Crítica | Mistérios Sem Solução intriga, mas não cativa

Por Laísa Trojaike | 06 de Julho de 2020 às 12h28
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O YouTube está cheio de canais que proliferam histórias sem desfecho, mistérios do cotidiano, acidentes, mortes, desaparecimentos, fantasmas, OVNIs e toda sorte de temas que mexem com o imaginário dos seres humanos. Esses canais, no entanto, apesar de atiçarem a curiosidade do público, geralmente entregam um material ruim, com provas pouco convincentes e narrações que saturam o ouvinte antes mesmo de entregar o clímax, que, por sua vez, geralmente é pouco impactante e à prova de descoberta, ficando claro que toda a cena pode ter sido facilmente criada por um grupo de adolescentes ociosos.

Mistérios Sem Solução abre mão do host que a antiga série tinha e, com isso, dá um passo em direção à veracidade dos fatos, mas distanciando-se da nostalgia e deixando o espectador sem algo comum a todos os episódios e no qual se apegar. Documentário, embora não seja sinônimo de verdade, tem nas mãos o poder de contar os fatos de modo a convencer o espectador e essa é provavelmente a melhor característica dessa nova série da Netflix.

Muito mais realista, o programa dispensa diversos clichês do gênero e ganha qualidade, sem deixar de lado a essência de Mistérios Sem Solução, que é a participação do público. No site unsolved.com há um formulário para quem tiver dicas sobre algum caso ou para quem quiser submeter um novo caso que pode vir a ser tema de um dos episódios. Há, ainda, um arquivo com os casos organizados por categorias como fantasmas, lendas, amores perdidos, desaparecidos, assassinatos, psíquicos, ciência, tesouros, OVNIs, mortes sem explicação, procurados e, o melhor, casos resolvidos, todos eles com possibilidade de submissão de comentários (inclusive no modo anônimo). Com isso, Mistérios Sem Solução é mais que intermidiático, alcançando o transmidiático, ou seja, mais que a interação entre série e site, é necessário acessar a plataforma se quiser saber se um caso da série foi resolvido ou não: a história continua fora da tela.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Temas

Para conquistar o público, tornou-se necessário construir uma reputação. Apenas seis dos dez episódios de Mistérios Sem Solução foram lançados com a estreia da série. Destes, somente um explora algo além de um crime normal. O primeiro é uma morte sem explicação, o segundo é um assassinato sem um assassino, o terceiro apresenta um suspeito desaparecido, o quarto é um provável crime de ódio que encontra o timing perfeito para chegar aos espectadores e o sexto tem uma suspeita que sai ilesa pela falta de provas. Todos deixam a sensação de que o assassino pode estar em qualquer lugar, podendo ser, inclusive, um dos entrevistados.

Imagem: Netflix

Se por um lado isso traz mais credibilidade à série, que poderia perder os espectadores mais céticos, por outro faz com que ela perca um pouco do seu charme, o que revela que talvez os criadores estejam experimentando o público contemporâneo e, a depender das reações, se a série tiver continuidade no futuro, talvez possamos ver algumas mudanças ou até mesmo o retorno do host. Outro ponto positivo são as simulações, muito mais orgânicas ao ocultar os rostos dos atores, mostrando apenas vultos e imagens desfocadas, contribuindo para que a parte fictícia não soe falsa como na maioria dos documentários e permitindo que a imaginação do espectador preencha as lacunas.

Com tantos crimes de pessoas desaparecidas e estranhos assassinatos, o episódio sobre uma possível invasão alienígena surge como um oásis em Mistérios Sem Solução e o episódio seguinte, outro crime comum sem solução, acaba sofrendo um pouco por não manter o nível de empolgação do espectador, o que nos leva a questões éticas: até que ponto uma série sobre casos reais, com sofrimentos reais de pessoas reais, deve servir para o nosso entretenimento? Nesse sentido, os casos sobrenaturais ou envolvendo seres de outros mundos parecem um tópico mais seguro e mais fácil para brincar com as percepções do público.

Imagem: Netflix

Formas

Alguns episódios se destacam para além da história. A montagem de Mistérios Sem Solução é fundamental nesse sentido. As informações são disparadas em um ritmo que permite que o espectador monte suas próprias teorias, que logo em seguida serão contrariadas pela própria série, que solta informações novas com um espaço de tempo que permite que o próprio espectador vá compreendendo aos poucos os caminhos que tornaram aquele caso insolúvel.

No episódio sobre OVNIs a montagem é ainda mais essencial e ajuda a construir a veracidade das histórias, saltando de um depoimento para o outro no meio de uma sentença, mostrando como pessoas diferentes presenciaram o mesmo acontecimento e como seus relatos se encaixam perfeitamente. Esse episódio ganha ainda uma conexão bastante recente com o filme A Vastidão da Noite, uma produção indie sobre a experiência que uma pequena cidade tem com um disco voador: a descrição clássica do OVNI, a época e mesmo a sigla da rádio local se assemelham muito aos eventos relatados em Mistérios Sem Solução.

Imagem: Netflix

A série ainda é capaz de nos dar uma amostra do efeito Rashomon, título do filme de Akira Kurosawa apropriado pela psicologia para falar sobre quando um mesmo evento é relatado por diversas pessoas de forma diferente e ficamos sem saber o que de fato aconteceu, o que é visto principalmente no segundo e terceiro episódios. No segundo episódio, temos a palavra do filho contra a do companheiro da cabeleireira assassinada. No terceiro, os depoimentos dos amigos lançam suspeitas de uns sobre os outros, além de colocar em xeque a própria polícia local.

Mistérios Sem Solução é bastante satisfatória em termos de mostrar o quão difícil pode ser resolver um crime e o quanto as pessoas que deveriam servir à justiça muitas vezes são as que mais atrapalham, sobretudo em cidades menores ou quando as vítimas são de classes socialmente invisíveis. Quando o tema é de outro mundo, a série consegue ser muito mais cativante, mas parece ter seu potencial como auxiliar da justiça diminuído. Nesse sentido, a Netflix está diante de algo que, se equilibrado, não se tornará um dilema. A primeira temporada ainda não é suficiente para determinar Mistérios Sem Solução como um clássico à altura do original, porque ainda não foi capaz de fisgar fãs, mas tem um potencial tremendo para isso. Ficaremos aguardando pela curadoria dos próximos casos.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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