Crítica | Silenciadas e a temida liberdade feminina

Crítica | Silenciadas e a temida liberdade feminina

Por Sihan Felix | Editado por Jones Oliveira | 12 de Março de 2021 às 23h30
Sorgin Films

Por acusação de bruxaria, cerca de 100 mil mulheres podem ter sido executadas durante a História. A maior parte delas era queimada viva, mas, caso alguma confessasse por qualquer motivo, poderia morrer por estrangulamento. Silenciadas parece partir de um viés atual, no qual a caça às bruxas é vista como um genocídio do sexo feminino.

O que pode ser óbvio hoje — a menos que alguém acredite na retidão da Inquisição e desse extermínio que durou séculos — era uma forma de a Igreja enriquecer com os bens confiscados das vítimas e uma ferramenta para a sustentação masculina no poder. Claro que, de todo modo, isso é só uma pequena síntese e, pelo mesmo viés atual, se o Humanismo e o Iluminismo contribuiriam para a diminuição dos julgamentos por bruxaria e os fariam terminar no século XVIII, isso não quer dizer que a matança acabou.

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

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Em nome de Sua Majestade 

Em Silenciadas, é provável que fique claro o quanto um homem — especialmente um que detém o poder — pode ser capaz de querer extinguir o belo. Não por pura maldade, mas porque a ela (à maldade) junta-se a perspectiva de não poder possuir. De repente, cria-se um paradoxo: Como alguém que é visto como poderoso e julga ter poder não pode desfrutar de todos os seus desejos?

Esse princípio é dissolvido durante o filme pelo roteiro de Pablo Agüero (de Eva Não Dome) e do estreante em longas-metragens Katell Guillou, com um diálogo expondo de maneira explícita um jogo de poder onde Sua Majestade está acima de Deus. Inclusive, esse trecho ocorre nos minutos finais e é protagonizado pelo Padre Cristóbal (Asier Oruesagasti) e pelo consejero de Rostegui (Daniel Fanego). De um jeito simples, eles sobrepõem poderes até chegar ao máximo:

Levem as prisioneiras. — Diz o Padre.
Você não tem autoridade para dar ordens. — Responde o consejero.
Em nome de Deus! — Invoca Cristóbal.
Em nome de Sua Majestade, exijo obediência! — Finaliza a personagem de Fanego.

"Em nome de Sua Majestade, exijo obediência!" (Imagem: Reprodução/Netflix)

Nessa disputa, é interessante constatar que o Padre, por mais que seja uma voz da Igreja, não tem autoridade sobre Rostegui e nem mesmo para discutir com um escrivão-conselheiro. Frente a isso, clamar o que quer que seja pela Majestade — por uma pessoa em um cargo de poder objetivo — tem mais peso do que o apelo de um reverendo em nome da força subjetiva que, para eles, é justamente quem estaria contra os demônios da bruxaria.

Enfim, a liberdade

A direção do próprio Agüero não economiza na abordagem contra-beleza dos caçadores de bruxas. Além de construir o aprisionamento pela descoberta de que as jovens lideradas por Ana (Amaia Aberasturi) estavam cantando e dançando em uma floresta próxima, ele (Agüero) expõe a própria protagonista em uma posição que em muito lembra uma estátua grega.

Nesse sentido, as artes do canto e da dança como embelezamento do mundo são motivo de aprisionamento e o belo clássico — que é definido na arte grega com base em um ideal de perfeição, harmonia, equilíbrio e graça representado pela simetria e proporção — da nudez dela (de Ana) é bruxaria aos olhos de Rostegui (Alex Brendemühl)... este que fica impedido de possuir tal beleza. Além disso, os desenhos (as artes) do consejero jamais chegam perto da beleza daquilo que é desenhado.

Bruxaria aos olhos de Rostegui. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Por meio desse jogo, Agüero permanece livre para arquitetar suas cenas de uma maneira a trazer, simultaneamente, a feiura e seu oposto. Esteticamente, tudo é idealizado pelo diretor para que o que é feio componha as cenas onde somente homens estão presentes: a iluminação da direção de fotografia de Javier Agirre (de La trinchera infinita) ora é dura ora é insuficiente, o desenho de produção de Mikel Serrano (de Oreina) compõe as cenas com desgaste e, acima disso, as atitudes são sempre, no mínimo, covardes; enquanto isso, não importa se uma personagem está somente ajeitando um pouco de feno para se recostar ou se todas juntas ensaiam um cântico supostamente bruxesco, porque há, na presença delas, sempre uma luz, um sorriso, que ilumina como se ressaltasse a feminilidade em meio àquele mundo hostil.

O encerramento, enfim, é de um simbolismo, novamente, atual. A chama acesa deixada por Ana na beira do precipício é o fogo do silêncio forçado. As fogueiras nas quais supostas bruxas eram queimadas vivas eram compostas pelo mesmo fogo que somente anos de opressão podem acender com vida. Se elas voam ou não, o que importa é que elas estavam prontas para voar. Talvez em direção a um futuro menos hostil; talvez em oposição a pisar no mesmo solo daquela feiura moral; talvez para que, de mãos dadas, possam demonstrar que homens — grupo do qual não me excluo — são completos imbecis quando subjugam o sexo oposto.

O fogo do silêncio forçado. (Imagem: Reprodução/Netflix)

A liberdade delas era tudo o que Rostegui, o seu consejero e até o Padre Cristóbal temiam.

Silenciadas está disponível no catálogo da Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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