Crítica | Nomadland diz respeito à maioria de nós

Por Sihan Felix | 14 de Fevereiro de 2021 às 15h00
Divulgação/Searchlight Pictures

Na maioria das vezes, os filmes têm tentado fisgar o público somente por meio de suas histórias. A necessidade excessiva de se ter algo para contar acaba transformando o cinema em uma espécie de livro ilustrado. Fica, portanto, a habilidade de contornar esse estigma sob responsabilidade da direção, que pode dar uma vida muito própria ao roteiro. Chloé Zhao, assim, não dá somente vitalidade para Nomadland, ela dá uma alma.

A diretora — que também escreveu o roteiro (adaptado de um livro de Jessica Bruder) e montou — está muito mais disposta a encarar a simplicidade desoladora das situações do que em criar qualquer exagero. Para tanto, a opção de trabalhar com não-atores, dando espaço para que Frances McDormand interaja com eles da maneira mais desafetada possível, é um passo para que as quase duas horas do filme recebam ares de neorrealismo italiano.

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Claro que isso não é uma escolha à toa. A vida de Fern (McDormand) e a história traçada por Bruder e Zhao encaixam-se nessa opção com perfeição inclusive temporal. Ao capturar o que é mais verdadeiro sem buscar disfarces, trazendo à tona tanto as pessoas — trabalhadores humildes em especial — quanto os cenários naturais, há, como na Itália da década de 1940, uma reação ao cinema contemporâneo que, massivamente, ataca com filmes que fogem totalmente da realidade, além de trazer um contraponto à estrutura político-social do momento.

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

Aquilo que a vida faz

Fern, que está sofrendo por uma vida que foi arrancada dela, parece fadada a estar sozinha. Perdendo o emprego após o fechamento da fábrica de gesso que viria a invisibilizar a própria cidade de Empire, ela acaba por ficar à mercê da sazonalidade de um trabalho na Amazon. Zhao, desde esse princípio, não está interessada em julgamentos ou em forçar dramaticidade. Ela busca algo mais verdadeiro.

Para alcançar esse objetivo, a diretora opta por uma linguagem que se aproxima de um falso documentário. Mas não é uma alternativa gratuita. O interesse dela (de Zhao) é que o seu público participe de cada acontecimento, que esteja junto à Fern, observando seus passos. Para tanto, a câmera proposta é, na prática, onipresente: percebe-se que existe esse olhar de intromissão ali, sendo este, no final das contas, o olhar do próprio espectador.

O olhar do espectador é de intromissão, de presença. (Imagem: Divulgação/Walt Disney Studios Motion Pictures)

Essa falta de distanciamento entre o que é filmado e para quem é filmado mistura as sensações de Fern à história contada com muita facilidade, fazendo com que, simultaneamente, sintamo-nos igualmente misturados. Em alguns momentos, a direção de Zhao foge dessa câmera-visão quase indiscreta para revelar o mundo, a natureza. São pequenos momentos que trazem um nível de sonho, de poesia, à Nomadland que vão se misturando à protagonista e a transformando naquilo que a vida fez dela.

A dureza de uma solidão forçada

Nada, porém, seria possível sem a grandeza de McDormand. A complexidade de sua personagem parece ser diluída em toda competência possível e existente. A inquietude de Fern é sutil por meio da proposta de Zhao e da sensibilidade da atriz. Ao mesmo tempo em que existe algum grau de autossabotagem em sua personalidade, há uma mulher forte e capaz de levantar a cabeça e ser uma força da natureza. Também, em meio a tudo, a mesma pessoa pode ser simpática e carinhosa quando ao conversar com um jovem solitário que encontra no caminho e firme quando ao pedir para ficar só. Nesse ponto, consegue plantar a admiração — romântica ou não — em um homem que, àquele momento, poderia ser tão solitário quanto.

McDormand em uma das melhores atuações de sua carreira. (Imagem: Divulgação/Walt Disney Studios Motion Pictures)

A força da atuação de McDormand é tanta que, através das lentes invasivas de Zhao, é possível compreender uma vida inteira em cada olhar e gesto. Em alguns momentos, pode ser possível sentir a implosão de emoções que tomam o corpo da personagem, com tudo encontrando uma válvula de escape nos olhares e em pequenas expressões. Para mais, a exposição dela em meio ao ambiente — como quando ao boiar nua em um rio ou ao encontrar árvores gigantes — recobre-a, justamente, com um manto natural.

Ainda, não é difícil que a história de Fern seja percebida como a de uma mulher que foi forçada a se desvincular da sociedade. Isso, para além da cidade abandonada após o fechamento da fábrica de gesso e da morte do marido — sobre quem ela fala com saudade —, é exposto pela partida dos demais nômades em suas vans, deixando-a sozinha novamente. Zhao, nesse momento é dura, inclusive, intercalando a sensação da personagem de McDormand com planos detalhes de cactos espinhosos e planos gerais daquele momento de solidão.

Momentos de solidão em meio ao nada. (Imagem: Divulgação/Walt Disney Studios Motion Pictures)

Uma luta ainda desigual

Do mesmo modo duro, a diretora demonstra a inquietude daquela mulher ao se ver retornando à vida conjunta, em uma casa. Ela, afinal, não é uma sem-teto, mas uma "sem-casa", como diz em uma cena. A solidão que a vida lhe impôs acabou se tornando seu lar e Zhao demonstra isso com planos e cortes certeiros. Seja ao mostrar Fern "enjaulada" atrás das grades de uma escada, seja ao cortar de uma galinha livre e "linda" (nas palavras da própria) para uma servida à mesa após a ida ao forno, tudo encaminha para o incômodo dela (de Fern) em perder novamente o que a vida lhe deu: uma solidão libertária. Esta, por sua vez, é exibida na sequência seguinte, quando a protagonista, sozinha, ganha a potência das ondas revoltosas de um oceano.

A solidão imposta é o seu lar. (Imagem: Divulgação/Walt Disney Studios Motion Pictures)

A questão, enfim, é que Nomadland é tanto a história simples de uma mulher que encara a solidão contada a partir de um olhar rico e com personalidade quanto a exposição de um contraponto político-social do momento no mundo. Fern pode representar tantos que, perdidos em um mundo desumano, não têm a chance de entender qual é o melhor caminho para sair ileso de uma luta contra a própria vida. De uma forma ou de outra, o filme é, se não uma obra-prima, um trabalho a não ser esquecido pelo tempo. Porque Fern, afinal, precisa encontrar eco na luta real contra uma estrutura que diz respeito a maioria de nós.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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