Crítica | Tudo ou Nada: Seleção Brasileira força o drama e conta pouco

Por Douglas Ciriaco | 12 de Maio de 2020 às 22h00
Divulgação/Amazon Prime Video

Assistir à série Tudo ou Nada: Seleção Brasileira (do Amazon Prime Video) reforçou em mim uma impressão que tenho há tempos: anda difícil me reconectar com a Canarinho. Programa documental em cinco episódios, ele acompanha os bastidores da trajetória do Brasil rumo ao nono título da Copa América, em 2019, aqui mesmo em nosso país.

O programa consegue manter um ritmo bom do ponto de vista de narração dos fatos, mas se perde um pouco na hora de florear, digamos assim, a saga de seis jogos que devolveram ao Brasil a taça do torneio continental não vencido pela Seleção desde 2007. E isso tirou um tanto do prazer de ver o documentário.

O tempo todo ao longo da série eu me perguntava das razões para tal produção existir de fato. Isso porque sobram forçadas de barra, faltam grandes triunfos e permanece a sensação de uma coleção de sensos comuns sobre o país, a bola e a Seleção que por vezes Tudo ou Nada: Seleção Brasileira se parecia apenas com um vídeo institucional que deveria ter sido publicado no canal da CBF no YouTube.

Fosse qualquer outra seleção sul-americana a campeã, teríamos um programa muito mais relevante sobre o torneio. A Argentina acabaria com o jejum de quase 30 anos sem títulos; o Uruguai ampliaria sua vantagem como maior vencedor do torneio; a Bolívia encerraria um jejum de quase 60 anos sem vencer a Copa e o Chile repetiria o feito argentino e se tornaria o segundo tricampeão consecutivo do torneio centenário. Qualquer um desses geraria uma história mais interessante de se acompanhar do que a Seleção Canarinho.

Isso porque, convenhamos, apesar de o título simbolizar uma possível retomada de hegemonia do Brasil no continente, vencer a Copa América parece ter servido apenas para garantir o emprego do Tite — o treinador chegou ameaçado, com o time sob desconfiança e abalado por problemas extracampo de Neymar, seu principal jogador.

E mesmo a retomada de certa confiança da Seleção, especialmente após o corte do lesionado Neymar, não parece ter sido suficientemente bem explorada. O excesso de artificialidade mata qualquer possibilidade de deixar aquilo mais emocionante e passional, sentimento intrínseco à bola. Some-se aí a forçação de dramas que não existem (como no caso do pênalti perdido por Gabriel Jesus contra o Peru, no fim do jogo, quando a Seleção já vencia o adversário por 5-0) e temos um cenário ainda mais enfadonho.

A campanha do Brasil foi bem melhor do que o seriado (Imagem: Lucas Figueiredo/CBF)

As narrações fakes sobre os lances das partidas (mesmo que do grande José Silvério) e os programas de rádio que fingem ser reais prejudicam ainda mais a experiência, sem contar as tomadas em áreas de periferia do Brasil, repletas de personagens que sequer são nomeado e parecem estar ali apenas para cumprir o clichê — lembrando que este é um produto da Amazon disponível em todo o mundo.

Um gol de honra

O melhor episódio é o que trata da semifinal do torneio, quando o Brasil derrotou a Argentina por 2-0. O duelo confirma a ótima campanha brasileira no torneio e reforça a importância da disputa para os brasileiros, algo muito bem retratado na série com depoimentos precisos e uma série de imagens históricas do embate que enchem de saudade qualquer amante do futebol. Para quem quiser ver apenas o que importa, este é o quarto episódio.

Mas ele acaba e mesmo o triunfo na final não parece suficientemente apoteótico. Quem sabe a fala de Dani Alves, já nos vestiários, seja o ápice do quinto capítulo, e mesmo assim tudo parece um tanto sem sal. Terminar o último episódio e, portanto, a série Tudo ou Nada: Seleção Brasileira foi um alívio. Parece que uma reportagem de 15 minutos em algum programa esportivo dominical teria dado conta de transmitir a ideia do documentário na medida certa, sem muito espaço para pesar no drama sem sentido e com um rigor mais apurado.

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