Host | 45 motivos que fazem terror gravado no Zoom ser um filme incrível

Por Laísa Trojaike | 22 de Agosto de 2020 às 23h00
Shudder

Precisamos lembrar que, quando alguém faz um filme, cada detalhe é pensado com cuidado e atenção. Cada elemento que compõe o quadro é planejado e, em um bom filme, nada está ali sem uma justificativa. Ao assistir Host, a sensação superficial é de que se trata de mais um filme de terror, com os mesmos recursos e clichês explorados inúmeras vezes por diversos filmes medianos. O fruto da pandemia, no entanto, não ousaria ser tão simples.

Muitos dos pontos abaixo podem parecer uma especulação grande demais, mas é preciso lembrar que toda obra de arte também depende dos conhecimentos e experiências do espectador, que preenche com essas informações as lacunas da arte e, nesse caso, do filme. Sinta-se livre para discordar de qualquer um dos pontos abaixo ou acrescentar nos comentários algo que você viu, mas não foi citado.

Atenção! A lista está repleta de spoilers.

1. Shudder

Imagem: Shudder

Além de ter distribuído um dos mais importantes representantes do formato found footage, Holocausto Canibal (1980), a Shudder é hoje a Netflix dos filmes de terror, com um catálogo que passa por uma curadoria rigorosa de especialistas do gênero. Host, produzido pela Shadowhouse Films, foi distribuído pela Shudder, o que já dá ao título um certo selo de qualidade (o que não significa que o espectador seja obrigado a gostar do que assistiu, claro).

2. Screenlife

Imagem: Shudder

Já vivemos uma vida online há um bom tempo, o que foi ainda mais intensificado com as redes sociais e o uso de smartphones. Na pandemia, em isolamento, as videoconferências se tornaram a única forma segura de reunir pessoas em um único espaço, que é justamente o virtual. O formato screenlife se difere do found footage por não ser um material de filmagem encontrada, mas sim um acesso direto aos personagens através das telas de seus computadores, celulares, tablets ou equipamentos semelhantes.

O screenlife é como se estivéssemos hackeando o computador de alguém apenas para bisbilhotar a conversa. Além de nos colocar como voyeur da situação, o screenlife é uma forma muito barata de se fazer cinema, porque dispensa uma série de aparatos técnicos como câmeras de alta qualidade ou trabalhos muito complexos de fotografia, ainda que existam grandes produções como o excelente Buscando…, o melhor representante do formato até o momento.

3. Fora do quadro

Imagem: Shudder

Quando estamos em uma videoconferência, queremos ver a pessoa que está do outro lado e, quando a tela está virada para um canto qualquer, é como se não tivesse nada para ver do outro lado, afinal, não estamos conversando com a casa da pessoa. O que é uma banalidade cotidiana se torna um elemento de tensão no screenlife: queremos ver o que está acontecendo com a pessoa, mas só temos acesso a ela através da câmera do seu equipamento.

Esse recurso aparece logo no início do filme, quando tudo ainda está tranquilo, para mostrar o recurso no seu formato mais banal e, depois, utilizá-lo em prol do terror.

4. Câmera na mão

Imagem: Shudder

Com o notebook ou outro equipamento na mão, o screenlife, assim como o found footage, permite que o filme adicione um elemento de ação ao filme, mesmo quando tudo parece monótono. Posteriormente, quando os fenômenos começam a se manifestar, esse recurso ajuda a dar intensidade aos acontecimentos.

5. Qualidade da conexão

Imagem: Shudder

Todos os que passaram por videochamadas ou videoconferências nesse isolamento provavelmente sofreram com a baixa qualidade do sinal ou da conexão em algum momento, o que causa o travamento da imagem ou do som. Essa é mais uma das características corriqueiras do formato que, inserido no filme, ajuda posteriormente a criar uma dúvida sobre as primeiras interferências da entidade maligna: foi um bug na imagem ou uma interferência sobrenatural? Além disso, as falhas ajudam a causar tensão mais adiante na narrativa.

6. Não precisa ser sobrenatural…

… para dar medo. Quem nunca achou bizarras as interferências que outros equipamentos causam nas chamadas?

7. Consequências do isolamento: Relacionamentos

Imagem: Shudder

Host, no futuro, será de uma nostalgia sombria que ainda não somos capazes de imaginar como será sentir. Um dos temas trazidos pelo filme é o dos relacionamentos que foram abalados ou terminados por causa da obrigatoriedade de um convívio intenso com o outro.

8. Consequências do isolamento: Reflexos físicos

Imagem: Shudder

Muitas pessoas relataram que, com o isolamento, a rotina da pele mudou, sobretudo com o abandono do uso diário de maquiagem, o que causou mudanças como o aumento da ocorrência de acne.

9. Consequências do isolamento: Grupos de risco

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O início do isolamento foi marcado por inúmeros vídeos de idosos que se recusavam a ficar em casa.

10. Filtros

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Nossa geração ficará marcada pelo uso dos filtros que colocam qualquer coisa nos nossos rostos por identificação facial e é um dos recursos que têm sido imensamente utilizados no tédio do isolamento. A ferramenta aparece com seu uso cotidiano no início, para depois reaparecer de forma bem mais assustadora.

11. Proteção de tela

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Essa é uma das melhores ideias de Host. A inserção da proteção de tela, que mostra a personagem saindo do banheiro, mexendo no quarto e voltando para o banheiro em loop infinito é muito bem utilizado mais adiante na narrativa. Aqui, é apenas diversão. Depois, será um dos momentos mais agoniantes do filme.

12. Cabelo

Imagem: Shudder

Meses de isolamento acabaram com os cortes de cabelo e forçaram as pessoas a improvisar penteados que as fizessem se sentir mais confortáveis com a sua aparência virtualmente.

Um adendo pessoal: comecei o isolamento com um sidecut roxo e terminei com um misto de mullets e Adamastor Pitaco loiro.

13. Terror clássico: objetos bizarros

Imagem: Shudder
Imagem: Shudder

Quando o personagem começa a mostrar os objetos bizarros que existem no local, surge uma de muitas homenagens aos ícones clássicos do terror. O espectador logo imagina, pela experiência com outros filmes, que esses objetos voltarão para assombrar o personagem. Um deles sim, mas o outro não, quebrando pelo menos metade das expectativas.

14. Pijamas

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Que atire a primeira pedra a pessoa que não passou pelo menos um dia inteiro de pijama durante o isolamento.

15. O pedido ignorado

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É um elemento comum do terror a inserção de uma mensagem que será obviamente ignorada. O que parece (e é) um clichê, também pode abarcar uma mensagem de tolerância: quando as amigas não levam a sério a sessão espírita, não somente o sobrenatural é desrespeitado, mas a própria amiga também é. O desrespeito com as crenças dos outros será um tema clichê do terror enquanto nós agirmos dessa forma, ou seja, os personagens fazem sentido porque refletem as atitudes dos espectadores. Se é clichê na tela, será que não é na vida também?

16. Digital versus analógico

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Com o surgimento das câmeras digitais, houve um tempo de resistência em que se dizia que só era possível capturar a presença de algo sobrenatural através de câmeras analógicas. Com um acesso cada vez mais reduzido a esse tipo de material, os espíritos foram obrigados a aparecer também nas câmeras digitais (invejosos dirão que a maioria é Photoshop).

Esse momento do filme é o encontro do novo com o antigo e, claro, a Polaroid será utilizada para tentar encontrar a entidade mais adiante no filme. Independente das crenças, a fotografia instantânea sempre foi um elemento muito charmoso dos filmes de fantasmas.

O momento da foto retrata ainda outra grande saudade do período de isolamento: beber com os amigos.

17. Seylan, a médium

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Seylan Baxter convence muito como médium e ajuda a diminuir um pouco da comicidade da ideia de fazer uma sessão espírita via internet. Atriz experiente, com passagem por filmes como Macbeth: Ambição e Guerra e séries como Doctor Who, Seylan foi uma escolha sensata para adicionar veracidade a Host.

18. Momento Cemitério Maldito

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19. Zoom

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O Zoom foi a primeira plataforma de videoconferência a viralizar no início do isolamento, indo de um aplicativo conhecido por poucos a um dos mais utilizados em pouquíssimo tempo.

20. Cânone próprio

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A princípio, esse comentário parece desnecessário, já que sabemos que as coisas logo vão começar a desandar, mas ao inserir essa informação, Host cria um cânone inédito e específico para invocação de espíritos via internet.

21. Interrupções inesperadas

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Com todo mundo em casa, tornaram-se comuns também as interrupções inesperadas, seja por parte das crianças, dos demais familiares, amigos ou pets. E claro que o pior momento para acontecer isso era no meio de uma sessão espírita online.

22. Sinais

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Ignorar os primeiros sinais ajuda na construção da tensão. Além disso, como se trata de uma videoconferência, é mais fácil aceitar que qualquer coisa que apareça na tela seja algum tipo de reflexo, interferência ou bug.

23. Sombras

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A iluminação de baixo para cima no rosto é uma imagem clássica da contação de histórias de terror, enormemente reproduzida em tom de comédia, sobretudo em sequências de contos de terror em acampamentos, quando alguém usa uma lanterna para gerar esse efeito. Aqui, essa imagem ganha uma versão mais sofisticada, com a vela projetando uma sombra no rosto da personagem que lembra (mesmo que não intencionalmente) as sombras, os contrastes e as maquiagens do expressionismo alemão, um dos avôs do terror no cinema.

Se quisermos especular ainda mais, podemos nos questionar sobre o porquê de a iluminação do quarto ser azul e, embora possa ser um recurso puramente estético, não deixa de remeter aos filmes de Dario Argento, que inundavam os ambientes com cores sem justificativa fotográfica aparente no quadro.

24. Previsível?

Imagem: Shudder
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Ao pedir um sinal da entidade, ouvimos uma batida, que inicia o clima de terror com mais intensidade, para logo em seguida ser quebrado pelas interrupções comuns ao home office (péssimo para o trabalho de uma médium). Era só alguém batendo na porta.

25. Carrie, é você?

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Intencional ou não, a escolha da atriz Caroline Ward e o efeito da iluminação em seu rosto, sobretudo no nariz, criam na personagem uma sutil semelhança com Sissy Spacek, que interpretou Carrie na cultuada adaptação do livro de Stephen King dirigida por Brian De Palma, o Carrie, a Estranha de 1976. A referência é acentuada posteriormente, quando a personagem aparece com o rosto completamente coberto de sangue. Além disso, a personagem aparece muitas vezes com as mãos na cabeça, o que pode ser também uma alusão aos poderes telecinéticos de Carrie.

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26. Tensão

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No terror, o tempo é essencial. A saída de Saylan, apesar de ter sido uma quebra de tensão, volta a se tornar tensa pelo tempo que a personagem demora para retornar. Como o diretor Rob Savage lida com o tempo em todo o filme é uma das principais qualidades da sua direção.

27. Jump scare

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O jump scare é uma técnica utilizada para causar sustos no espectador através da mudança abrupta de imagem e/ou inserção de um som alto e súbito. Nosso corpo muitas vezes reage automaticamente a esse recurso, mesmo quando prevemos que ele pode acontecer. Não funciona sempre com todo mundo, mas é um recurso fácil e comum no terror. Em muitos filmes, sobretudo naqueles que se levam mais a sério apesar de um roteiro ruim, o recurso soa chato e repetitivo. Em Host, no entanto, dado o tom despretensioso do filme, isso se torna apenas mais um elemento que pode ou não funcionar, mas que é muito bem utilizado pela direção.

28. Crime...

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Nos filmes de terror é comum que a pessoa incrédula seja a primeira a ser atingida, como uma espécie de castigo pelo seu ceticismo. A mentira de Jemma brinca com essa “regra” bastante desgastada.

29. … e Castigo

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A médium avisa que o sinal sobrenatural pode vir através da vela, que pode tremular sem justificativa aparente. É justamente quando ninguém está vendo, que a vela de Jemma se apaga, o que é um spoiler do próprio filme de que ela não irá sobreviver.

30. Começou!

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A primeira intervenção sobrenatural surge em um momento inesperado, quando estamos preocupados em tentar distinguir o que as personagens estão falando, já que a discussão fez com que falassem simultaneamente. O arrastar da cadeira não é exatamente assustador, mas marca o início do que, posteriormente, será uma série de mortes.

31. O comum transformado

Imagem: Shudder

Com as atividades paranormais acontecendo em ritmo acelerado, pois aos poucos todas as personagens acabam assombradas, a câmera na mão e os acontecimentos fora do quadro se tornam um dos principais elementos de tensão de Host. Esse recurso é repetidamente usado ao longo do filme, então não irei citar todas as vezes em que ele surge.

32. Sótão

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Outro elemento comum no terror é o uso do sótão. É lá que as bizarrices mais tensas costumam acontecer.

33. Digital também funciona

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Com a câmera do computador voltada para o interior do sótão, Caroline não vê o que apenas a câmera pode captar: uma aparição. Assim, Host admite no seu cânone que os espíritos não têm preconceito com tecnologia.

34. Luz

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Infelizmente, não ligar as luzes continua sendo uma estupidez comum aos personagens de filmes de terror.

35. Digital funciona, mas…

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… não tem o mesmo charme de uma Polaroid que demora alguns segundo para revelar o que está por perto. Em termos de utilidade, digital e analógico saem empatados, mas em termos de tensão, o analógico vence fácil.

36. Subtexto

Imagem: Shudder
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Imagem: Shudder

Com o isolamento também se intensificou o uso de redes sociais, o que sabemos não transmitir a verdade sobre a vida das pessoas. Quais são as consequências de criar algo que não existe?

37. O tal protetor de tela

Imagem: Shudder

O uso desse recurso também parece ser inédito, para ocultar o que está acontecendo com a personagem. Posteriormente, quando descobrimos que ela na verdade está batendo o rosto contra a sua vontade no teclado do computador, a agonia é maior se lembrar o tempo que ela pode estar passando por isso, já que a proteção de tela estava ativada há bastante tempo. Esse elemento traz uma pitadinha de body horror para dentro de Host.

38. Detecção facial

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O recurso que possibilita a detecção das nossas faces, também permite o uso de filtros nas entidades, o que entra para o cânone de Host. Esse é outro dos melhores momentos do filme. Em termos de uso de tecnologia, esse ponto lembra bastante Atividade Paranormal 4, em que é possível ver a entidade através do mapeamento feito pelo Kinect do Xbox 360.

Essa ideia foi, provavelmente, inspirada em acontecimentos reais:

39. Por falar em Atividade Paranormal…

Imagem: Shudder

No primeiro filme da franquia Atividade Paranormal, os personagens também utilizam farinha (ou algo assim) para detectar os passos de algo invisível, o que é utilizado com originalidade quando, logo em seguida, a criatura invisível passa a deixar rastros no chão.

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40. Não mostrar

Imagem: Shudder

Não mostrar a personagem morrendo não é somente um corte significativo nos custos do filme e no tamanho da equipe necessária (lembrando que o filme foi realizado em isolamento), mas também absorve um dos maiores ensinamentos do gênero, explorado por grandes obras, como as de H.P. Lovecraft e Tubarão, de Steven Spielberg: o que não podemos ver nos causa mais medo.

41. Use máscara

Imagem: Shudder

O isolamento ficou marcado também pelo uso de máscara e, como a pandemia ainda não acabou, Host foi muito inteligente ao mostrar a personagem decidindo sair de casa em meio a uma situação paranormal fatal, o que daria justificativa o suficiente para que ela saísse correndo sem se preocupar com nada além da amiga. Host, no entanto, mostra Jemma colocando a máscara: o demônio pode ser terrível, mas não o suficiente para se arriscar a uma infecção por COVID-19.

Esse é um dos meus momentos favoritos de Host, justamente porque alerta para a mortalidade do novo coronavírus de uma forma tão sutil e eficaz que eu poderia chamar de bela se não envolvesse uma tragédia real.

42. A Bruxa de Blair

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Emma desde o início aparece enquadrada mais abaixo na tela e, posteriormente, está sob um cobertor chorando enquanto tenta se comunicar com as amigas que estão morrendo uma a uma. É justamente essa imagem da Emma, com os olhos cheios de lágrimas e próxima da câmera, que está no cartaz de Host e essa é, provavelmente, a referência mais óbvia: A Bruxa de Blair, cujo cartaz traz a protagonista em uma situação bastante semelhante. O screenlife deve muito ao formato found footage e, como A Bruxa de Blair é o título mais reverenciado desse estilo, a homenagem é muito mais que bem-vinda.

43. Black Lives Matter

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Quando o mundo achava que já era demais ter que lidar com uma pandemia, surgiu também o caso George Floyd e o silêncio foi rompido nas manifestações Black Lives Matter. O jump scare causado pelo grito da entidade que, aqui, adquire a forma de uma pessoa negra, não é a toa. A crítica social é intensificada se prestarmos a atenção na direção de arte, já que Alan parece estar em alguma espécie de fazenda com muitos artefatos antigos e que remetem ao período escravocrata dos EUA. Justiça histórica seja feita.

Vale lembrar que a entidade assume diversas formas ao longo do filme e que o conceito de assombração também é ligado a narrativas de vingança, quando alguém que sofreu muito volta para se vingar do agressor.

44. Não interrompa as lives alheias

Imagem: Shudder
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Na fazenda, a primeira a morrer é justamente a pessoa que interrompeu a live e quebrou o círculo imaginário criado a pedido da médium. Não é a toa que ela morre enforcada e não é apenas pela história de Jemma que uma forca aparece logo em seguida: quatro homens negros foram enforcados nos EUA em junho, na época em que estava acontecendo o levante antirracista no país.

45. O fofo assustador

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Boo!

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