma zoonose, ou seja, uma doença que se manifesta sobretudo em animais."No Brasil, ela foi introduzida através do comércio de navios com roedores que vieram; não é natural daqui, mas está bem localizada em algumas regiões de serra, no interior. A peste bubônica não é mais urbana, já está controlada", explica o epidemiologista.

Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, entre 2000 e 2018 houve entre 1 e 17 casos da doença por ano no país, sendo a taxa de fatalidade menor ainda. "Está controlada, mas não há meios de eliminá-la, porque é uma bactéria não muito patogênica para os roedores silvestres, então fica circulando entre as pulgas dos roedores. Ela não vai causar a proporção que já causou, porque não está mais nas cidades, e onde está, não tem muita população", diz Ribas.

"Não é um problema de saúde pública, mas deixar de existir... não vai. Quando a gente trabalha com zoonoses, poucas são as que conseguimos eliminar, principalmente as silvestres. O que podemos fazer é proteger a população humana".

COVID-19 x Peste bubônica

COVID-19 tem impacto na rotina das pessoas, mas não supera impacto numérico da Peste Bubônica por enquanto (Imagem: Gerd Altmann/Pixabay)

Questionado se a COVID-19 está caminhando para ter o mesmo impacto que a peste bubônica, o epidemiologista reflete o seguinte: "Eu não conheço doença na história da humanidade que tenha feito uma mudança tão intensa na rotina da população do planeta quanto a COVID-19. Apesar de ter morrido muito mais gente na época da peste bubônica, não se sabia exatamente qual era a causa, então não houve mudança nos hábitos".

Ele diz que a peste bubônica impactou a população trazendo fome e miséria, e foi um problema muito sério em termos de saúde pública, maior que a COVID-19 em termos numéricos. Apesar disso, a peste afetou a Eurásia e não chegou com a mesma força nas Américas. "A gente sabe como a COVID-19 transmite e teve que mudar toda a nossa forma de viver, de se relacionar com as pessoas. Então as consequências da COVID-19, sob este ponto de vista, foram mais intensas do que a peste bubônica e as epidemias subsequentes que aconteceram. Não em termos de número de mortes, logicamente".

Ribas ainda faz uma relação entre a COVID-19 e a Gripe Espanhola, causada pela influenza, em 1918.  A Gripe Espanhola acometeu a humanidade em várias áreas do globo. Basicamente, um terço da população mundial pegou esse tipo de influenza, que levou à morte de 20 milhões a  50 milhões de pessoas. Das 500 milhões de pessoas infectadas pela gripe, a taxa de mortalidade estimada era de 10% a 20%.

"Eu acho que por também ser uma doença respiratória, sua disseminação pelo mundo também foi bastante rápida. Provavelmente, na época sabia-se que a influenza era respiratória, e morreu mais gente do que na atual pandemia. Mas eu continuo acreditando que o impacto para a vida das pessoas está sendo maior na COVID-19", opina o especialista.

"O simbolismo e o impacto na sociedade pela Gripe Espanhola foi muito menor. Então acredito que as consequências do ponto de vista da organização da vida das pessoas, do dia a dia, está sendo maior agora do que foi a Influenza de 1918. Tem uma mobilização internacional, as pessoas fechando fronteiras. Não houve isso em 1918, não teve interrupções de fluxo de viagens, por exemplo. A percepção do risco que as pessoas estão tendo e da gravidade da situação está sendo maior do que todas as pandemias na história da humanidade", conclui o médico.

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