Crítica | Você Nem Imagina mostra como o amor está tão pertinho

Por Sihan Felix | 06 de Maio de 2020 às 20h00
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Comédias românticas e romances em geral estão, geralmente, fadados aos clichês. Quase tudo que é lançado tem sabor de déjà vu, porque, na verdade, realmente já foi visto. Por outro lado, muitas vezes isso não é ruim. Parar para assistir a um filme que somente aqueça o coração sem fazer muita força, usando de toda previsibilidade possível, pode ser reconfortante. Especialmente quando se é adolescente, abraçar o que os hormônios querem pode fazer chorar – e, a partir desse choro, existir um pequeno passo rumo ao amadurecimento – e pode, também, confortar ao confirmar que tudo é exatamente como se havia pensado.

Outros filmes, porém, utilizam os clichês para desafiar essas mesmas perspectivas. Você Nem Imagina (disponível na Netflix) parte justamente de uma premissa pouco original, mas que é desenvolvida com uma sensibilidade enorme e uma sensatez que parece desafiar padrões, desmistificar questões e, em meio a tudo isso, enriquecer uma época da vida em que podemos saber de nada e de tudo ao mesmo tempo.

Cuidado! A crítica pode conter spoilers!

O quanto as pequenas coisas podem significar

A introdução do filme, nesse sentido, é extremamente simbólica ao resumir e uniformizar praticamente todo sentimento de amor possível na adolescência. Abrindo com uma frase de Platão, que diz “Amor é apenas o nome do desejo e da busca pelo todo”, a roteirista e diretora Alice Wu (de Livrando a Cara, 2004) já trata de reverter o simbolismo mais conhecido do narcisismo – com uma das metades se afogando não por se apaixonar por si, mas em um ato metaforicamente violento de perder as esperanças em encontrar a alma gêmea.

Na esperança de encontrar a alma gêmea. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Wu, inclusive, demonstra uma consciência de unidade fundamental desde esse princípio ao abrir o filme com uma frase alheia – algo que viria a ser um foco narrativo – e dar vasão à criatividade e ao desespero por meio de símbolos tão escolares, como o caderno que praticamente é feito de diário e que também é utilizado para pinturas quase introspectivas, como uma flor solitária – que, assim como os pensamentos de terceiros, também surgiria mais à frente como uma alegoria ao quanto pequenas coisas podem significar tanto: "É uma bobagem que fiz na minha viagem."

A flor solitária na abertura do filme. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)
"É uma bobagem que fiz na minha viagem." (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

É interessante como a roupagem de clichê de comédia romântica teen é a base da construção de um trabalho quase subversivo e, até por isso, revela-se mais real e menos sonhador do que muitos filmes do gênero e do subgênero. Enquanto existe a manutenção da personagem sem amigos que é nerd (Ellie Chu – interpretada por Leah Lewis), também existem Aster Flores (Alexxis Lemire) – que é aquela que todas querem ser (como a líder de torcida de outras produções) – e Trig (Wolfgang Novogratz), o bonitão convencido.

Em meio a esses estereótipos, ainda surge Paul (Daniel Diemer), o moço aparentemente pouco inteligente, mas simpático e de grande coração, que acaba por se tornar o símbolo mais claro das quebras de clichês pretendidas por Wu ao se tornar o mais popular jogador de futebol americano da escola – o que não é, na verdade, solto na história, visto que Paul parece ter ganhado fôlego para seu touchdown ao seguir Ellie e sua bicicleta quase que diariamente por semanas.

Ellie e Paul. (Imagem: Netflix)

O que importa

Com tudo isso, Wu consegue fundamentar seus protagonistas (Ellie, Paul e Aster) através de suas famílias, carregando-os com um peso dramático totalmente fora da curva. Não existem, para Wu, hormônios da adolescência que são superiores ao meio – e, nesse meio, nada é mais forte do que a estrutura familiar e, consequentemente, a cultura na qual se está inserido. É quase como se o pensamento mais conhecido do filósofo Jean-Jacques Rosseau estivesse abraçando o trio: “O homem é bom por natureza. É a sociedade que o corrompe.”

Por esse ponto de vista, Ellie comporta uma carga gigante para os moldes de um filme americano lançado com expectativa de alcançar grande público: ela é chinesa, lésbica e, apesar de centrada à primeira vista, tem o peso de cuidar de um pai depressivo, trabalhar em uma estação ferroviária e concentrar dentro de si a ausência da mãe. Por sua vez, Aster nunca é tratada como somente a mais bonita: ela acaba por se transformar no oposto do clichê. O que importa é “como os olhos dela penetram os seus, como ela mexe no cabelo enquanto lê, como o riso dela explode sem querer e ela deixa de ser tão perfeita por alguns instantes...”

O que importa... (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

O amor sempre esteve pertinho

Mas Você Nem Imagina não é, apesar de tudo, somente uma grande utilização de clichês para quebrar os próprios clichês. Trata-se de um filme trabalhado cena a cena, plano a plano, ângulo a ângulo, com todo o carinho possível. Se, narrativamente, tudo se encaixa desde a abertura, Wu demonstra um domínio estético tão competente quanto. Isso pode ser mais claro em algumas cenas, como quando, pessoalmente, existe uma desconexão entre Paul e Aster e o que se vê é sempre um esquema de plano e contraplano, com os personagens expostos juntos somente quando existe alguma sintonia entre eles – em uma dessas cenas é a visão de Ellie que separa o casal aliás. Dentro desse contexto, a sintonia entre Ellie e Aster, por sua vez, é total até mesmo quando Wu utiliza um ponto de vista god’s eye view (que simula como se fosse o olhar de Deus): ambas unidas pela imagem, mas, ironicamente, separadas pela orientação sexual.

A visão de Ellie sobre Paul. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)
A visão de Ellie sobre Aster. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)
God's eye view sobre Aster e Ellie. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Essas escolhas imagéticas tão delicadas de Wu, inclusive, podem dar uma sensação de que falta respiro ao filme. Algumas cenas – como a que Ellie, após alcançar o máximo do seu panorama amoroso, sobe em sua bicicleta e é exposta em contra-plongée (de baixo para cima) para engrandecer a sua felicidade naquele momento – talvez pudessem ser mais demoradas para que nós pudéssemos internalizar aquele sentimento tão bonito e, de repente, até refletir por alguns segundos; até porque a delicada música de Anton Sanko (de Amanda, 2018) teria todo potencial para auxiliar nessa relação entre espectadores e filme.

A felicidade de Ellie. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

A questão é que, no final das contas, por mais que o amor possa ser violento – especialmente para alguém em formação –, ele também é o guia das histórias mais expressivas. Se os gregos antigos não iam ao colégio, pode ser que eles estivessem certos em um ponto fundamental: o amor sempre esteve com a gente. O problema é que, quando houve a divisão feita pelos deuses, passamos a procurar a nossa outra metade nos outros quando ela estava bem pertinho, por dentro. Não se trata de um sentimento narcisista, mas sim de entender que, para conseguirmos amar alguém, precisamos, antes, sermos inteiros. Do contrário, o que pode existir é uma relação de dependência. E Ellie, provavelmente, descobriu o quanto é bom poder ser quem é – independente de raça, crença, orientação sexual e passado – e o quanto, sendo a si mesma em totalidade, ela pode amar.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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