Crítica | Minari é puro como o olhar de uma criança

Por Sihan Felix | Editado por Jones Oliveira | 31 de Março de 2021 às 09h48
Plan B Entertainment

Um filme não tem a obrigação de ser real, de parecer realista. A direção pode optar, por exemplo, por caminhos que ressaltem a linguagem do cinema e a coloque em primeiro plano — como bem trabalha Brian De Palma. Mas, claro, pode ir ao encontro da realidade, com todo o aparato cinematográfico ficando camuflado. Minari, pelo olhar do diretor Lee Isaac Chung (de Abigail Harm — lançado em 2012), é um exemplo categórico dessa segunda opção.

Por mais que existam filmes que transitam pelo meio dessas duas formas — a maioria, talvez —, normalmente é mais nítido perceber uma ideia quando ela está totalmente entregue a uma extremidade. No caso de Minari, é possível identificar que existem escolhas racionais, formais, de planos e ângulos, mas elas funcionam sempre para reforçar a realidade das situações.

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

Água e coração

Pensando na abordagem escolhida por Chung, Minari flui porque a direção é consciente. Cada cena é guiada em direção à próxima. Nesse sentido, um close não chama a atenção pelo plano em si, mas por ressaltar elementos de uma verdade implícita, seja de um personagem ou da vida da família protagonista.

É um processo de construção que pode ficar claro já na abertura, quando Chung alterna entre as cenas no carro chegando ao novo lar da família e os closes no pequeno David (Alan S. Kim). Aos poucos, vai se estabelecendo um paralelo entre a história de adaptação e crescimento deles (da família Yi) com o desenvolvimento humano daquela criança. Inclusive, os pais, Jacob (Steven Yeun) e Monica (Yeri Han), estão sempre em ligação direta com ele (David), deixando a irmã, Anne (Noel Cho), em segundo plano.

David é o centro das atenções dos pais e da avó. (Imagem: Divulgação/Plan B Entertainment)

Além disso, do mesmo modo que o menino tem problemas de saúde, a própria família passa por momentos conturbados e, por isso, pode parecer tão em risco quanto — como a discussão na qual Jacob e Monica mencionam até separação. É interessante, ainda, que a saúde de David depende do seu coração, no que é uma metáfora delicada sobre a necessidade de um órgão como esse existir — simbolicamente — para que possa haver união naquela casa.

Acontece que a avó, Soonja (Yuh-jung Youn) surge como um motor de mudanças — particularmente, para David — assim como a compreensão da necessidade do próximo cede fôlego para que Monica e, especialmente, Jacob possam manter tudo em funcionamento. A água aparece, então, como o elemento purificador que é: chá para auxiliar tratamento, fundamental para irrigar a plantação e ponto onde Soonja cultivará a planta que dá nome ao filme, a minari — que, em inglês, é chamada de water dropwort (que é um nome comum para plantas do seu gênero).

A família Yi reunida. (Imagem: Divulgação/Plan B Entertainment)

Da ficção à realidade

A avó, que inicialmente confunde e transtorna David — "Você não parece com uma avó." — é quem parece mais à vontade com as questões culturais. É um contraste interessante promovido pelo roteiro do próprio Chung, dado que os mais jovens são vistos como mais adaptáveis. Mas Minari, apesar de todo o seu grau de realismo, não está disposto a facilidades narrativas. Seu desenvolvimento é centrado em David e é isso que a abertura, com aqueles closes pontuais no menino, começava a revelar. É um filme que está muito mais interessado em funcionar como uma memória da infância, daquelas que fundamentam a percepção de que nos tornamos quem e o que somos por sermos frutos do meio.

Aliás, David, por ser quem está em plena formação, acaba se vendo em dois mundos em vários níveis: duas línguas faladas pelos pais, dois países... e, com a chegada da avó, entre duas realidades. Soonja, por essa perspectiva, é, junto ao neto, o que há de intimamente mais complexo em Minari. Isso tudo é alimentado por Chung ao fomentar uma primeira camada com uma personagem que adora assistir à luta livre e tomar "água da montanha", mas é, simultaneamente, extremamente carinhosa.

A relação dela (Soonja) com David contém, finalmente, a síntese do filme. Enquanto o diretor decupou cada cena para que elas funcionem como reforço da realidade vivida pelos protagonistas, o que há entre neto e avó é uma adaptação gradual. Os planos de Chung tornam-se mais fechados entre os dois conforme o tempo passa, a ponto de eles estarem com o mesmo foco e dentro do mesmo quadro próximo do fim. Essa exposição imagética, dessa maneira, é uma progressão do próprio ajuste da família enquanto imigrantes.

O carinho de Soonja pelo neto é transparente. (Imagem: Divulgação/Plan B Entertainment)

Mas um dos momentos mais importantes de Minari é quando o diretor fecha o plano em Soonja quando ela, desavisada (ou enganada mesmo), bebe um pequeno gole da urina de David. A repulsa dela por aquele líquido só não é maior do que o carinho que, pouco depois, a faz perdoar, ou melhor, entender a atitude dele e, com isso, deixar à tona sua disposição para ajudar na experiência rica e humana pela qual estão passando.

Minari é um filme que investe inteiramente em uma realidade e, para isso, utiliza-se da linguagem do cinema — esta que fica camuflada, como um suporte. Mas é uma ficção e, com isso, de repente, pode até remeter ao maior documentarista brasileiro, Eduardo Coutinho, quando disse em um debate que "ao se aproximar mais do real, o documentário vira ficção". Este deve ser o maior poder do trabalho de Chung e equipe, mas em inversão, por não se tratar de um doc: fazer uma realidade da ficção.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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