Crítica | Mulan é um filme 100% independente da animação

Por Beatriz Vaccari | 10 de Setembro de 2020 às 11h54
Divulgação/Disney

"Muitas lendas foram contadas sobre a grande guerreira Mulan, essa é a minha". É dessa maneira que o live-action Mulan começa a contar sua história, narrado pelo pai da personagem, Zhou (Tzi Ma). Dessa forma, já no início, o filme garante ao espectador que essa versão não será parecida com a animação de 1998, apesar de ser distribuída e produzida pelos mesmos estúdios.

Uma das grandes promessas da Disney para 2020 sofreu imprevistos em seu calendário por conta da pandemia causada pelo novo coronavírus, tendo a data de estreia adiada várias vezes e chegando até a ser removida do cronograma de lançamentos dos estúdios. Quando anunciado que o título seria disponibilizado diretamente no Disney+, plataforma de streaming da Disney, a recepção do público foi mista: alguns fãs lamentaram que não viveriam a experiência de assistir Mulan nas telonas, enquanto outros ficaram felizes pela espera finalmente ter acabado.

Uma coisa é fato: assim como Greyhound e Hamilton, o live-action de Mulan também merecia a oportunidade de ser exibido na grande tela dos cinemas. O filme teve um dos mais altos orçamentos dos estúdios (US$ 300 milhões), alcançando quase o mesmo orçamento de Vingadores: Ultimato, e, ao assistir a produção, cada centavo gasto é percebido. O filme não economiza nos figurinos, maquiagens e cenários; a cultura chinesa é valorizado na tela através de belas imagens e sofisticados detalhes.

Yifei Liu dá vida à Mulan no live-action homônimo (Imagem: Divulgação / Disney)

Apesar disso, o filme não traz as canções utilizadas na animação, Li Shang não faz parte da trama, nem o tão adorado dragão Mushu e Grilo que acompanham a heroína durante toda a história.

É inevitável assistir ao filme com uma opinião neutra sabendo dessas informações, principalmente quando os estúdios vendem o longa como um remake. Mas Mulan acaba surpreendendo justamente por conta das baixas expectativas do público. A história acaba sendo uma releitura da lenda de Hua Mulan, contada em poemas, músicas e até peças de teatro chinesas desde o século VI.

Cuidado! A partir daqui, o texto contém spoilers!

O filme introduz a personagem desde sua infância, mostrando Mulan ainda criança (interpretada por Crystal Rao, e quando adulta por Yifei Liu), quando já era ágil e habilidosa em artes marciais. Desde aquela época, a garotinha já recolhia olhares tortos e julgamentos sobre se comportar de uma maneira considerada inadequada para meninas. O filme não economiza em mostrar a cultura machista enraizada na sociedade, que dizia que a única honra que uma mulher traria à família seria com um bom casamento.

Mulan oferece ao espectador grande impacto visual (Imagem: Divulgação / Disney)

Diferente da personagem da animação de 1998, que só começa a explorar suas habilidades enquanto cumpre o treinamento de guerra sob seu disfarce, Hua Mulan já conhecia seu Chi (palavra usada para se referir à força interior), mas ele foi reprendido durante toda a sua vida.

Ao arruinar o encontro com a casamenteira da cidade, representantes do Imperador (Jet Li) anunciam a convocação de um homem de cada família para compor o Exército Imperial numa batalha contra os invasores Rouran, liderados pelo vilão Bori Khan (Jason Scott Lee) e a bruxa Xian Lang (Gong Li). Zhou, um respeitado ex-herói de guerra com uma perna ferida, se oferece, já que possui duas filhas e nenhum filho para ir em seu lugar.

O filme faz um ótimo trabalho visual em suas duas horas de duração, mas acaba pecando em algumas cenas que poderiam captar toda a emoção do espectador. Na parte em que Mulan decide se disfarçar de um jovem garoto e alistar-se no exército no lugar do pai, o conflito interno da personagem que acabara de arruinar o encontro com a casamenteira da cidade e que arriscaria a honra da família se sua falsidade ideológica fosse descoberta é mostrado de uma forma tão rasa e rápida que faz o espectador se perguntar se perdeu alguma coisa.

A vilã Xian Lang (Gong Li) é uma das novidades do live-action (Imagem: Divulgação / Disney)

As cenas seguintes de Mulan sob o disfarce do jovem garoto Hua Jun, acabam sendo divertidas por consequência da personagem tentando conviver no meio de outros homens. Como adiantado, Li Shang não faz parte da versão live-action do filme, porém seu personagem foi dividido em dois: o Comandante Tung (Donnie Yen) e o guerreiro Honghui (Yoson An), que acaba deixando subtendido ao espectador um interesse amoroso por Mulan.

As cenas no acampamento do exército chinês podem ser interessantes para os fãs da animação: Grilo acaba sendo adaptado para um dos personagens, que se torna amigo de Hua Jun/Mulan durante o treinamento para a guerra. Também há a canção I'll Make a Man out of You, que no desenho é cantada por Lee e acompanha toda a evolução de sua equipe. No filme live-action, por sua vez, alguns versos dela são adaptados para falas do Comandante Tung, deixando breves referências aos fãs.

Mulan sob o disfarce de Hua Jun (Imagem: Divulgação / Disney)

Yifei Liu protagoniza, mais tarde, a arrepiante cena em que Mulan decide por sua conta e risco abandonar o disfarce de Hua Jun e entrar na batalha contra os invasores Rouran, enquanto os guerreiros se enfrentam na neve. É nítido também como a personagem de Gong Li possui um peso na evolução da protagonista e de seu Chi, uma vez que a guerreira revela sua identidade após uma discussão em que a vilã Xian Lang insiste em dizer que Hua Jun mentia sobre quem ele era; e também no final, em que escolhe sacrificar a própria vida para que a China possa ser salva por uma mulher.

As cenas de luta, que compõem a maior parte do filme, valorizam os movimentos mais como uma arte do que uma batalha em si, levando o espectador até a esquecer que se trata de uma cena com violência. Isso pode se dar pelo fato dos produtores optarem não mostrar nenhuma gota de sangue, tentando segurar a classificação indicativa a fim de manter o filme na sessão de títulos infantis; ou também para simplesmente dar outro enfoque a essas cenas, dirigindo a atenção para a capacidade dos guerreiros e suas habilidades.

No final das contas, Mulan acaba sendo 100% independente de sua animação e é praticamente injusto chamar o longa dirigido por Niki Caro de remake. O filme é uma releitura da lenda da guerreira Hua Mulan com grande impacto visual e beleza estética, que mostrou não precisar das músicas cantadas ao longo da sua história, mas que mesmo assim não as dispensou totalmente, colocando o instrumental de Reflection em uma das cenas finais e Honor to us All enquanto a personagem se arruma para o encontro com a casamenteira.

Mulan serve com cenários e figurinos; o filme teve o orçamento mais alto de todos os remakes da Disney (Imagem: Divulgação / Disney)

Além disso, por mais que os fãs não tenham gostado da decisão dos produtores de removerem Li Shang da versão live-action, Yoson An acaba entregando um personagem extremamente carismático com Honghui, mas sua aparição como um possível interesse amoroso de Mulan acaba ficando dispensável e quase apagado diante do resto do filme. Grilo e Mushu também acabam ganhando suas adaptações sem que suas ausências façam muita diferença. O dragão tem seu lugar tomado pela Fênix, que ainda assim cumpre o papel de incentivar Mulan em cenas pontuais; já o Grilo acaba dando seu nome a um guerreiro do Exército Imperial, cujo destaque para os demais da equipe acaba sendo seu lado emotivo e preocupado com os amigos.

Mulan acaba sendo uma linda história sobre família, autoconfiança e construção da própria identidade, sem hesitar em construir críticas a costumes machistas em uma bela homenagem visual à cultura chinesa. Além de merecer ser visto nos cinemas, não é justo assisti-lo pensando na animação de 1998.

O filme faz parte do catálogo do Disney+, que chega ao Brasil em 17 de novembro.

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