Para Todos os Garotos: P.S. Ainda Amo Você é açúcar na mesinha de cabeceira

Por Sihan Felix | 15 de Fevereiro de 2020 às 12h12
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Pode ser difícil testemunhar a inocência em um mundo avesso a ela. Tudo fica fofo demais, doce demais e, de algum modo, irreal demais. Por outro lado, se é justamente inocência que às vezes parece faltar, ter um cantinho para se recolher e, afinal, querer e poder liberar fofura e brincar de contos de fadas pode ser um escape muito válido. Para Todos os Garotos: P.S. Ainda Amo Você (disponível na Netflix) é, dentro dessa visão, uma sequência que faz jus ao anterior: romantismo kitsch, fábula despreocupada com a realidade e que, nessa fuga, acaba por ser – como o primeiro – uma espécie de filme de cabeceira para quem está na fase provavelmente mais cheia de amores platônicos da vida: a adolescência.

Cuidado! A crítica pode conter spoilers!

Fuga da realidade

Enquanto Para Todos os Garotos que Já Amei (de Susan Johnson, 2018) trata sobre a busca do amor, algumas das missões que são realizadas para a efetivação (ou não) de uma felicidade depositada no outro, o filme em questão (dirigido por Michael Fimognari – em debute na função) parte para os tropeços e as dores. Desse jeito, o filme de Fimognari tenta desmascarar alguns dos baques sofridos por amor quando se é adolescente e como, às vezes, é necessário experimentar obstáculos no caminho para lidar com a estrada.

As intenções são excelentes, mas, apesar de o filme ter um universo próprio, há uma superficialidade constante que pode fazer com que parte do público não compre o que se passa. E tudo isso ainda acaba por revelar um tipo de voto de castidade do roteiro (de Sofia Alvarez e J. Mills Goodloe – do antecessor e de Depois Daquela Montanha respectivamente) contra a realidade: “[...] porque tudo o que aconteceu nos trouxe até aqui.”, comenta Lara Jean (Lana Condor) em uma de suas últimas falas sobre Peter (Noah Centineo). A verdade é que esse tudo foi praticamente nada até ali e, no final das contas, acaba por transformar comportamentos necessários de mudança em algo para se acostumar – o que é a base de muitos dos abusos ocorridos dentro de casa.

"[...] porque tudo o que aconteceu nos trouxe até aqui." (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Mas a ideia é, de fato, fugir da realidade. Percebe-se, nesse sentido, como todos os adultos funcionam em comunhão. A vida ao redor dos adolescentes é algo perto de perfeita, somente com fatos tristes do passado tendo algum poder em influenciar o presente. O pai de Lara Jean (Dr. Covey – interpretado por John Corbett), por exemplo, está sempre sorrindo e, ao flertar com Trina (Sarayu Blue) como se fosse um adolescente, apenas corrobora o quanto o mundo de Para Todos os Garotos: P.S. Ainda Amo Você faz parte de uma consciência estabelecida, criada por Alvarez, Goodloe e pela direção de Fimognari.

Dr. Covey, sempre sorrindo ao flertar com Trina. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Açúcar na mesinha de cabeceira

Fiel ao conceito de construir uma realidade, Fimognari acaba por garantir a identificação do público adolescente. É uma direção inteligente nesse sentido, que entende o filme como sendo para um público nichado. Justamente por tudo isso, a montagem de Joe Klotz (de Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe) aposta em uma quase aleatoriedade de planos, fazendo com que cada corte não conduza exatamente o ritmo, mas ceda alguma sensação de incômodo – por mais que esse incômodo possa passar conscientemente despercebido. Isso, por si só, garante a questão de ser-adolescente na percepção do filme, com suas mudanças bruscas de humor, de direção; com os hormônios quase que regendo a vida em detrimento da racionalidade.

Para Todos os Garotos: P.S. Ainda Amo Você pode não alcançar muito e ficar, de fato, celebrado somente pelo seu nicho. Se, por um lado, não seja saudável ao ceder argumentos e situações inválidas para uma vida que está muito longe de ser uma fábula romântica – ainda mais para mentes em formação e definição –, por outro tem a sua validade, trazendo um pouco de ingenuidade e doçura a uma realidade que exige consciência adulta a quem não tem nem consciência sobre seu próprio corpo.

Um pouco de ingenuidade e doçura... (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Na verdade, trazer um pouco de ingenuidade e doçura é o mais completo eufemismo. Porque o filme é uma calda de caramelo cobrindo um pastoso doce de batata doce com um toque de creme chantili e leite condensado. Para quem a vida está amarga, para quem a vida salgou ou para quem gosta tanto de sentir a sacarose, deve ser um filme-sobremesa a ser provado... e, aguentando tanto açúcar, a deixar na mesinha de cabeceira.

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