Crítica | Um Estranho no Ninho continua atual contra um mundo estéril

Por Sihan Felix | 17 de Setembro de 2020 às 09h19
Warner Home Video

Com a série Ratched prestes a estrear na Netflix, Um Estranho no Ninho volta a ser um filme atual. Mas não que o tempo tenha roubado a sua contemporaneidade. Lançado em 1975, o filme de Milos Forman (de Amadeus — amplamente considerado sua obra-prima, de 1984) acompanha um criminoso que, alegando insanidade, é internado em um hospício. No local, não demora para que haja uma união entre os pacientes assustados contra uma enfermeira opressora.

Essa enfermeira, interpretada na época por Louise Fletcher, é justamente quem dá nome à produção a ser lançada pela Netflix no próximo dia 18 de setembro (2020). Acontece que, no filme, que é baseado no best-seller homônimo de um romancista emblemático da contracultura americana, Ken Kesey, as situações protagonizadas por R.P. McMurphy (Jack Nicholson) desenhavam um panorama social a partir do isolamento de um hospital psiquiátrico.

Um Estranho no Ninho, por mais que esteja completando 45 anos, pode parecer ainda mais relevante se levarmos em consideração o que nem existia em sua época. A escrita de Kesey e o tratamento dado por Forman transformam o filme em um tratado atemporal. Sendo assim, escrever sobre ele após quase meio século pode ser mais válido se for exposta uma possível visão do hoje sobre as pouco mais de duas horas de duração.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

Doentes e enfileirados

A questão é que vivemos em constantes revoluções e amadurecimento enquanto sociedade, mas dificilmente de maneira uniforme. Isso porque são as regressões e os conformismos que despertam as subversões necessárias para outro nível de maturidade. Nesse sentido, a personagem de Nicholson é a representação da inconformidade, alguém que vê, praticamente em um universo paralelo, uma rotina doente, estática, sem chances de reviravoltas. Ele, portanto, é o motor da mudança.

McMurphy, a inconformidade. (Imagem: Warner Home Video)

Ratched, por outro lado, é o próprio status quo, é a manutenção de um presente invariável, imutável, obrigatoriamente passivo. No macro, há uma relação muito potente na obra de Kesey entre o quanto estamos sujeitos a seguir ordens se existe um mínimo de bem-estar. Esse vício, assim, pode ser desconstruído por alguém alheio ao sistema. Por essa perspectiva, uma relação clara entre uma falsa entrega que acabamos nos submetendo está nas redes sociais. Existe uma revolução proporcionada pela internet que, na verdade, funciona dentro de bolhas, tornando quase toda revolta cômoda demais, cheia de reclamações que podem ser profundas, mas podem também ser vazias de alcance e, consequentemente, comentários que pouco (às vezes nada) acrescentam em direção a mudanças de fato.

Ratched, o status quo. (Imagem: Warner Home Video)

Inclusive, isso já é sabido por muitos de nós, o que faz essa nossa relação com a internet poder ser tomada como um paralelo à rotina dos internos comandados pela enfermeira Ratched. É algo tão amplo e tão profundo, que essa nossa Matrix (só para usar outra relação fílmica) acaba por ser a forma que lidamos com o mundo virtual. Este (o mundo virtual) é o medicamente que, de certa forma, mantém-nos na linha, enfileirados, em nossas bolhas, alheios ao protagonismo de mudanças efetivas e necessárias.

A luta é diária

De maneira mais direta, existem outros trabalhos que lidam com um material semelhante. Na música, por exemplo, Another Brick in the Wall, da banda Pink Floyd, lançada em 1979 (quatro anos depois de Um Estranho no Ninho) é de um simbolismo concreto demais para ser escutada ou lida de maneira superficial. E o mesmo para todo o álbum The Wall da banda britânica. As artes, da literatura ao cinema, do cinema à música, estão sempre funcionando como os próprios meios revolucionários, para que nós possamos abrir os olhos e enxergar ao redor. Elas (as artes) são como McMurphy, a pedra no sapato de um mundo sedado demais para conter o avanço do mal.

Um Estranho no Ninho, enfim, é atual porque a luta contra a opressão é diária desde sempre. Basta fecharmos os olhos para que a queda em um mundo estéril como o branco claustrofóbico do hospício se torne quase instantânea. E, como mundo estéril, leia-se sem pensamentos próprios, sem subjetividades, sem sonhos, sem liberdade, sem artes e, consequentemente, sem vidas individuais.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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